SUS Para Todos? As dificuldades de acesso à saúde no Polo Hortifrutigranjeiro, em Macapá
- AGCom

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Há mais de 40 anos, moradores enfrentam distância, falta de transporte e ausência de estrutura no acesso à saúde.
Por Emilly Almeida*

“Se adoece de noite, conta com os vizinhos, isso quando eles podem levar. Quando não podem, é esperar amanhecer porque a ambulância não entra aqui (...) e a UBS é longe. O jeito é esperar até chegar de manhã para poder chamar um carro e ir.” A resposta é de Marlene de Jesus, moradora do Polo Hortifrutigranjeiro, ao ser questionada sobre o que os moradores fazem quando adoecem durante a noite.
Marlene tem 58 anos, é agricultora e vive no Polo Hortifrutigranjeiro há mais de 40 anos. Segundo ela, desde que chegou à região, o acesso aos serviços públicos essenciais permanece praticamente o mesmo, sem melhorias voltadas à saúde da população local.

Diabética, Marlene sofreu, em 2023, um corte no pé direito enquanto trabalhava em casa. No momento do acidente, descartou a possibilidade de procurar atendimento na Unidade Básica de Saúde (UBS), já que a unidade mais próxima fica a cerca de três quilômetros de distância de onde mora. Como não dispõe de meio de transporte particular e o Polo não conta com nenhuma parada de ônibus, resolveu seguir com seus afazeres.
À noite, porém, percebeu que o corte não havia cicatrizado e que a situação exigia cuidados médicos.
As condições do ramal impuseram novos limites à tentativa de buscar atendimento. Sem iluminação pública e com pouca circulação de veículos, Marlene precisou aguardar o amanhecer para tentar chegar ao hospital. A demora teve consequências que ultrapassam aquela noite.
O atraso no acesso ao atendimento resultou na amputação de sua perna, realizada após sua internação no Hospital de Emergência.
A situação de Marlene não é um caso isolado, mas reflete a realidade de centenas de moradores do Polo Hortifrutigranjeiro. O território foi inaugurado em 1983, durante o governo de Annibal Barcellos, então governador do ex-Território Federal do Amapá. O projeto previa a distribuição de lotes a agricultores interessados, sob a responsabilidade da Secretaria de Agricultura (Seag), encarregada de planejar e garantir a infraestrutura básica.
À época, os lotes foram padronizados, uma escola de ensino fundamental foi construída, a energia elétrica foi instalada e sistemas de irrigação receberam financiamento público. No entanto, o planejamento desconsiderou a capacidade da rede de saúde para atender os moradores que se estabeleciam no território. A única unidade básica de saúde próxima não acompanhou o crescimento e as demandas por serviços.
Esse déficit no planejamento trouxe consequências não só para os moradores, mas também para os profissionais da saúde que passaram a atuar na região. Com a ausência de uma estrutura compatível, as equipes da Estratégia Saúde da Família (ESF) passaram a enfrentar uma sobrecarga de trabalho.
Segundo a professora Camila Nemer, do colegiado de Enfermagem da Universidade Federal do Amapá (Unifap), a ESF é o principal modelo de organização da Atenção Primária à Saúde no Sistema Único de Saúde (SUS). Ela atua no acompanhamento contínuo das famílias, tanto na prevenção quanto no tratamento de doenças, a partir de territórios previamente definidos.
Cada equipe é formada, no mínimo, por um médico, enfermeiro, técnico ou auxiliar de enfermagem e agentes comunitários de saúde, que devem conhecer a realidade social, econômica e sanitária da população.
Na prática, os agentes são o primeiro contato entre os moradores e o sistema de saúde, visitando casas, identificando riscos e criando um vínculo com as famílias. Um agente de saúde que atuou na região, e que preferiu não se identificar por medo de perseguição política, explicou que a maior parte do atendimento oferecido ocorre por meio da ESF.
“Eu falo que 90% da Saúde Pública é a Estratégia Saúde da Família, não é a UBS. Aqui [na UBS], no máximo você faz um curativo e depois procura o pessoal da Saúde da Família para continuar o atendimento. (...) A UBS é só isso, a porta de entrada, e nós não. A gente vai vivendo o mundo deles”, contou.
As dificuldades enfrentadas pelos moradores também afetam diretamente o trabalho das equipes de saúde. Segundo o agente, o município não fornece transporte para o deslocamento dos trabalhadores até os ramais e áreas mais afastadas. Muitos profissionais utilizam meios próprios, o que gera custos e prejuízos.
“Meu carro eu não sei quantas vezes eu perdi. Eu ia no meu transporte mesmo, mas com a suspensão dele todo mês eu tinha um prejuízo de mil, mil e pouco, dois mil. (...) É muito difícil, o município não dá aquele suporte 100%.”, relatou.
Em alguns ramais, o acesso inclui travessias de igarapés, tornando o deslocamento ainda mais difícil.

Marlene relata que, nos mais de 40 anos em que vive no Polo, viu um médico uma vez. O agente explica que os médicos lotados para trabalhar na ESF não têm vínculo efetivo com o município, o que faz com que gera alta rotatividade, interrompendo o planejamento das ações. “A gente trabalha com cronograma, com visita marcada, mas quando o médico sai, tudo isso quebra”, explica. Essa instabilidade compromete o acompanhamento de pacientes e gera uma sobrecarga no resto da equipe, que têm que se readequar de forma rápida.
Além disso, a UBS Pedro Barros é a única unidade responsável por uma área extensa, que inclui bairros como Vale Verde, Fazendinha, Chefe Clodoaldo, Murici e Bioparque, além dos ramais do Polo Hortifrutigranjeiro, Cascalheiras, condomínios do entorno e outros territórios próximos. O agente exemplificou a limitação da capacidade de atendimento: “Uma odontóloga chega a atender oito pacientes por dia. Ali [no Polo] tem por volta de umas 800 pessoas, por volta de umas 180 famílias. É muita gente. Como é que eu vou fazer um milagre com oito vagas? Eu acho que o município deveria expandir mais, mudar as ideias, ter uma carreta de atendimento, trabalhar mais com as ações, aí a gente avançaria”.
Camila Nemer reforça que as UBSs deveriam estar localizadas próximas da população e que a definição de onde serão construídas deve considerar critérios como densidade populacional, crescimento urbano, perfil epidemiológico, vulnerabilidade social e facilidade de acesso. Na prática, porém, esses critérios nem sempre são respeitados, o que resulta em áreas extensas com cobertura insuficiente de serviços de saúde.
Para ela, a ampliação do número de equipes da ESF e a adoção de vínculos de trabalho mais estáveis para os profissionais, especialmente para médicos, são iniciativas possíveis para fortalecer o sistema de saúde na região. Em territórios extensos ou de difícil acesso, como o Polo, o SUS prevê ainda a implantação de pontos de apoio ou unidades satélites, aproximando os serviços da população.
A Política Nacional de Atenção Básica (PNAB) e a legislação do SUS asseguram o direito à saúde de forma universal, integral e equânime, reconhecendo que os territórios mais vulneráveis exigem estratégias diferenciadas de organização do cuidado. Entretanto, a região do Polo Hortifrutigranjeiro segue tendo esses direitos negados há mais de quatro décadas.
Durante a produção desta reportagem, as reclamações dos moradores e funcionários dessa região foram apresentadas à Secretaria de Saúde do Município, que não deu retorno algum, mesmo em frente às cobranças.
As histórias de Marlene e do agente comunitário são apenas dois exemplos entre centenas de pessoas que são afetadas diariamente pelo descaso que os gestores têm com a região. Os anos passam e os moradores do Polo Hortifrutigranjeiro se veem forçados a viver assim, sem respostas, sem esperança de mudança e, o pior, sem acesso a um direito básico de todo cidadão brasileiro: a saúde pública de qualidade.
*Reportagem produzida na disciplina de Webjornalismo, ministrada pelo professor Dr. Danilo Borges.




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