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Jovem empreendedor do interior do Amapá transforma frutos amazônicos em bebidas fermentadas

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  • há 3 minutos
  • 4 min de leitura

Grimaldo Melo transformou açaí, cupuaçu e taperebá em bebidas fermentadas artesanais que já chegam a três estados e preparam terreno para a exportação.


Por Eloyze Monte e Fernanda Serrano*


Casal empreendedor Grimaldo Melo e Larissa Lobato. Foto: Eloyze Monte.
Casal empreendedor Grimaldo Melo e Larissa Lobato. Foto: Eloyze Monte.

O açaí é um dos principais símbolos da Amazônia e está presente diariamente na alimentação das famílias da região. Tradicionalmente batido até virar um creme denso, servido em tigela ou copo ao lado de peixe, camarão ou charque, o fruto movimenta mais de 40 milhões em receita anual no Brasil, segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Mas foi ao enxergar novas possibilidades para esse produto que o empreendedor Grimaldo Melo decidiu investir em um mercado ainda pouco explorado no estado do Amapá: o das bebidas fermentadas produzidas a partir de frutos amazônicos.


Grimaldo conta que a ideia da Golden Hands nasceu de uma visita técnica à Flor de Samaúma, uma adega de bebidas fermentadas da região. “Fiquei intrigado ao perceber como um alimento que consumimos normalmente poderia se transformar em uma bebida complexa. Aquilo despertou minha curiosidade e comecei a buscar mais conhecimento sobre o assunto”.


O interesse despertado naquela visita levou Grimaldo a fundar, em 2024, a Golden Hands, localizada em Mazagão Novo, às margens do rio Beija-Flor. A empresa produz bebidas fermentadas de açaí, cupuaçu, caju e taperebá, além de um hidromel inédito inspirado na biodiversidade amazônica, e conta com nove colaboradores diretos e cerca de 20 indiretos.

Empreendimento contribui para geração de empregos locais. Foto: Eloyze Monte.
Empreendimento contribui para geração de empregos locais. Foto: Eloyze Monte.

Meses depois, ele participou do primeiro curso de fabricação de açaí tinto do Amapá, promovido pelo Sebrae. Durante a capacitação, desenvolveu sua própria receita e chamou a atenção dos instrutores durante uma degustação coletiva.

“Lembro que o professor analisou os aromas da bebida e perguntou o que eu tinha feito para chegar naquele resultado. Foi nesse momento que percebi que poderia seguir nesse segmento”, relembra.


Com investimento inicial de R$20 mil e apoio da família, iniciou a produção das primeiras garrafas. A confirmação de que havia potencial de mercado veio logo nas primeiras vendas.


“Quando comercializamos as primeiras 50 garrafas e começamos a receber novos pedidos e sugestões de produtos, entendemos que aquilo poderia deixar de ser apenas uma experiência e se tornar uma empresa”, conta.

Grimaldo na certificação do curso de Fábrica de Açaí Tinto oferecido pelo Sebrae. Foto: arquivo pessoal.
Grimaldo na certificação do curso de Fábrica de Açaí Tinto oferecido pelo Sebrae. Foto: arquivo pessoal.

A Golden Hands produz cerca de 400 garrafas por mês, comercializando por e-commerce, restaurantes, empórios e espaços colaborativos de Macapá. As bebidas já chegaram a consumidores de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.


Um dos diferenciais da empresa, segundo Grimaldo, é o cuidado com a seleção da matéria-prima e o aperfeiçoamento dos processos de fermentação voltados aos frutos amazônicos.


“A fermentação é uma técnica milenar. O que fazemos é adaptar e aprimorar esse processo para valorizar os sabores e aromas da Amazônia, sem utilizar conservantes e buscando sempre a melhor qualidade possível”.


Na prática, a produção envolve etapas de seleção, limpeza e sanitização dos frutos, seguidas por um processo controlado de fermentação que pode durar semanas, dependendo da bebida. Durante esse período, são monitorados fatores como temperatura, acidez e desenvolvimento dos aromas.

Processo de fermentação. Foto: Fernanda Serrano.
Processo de fermentação. Foto: Fernanda Serrano.

Além da produção própria, o empreendimento movimenta a economia local. A coleta dos frutos envolve moradores da comunidade de Mazagão e beneficia diretamente pelo menos quatro famílias, mesmo com 90% da matéria-prima vindo de áreas produtivas própria empresa.


Para Grimaldo, o crescimento da empresa vai além de resultados comerciais. A Golden Hands quer mostrar que a biodiversidade amazônica pode gerar produtos inovadores, fortalecer economias locais e abrir novos mercados para quem vive na região.


Processo de limpeza e sanitização do açaí produzido na fábrica Golden Hands, em Mazagão. Foto: Eloyze Monte.
Processo de limpeza e sanitização do açaí produzido na fábrica Golden Hands, em Mazagão. Foto: Eloyze Monte.

Bioeconomia como oportunidade de negócio


A trajetória da Golden Hands acompanha um movimento que tem ganhado força na Amazônia: a criação de negócios que utilizam recursos da biodiversidade para desenvolver produtos inovadores.


Para Josseli Pantoja, gerente da unidade de inovação do Sebrae Amapá, fortalecer esse tipo de empreendimento é fundamental para transformar o potencial econômico da região em renda.


“O Sebrae atua como um dos principais motores do empreendedorismo sustentável na região, transformando a bioeconomia, as startups e a inovação territorial em caminhos concretos para gerar riqueza sem degradar a floresta e criar novos modelos de negócios”, afirma.


Josseli Pantoja, especialista em gestão estratégica. Foto: Rafael Carneiro.
Josseli Pantoja, especialista em gestão estratégica. Foto: Rafael Carneiro.

Programas como o Inova Bio, o Inova Amazônia e o Empretec ajudam empreendedores a estruturar ideias, fortalecer a gestão e acessar novos mercados, suporte especialmente relevante em um estado onde muitos negócios ainda enfrentam dificuldades de financiamento, qualificação e comercialização. A plataforma Sebrae Startups reúne mais de 200 negócios no estado, entre empreendimentos da bioeconomia e startups de tecnologia.



Hidromel: a próxima aposta


A Golden Hands prepara o lançamento de um novo produto: um hidromel desenvolvido em parceria com a Norte Mel, empresa amapaense especializada na produção de mel natural.


Considerada uma das bebidas fermentadas mais antigas do mundo, o hidromel é produzido a partir da fermentação do mel e vem ganhando espaço entre consumidores que buscam novas experiências gastronômicas. A proposta da empresa é unir essa tradição milenar aos sabores e à identidade da Amazônia.


O mel utilizado na produção é fornecido pela Norte Mel, empreendimento que nasceu com a proposta de oferecer um produto 100% natural e valorizar a apicultura desenvolvida no estado. O negócio surgiu da conexão entre a natureza e o propósito de transformar o trabalho realizado pelos produtores em um mel puro e verdadeiro.


Produto fruto da parceria entre empreendimentos amapaenses. Foto: Cristiane Mareco.
Produto fruto da parceria entre empreendimentos amapaenses. Foto: Cristiane Mareco.

Para a Golden Hands, o lançamento representa mais um passo na diversificação do portfólio e na busca por bebidas que tenham identidade amazônica e potencial para alcançar novos mercados.


Novo nome, novos mercados


A empresa também prepara uma nova identidade visual. A marca passará a se chamar Pizzolato, referência ao sobrenome da família de Grimaldo. A mudança faz parte de uma estratégia de posicionamento para a próxima fase do negócio, que inclui expansão para novos estados e, futuramente, para o mercado internacional.


Para Larissa Lobato, esposa e sócia de Grimaldo, o horizonte mudou. "Há dois anos, a gente nem imaginava a possibilidade de sair do estado. Hoje a gente fala muito sobre exportar para outros países, Itália e lugares na Europa", destaca.


A empresa passa por um rebranding e em breve será Pizzolato. Foto: Fernanda Serrano.
A empresa passa por um rebranding e em breve será Pizzolato. Foto: Fernanda Serrano.

*Reportagem produzida na disciplina de Webjornalismo, ministrada pelo professor Dr. Danilo Borges.

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