Empreendedores ribeirinhos usam WhatsApp para ampliar vendas e fortalecer renda familiar em Santana
- AGCom

- há 3 horas
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Moradores da comunidade Foz do Rio Vila Nova utilizam o aplicativo para divulgar produtos, organizar encomendas e impulsionar pequenos negócios em território ribeirinho
Por Raila Souza*

Enquanto o WhatsApp se consolida como a principal ferramenta de comunicação e vendas para micro e pequenos negócios no Brasil, moradores da comunidade ribeirinha Foz do Rio Vila Nova, localizada em Santana (AP), mostram como a tecnologia tem transformado a comercialização de produtos locais. Utilizado para divulgar mercadorias, receber encomendas e organizar entregas, o aplicativo passou a integrar a rotina de pescadores e pequenos comerciantes que dependem da venda de peixe, camarão, açaí, ovos e outros alimentos para complementar a renda familiar.
Em uma região onde os rios funcionam como estradas e o transporte é realizado principalmente por embarcações, a comunicação rápida com os clientes tornou-se uma aliada importante para quem vive do comércio local. Hoje, parte dessas negociações começa antes mesmo da saída das embarcações, por meio de mensagens enviadas pelo celular.
Danilo da Costa Baía, de 27 anos, comercializa camarão, peixes, ovos, frangos e outros alimentos. Segundo ele, o WhatsApp se tornou o principal canal de contato com os clientes. “O WhatsApp é o meu principal meio de divulgar e vender. Eu posto os produtos nos status, divulgo nos grupos das comunidades e as pessoas já fazem as encomendas”, afirma.

Além de facilitar a divulgação, o aplicativo ampliou o alcance do seu trabalho. Segundo Danilo, muitos clientes compartilham os produtos adquiridos em seus próprios status, contribuindo para atrair novos compradores. “Sempre que alguém compra comigo, posta nos status. Outras pessoas acabam vendo e me procuram para comprar também. Isso impulsiona ainda mais as minhas vendas”, relata.
Tecnologia que fortalece a economia local
Essa prática observada na comunidade Foz do Rio Vila Nova acompanha uma tendência nacional. De acordo com a 12ª edição da pesquisa Pulso dos Pequenos Negócios, realizada pelo Sebrae entre fevereiro e março de 2026, 82% dos micro e pequenos empreendimentos brasileiros utilizam o WhatsApp como principal canal de comunicação e vendas. O aplicativo lidera com ampla vantagem sobre outras plataformas digitais, como o Instagram, utilizado por 57% dos negócios, e o Facebook, presente em 30%.
O levantamento também aponta que 73% dos pequenos negócios brasileiros já possuem alguma atuação no ambiente digital. Nesse cenário, o WhatsApp ocupa posição estratégica por permitir negociações rápidas, comunicação direta com clientes e gestão simplificada de pedidos sem a necessidade de sistemas mais complexos.

Na comunidade ribeirinha, o aplicativo funciona como uma vitrine virtual. Grupos comunitários e a função Status são utilizados diariamente para divulgar peixes, camarão, açaí, ovos e outros produtos comercializados pelos moradores. A ferramenta permite que os clientes realizem reservas e façam encomendas antecipadas, facilitando a organização das vendas.
O aplicativo passou a integrar as dinâmicas econômicas locais. As relações de confiança que tradicionalmente sustentam as trocas comerciais na comunidade encontraram no ambiente digital uma nova forma de circulação. As recomendações entre vizinhos, familiares e clientes continuam sendo fundamentais para o fortalecimento dos negócios, agora potencializadas pelas redes de contato existentes no WhatsApp.
Pequenos negócios em transformação digital
A adoção de ferramentas digitais por pequenos empreendedores tem sido apontada por especialistas como uma das principais estratégias para ampliar mercados e fortalecer atividades econômicas locais. Em comunidades afastadas dos grandes centros urbanos, soluções de baixo custo e fácil acesso desempenham papel ainda mais relevante.

Na comunidade ribeirinha, a transformação digital ocorre sem romper com os modos de vida tradicionais. O aplicativo é utilizado como uma extensão das relações comunitárias já existentes, conectando vendedores e compradores que compartilham laços familiares, de vizinhança e de convivência cotidiana.
A dinâmica demonstra como a tecnologia pode ser apropriada de acordo com as necessidades locais. Em vez de substituir práticas tradicionais, o WhatsApp passa a complementar atividades que há décadas fazem parte da economia ribeirinha.
Encomendas antecipadas reduzem custos e aumentam a eficiência
Uma das principais mudanças percebidas pelos moradores está relacionada à organização das entregas. Antes da popularização do aplicativo, era comum percorrer diferentes áreas da comunidade oferecendo produtos sem garantia de venda.
Hoje, boa parte das encomendas é realizada antecipadamente. Isso permite que os vendedores planejem melhor os deslocamentos, reduzam gastos com combustível e utilizem o tempo de forma mais eficiente.
A pescadora e vendedora de açaí Geovana Ribeiro da Costa, de 41 anos, afirma que o WhatsApp se tornou uma ferramenta essencial para o negócio da família. “O WhatsApp se tornou a nossa ferramenta de venda. No grupo da comunidade e nos status postamos que estamos recebendo encomendas e as pessoas fazem suas reservas”, explica.
Segundo ela, a mudança trouxe mais praticidade para o processo de comercialização. “Antes precisávamos passar de casa em casa oferecendo. Hoje, quando vamos entregar, já sabemos o endereço e a quantidade exata que cada pessoa pediu”, conta.
Geovana destaca que a adaptação ao uso da tecnologia aconteceu rapidamente. “Foi muito rápido. Eu não usava tanto o WhatsApp antes, mas me acostumei rápido e as vendas começaram logo”, afirma.
Tradição e inovação caminham juntas
Apesar das transformações provocadas pela tecnologia, o comércio local continua preservando características históricas da vida ribeirinha amazônica. As embarcações seguem transportando alimentos pelos rios, conectando comunidades e garantindo a circulação de produtos entre produtores e consumidores.

A diferença é que muitas negociações agora começam antes da viagem, por meio de mensagens trocadas no grupo comunitário ou diretamente entre vendedores e clientes.
Outro aspecto que chama atenção é a predominância das mensagens de áudio nas negociações. Segundo os moradores, a praticidade desse formato facilita a comunicação durante atividades como pesca, deslocamentos de barco e trabalhos realizados fora de casa.
A incorporação da tecnologia ao cotidiano demonstra que inovação e tradição não são processos opostos. Na comunidade, ambos coexistem e se complementam, contribuindo para fortalecer formas locais de geração de renda.
Renda que permanece na comunidade
A venda de alimentos produzidos ou comercializados pelos próprios moradores desempenha papel importante na economia da comunidade Foz do Rio Vila Nova. Como as negociações acontecem diretamente entre vendedores e consumidores da própria região, parte significativa dos recursos financeiros permanece circulando dentro da comunidade, além disso, reflete uma realidade observada em grande parte da Região Norte. De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de informalidade em estados do Norte e Nordeste supera 50% da população ocupada. Isso contribui para o sustento de diversas famílias e fortalecendo a economia local.
No caso de Geovana, a venda de açaí representa uma atividade complementar à pesca, prática tradicional da família há gerações. “Sou filha e neta de pescadores. Sempre vivemos da pesca. Além de consumir o açaí, também vendíamos para comprar outros alimentos”, relata.

Ao combinar conhecimentos tradicionais com ferramentas digitais acessíveis, os moradores encontraram novas formas de fortalecer seus negócios sem abandonar as práticas que historicamente sustentam a vida na região.
As embarcações continuam cruzando os rios carregadas de peixe, camarão, ovos e açaí. A diferença é que muitas dessas vendas começam antes mesmo da partida, em mensagens trocadas pelo celular. Entre áudios, grupos comunitários e encomendas digitais, os moradores demonstram que a transformação tecnológica também navega pelos rios da Amazônia, fortalecendo pequenos negócios familiares e criando novas oportunidades de geração de renda em um dos territórios mais singulares do país.
*Reportagem produzida na disciplina de Webjornalismo, ministrada pelo professor Dr. Danilo Borges.




O mesmo mercado, a mesma estratégia, mas com realidades diferentes. Parabéns, Raila. Sua reportagem ficou muito boa.