Trem x Paysandu: crônicas em três tempos de uma noite decisiva no Augusto Antunes
- AGCom

- há 2 horas
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Ed Mendes, Fernanda Oliveira e Caio Vinicius / AGCOM Esporte*

O clima antes do apito inicial
Eram 17h em Santana, e o sol começava a se despedir, mas o calor, esse não dava trégua. No estádio Augusto Antunes, a temperatura marcava 29 graus, mas com sensação de abafamento típica da nossa região. A umidade relativa do ar beirava os 90%, daquelas que molham a camisa só de respirar. Porém, nem isso espantava o torcedor.
O jogo do Trem-AP contra o Paysandu, pela Copa Norte, estava marcado para as 19h. Duas horas antes, o movimento já era de clássico. Os ambulantes faziam a festa com suas vendas: o cheiro de “churrasquinho de gato” no espeto competia com o do queijo coalho sendo assado, e ainda tinha o barulho das latas de cerveja sendo abertas ecoando pelas arquibancadas.
Crianças com camisas dos dois times corriam na rua em frente às arquibancadas, deixando claro que o futebol ali era programa de família. As duas torcidas conviviam em paz. O Paysandu, um dos gigantes paraenses, mostrou sua força: mesmo fora de casa, era maioria no estádio com capacidade para cerca de 2.300 torcedores.
A torcida do Trem não se entregava e também mostrava sua força. No setor rubro-negro, uma charanga embalava os torcedores, com músicas de apoio e até clássicos da música brasileira, como “Ilariê”, da Xuxa, e “Está chegando a hora”, de Wilson Simonal.
No gramado, os preparativos finais estavam sendo feitos, com profissionais das duas equipes preparando o local para o aquecimento dos jogadores. As equipes de imprensa já se alocavam nos melhores lugares para não perder nenhum registro da grande partida que se aproximava. Afinal, era uma decisão: a depender do resultado da partida entre Nacional-AM e Guaporé-RO, as duas equipes tinham chances claras de classificação para a próxima fase da competição.
O relógio marcava 18h50, a temperatura caía um pouco, para 27°C. A bola ainda não rolava, mas a festa já era o grande destaque. As duas torcidas se faziam presentes, exaltando suas equipes. O pré-jogo foi um espetáculo à parte. E, quando o juiz apitar, não importará o resultado, pois o futebol já terá mostrado sua força e seu poder de união.

O jogo: cada minuto conta
Às 19h em ponto o juiz deu início a partida e a bola começou a rolar. Naquele momento, a tensão, que já era grande, tomou conta do Estádio Augusto Antunes, em Santana, afinal era uma decisão, um tudo ou nada para saber quem iria para a semifinal da Copa Norte: Paysandu ou Trem. O nervosismo de cada torcedor era tanto que estava quase palpável.
Já era possível sentir que seria um grande jogo, o que ficou bem mais claro com menos de 15 minutos de bola rolando. Aos 13 minutos do primeiro tempo, o jogo já tinha duas expulsões, uma para cada lado, e um recado claro dos times: ali não ia ter espaço para jogo morno. Ia ser disputado, em cada minuto, do início ao fim.
A partida estava fervorosa, o Paysandu apertava no ataque cada vez mais, porque precisava da vitória para ser classificado. E toda essa pressão deu resultado. Ainda no primeiro tempo, o jogador Lucas Cardoso abriu o placar e levou a torcida do Papão a loucura, estremecendo o estádio com a comemoração. Com esse gol, a Locomotiva partiu para um jogo mais ofensivo e conseguiu criar uma chance mais perigosa nos acréscimos. Uma bola de fora da área parou nos braços do goleiro Jean Drosny.
Mesmo com o apito do intervalo, a torcida rubro-negra não conseguia relaxar. Já a torcida bicolor estava fervorosa, sentiam a proximidade da classificação. Mas o Trem voltou com tudo no segundo tempo, deixando claro que não iria desistir da Copa Norte fácil. Logo nos primeiros 10 minutos do segundo tempo, o time criou duas grandes oportunidades, com um chute de Gotinha e uma cabeceada de Aleílson, mas que não foram certeiras para infelicidade dos rubro-negros. Os minutos seguintes foram assim: muita pressão da Locomotiva, mas sem nenhum resultado positivo.
Aos 26 minutos, Juninho do Paysandu ampliou a diferença e marcou o segundo. Passados quatro minutos no relógio, o time bicolor, afastando ainda mais o sonho dos rubro-negros de serem classificados para a semifinal, faz o terceiro gol com Thayllon, que marcou de fora da grande área.
Com um placar de 3x0, há quem pense que a Locomotiva recuou, mas não, o time manteve o pique e continuou partindo para o ataque. Faltando 10 minutos para o fim da partida, o jogador Mauro Ajuruteua criou uma expectativa com lance de cabeça, mas o goleiro Jean Drosny brilhou novamente com uma boa defesa.
A partida chegou ao fim, com um estádio dividido. O time paraense e seus torcedores foram classificados para a semifinal da Copa Norte. Enquanto do outro lado do estádio, sentia o sonho escorrendo pelas mãos. A derrota adiou o sonho do Trem e deixou a torcida rubro-negra com o grito da vitória entalado na garganta.

Tão perto, tão distante: o torcedor da Locomotiva vê a classificação se esvair diante dos seus olhos
Após o apito final, era nítida a frustração presente no olhar dos jogadores do time do Trem, que estiveram muito próximos da classificação para a próxima fase da Copa Norte. Sentimento esse, partilhado pela torcida da Locomotiva, que apoiou ferrenhamente o time durante os 90 minutos da partida.
Exaustos, os jogadores do rubro-negro se atiraram ao chão depois de uma partida extenuante, que exigiu uma entrega ainda maior que a de costume, atuando com um jogador a menos desde os 14 minutos do primeiro tempo, após uma expulsão boba do seu camisa 4, Perema.
O trabalho ‘hercúleo’ de jogar com 10 jogadores também foi aplicado à equipe do Paysandu, que teve o seu camisa 5 Henrico expulso em um lance evitável, junto ao Perema do Trem. Com ambas as equipes tendo que correr em dobro, o Papão soube aproveitar melhor as suas oportunidades ofensivas, sendo eficiente quando as chances apareceram.
Era uma daquelas noites em que nada parecia dar certo para a equipe rubro-negra. Wanderson Gotinha, camisa 7 do Trem, era a principal esperança criativa da locomotiva. Entre cruzamentos para a área, chutes de longa distância, cobranças de falta, o camisa 7 foi um personagem solitário durante a partida.
Por outro lado, Thayllon, camisa 19 bicolor, parecia estar em chamas, proporcionando um verdadeiro show aos espectadores, terminando a partida com uma assistência e um lindo gol de fora da área, que lembrou a jogada característica do holandês Arjen Robben, cortando para a esquerda e estufando o barbante.
Não podemos dizer que o clima de frustração no estádio foi uníssono, afinal, a maioria dos torcedores presentes era de bicolores paraenses. A partida proporcionou uma daquelas oportunidades únicas de ver o seu time de coração da arquibancada de um estádio, já que no Amapá existe uma grande concentração de paraenses, que tiveram a chance de ver o seu Papão construir um ‘placar clássico’ de 3x0 no Augusto Antunes.
Aos torcedores do Trem, restou a lamentação pela eliminação da locomotiva amapaense, mas também o orgulho de ter visto a entrega dos jogadores em campo, que correram em dobro por mais de 70 minutos.
*Este conteúdo foi produzido na disciplina de Jornalismo Esportivo, ministrada pelo professor doutor Alan Milhomem.




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