• Léo Nilo

Entrevista com Igor Cardoso, diretor de “Ausência”

Atualizado: 24 de mai. de 2021

Igor responde sobre a produção independente no estado, as consequências criativas da pandemia e a importância da subjetividade.

Igor Cardoso nas gravações de Ausência. Foto: Arquivo Pessoal

Igor Cardoso é o diretor e roteirista do curta-metragem “Ausência”, escolhido como um dos competidores na Mostra Fôlego, do Festival Imagem-Movimento (FIM), principal evento de cinema do Amapá. O filme, independente e completamente realizado durante a pandemia do COVID-19, está disponível até 5 de junho na Mostra Audiovisual [em] curtas:


AGCOM: Como o projeto Ausência começou? De quem foi a ideia original e como ela se desenvolveu a partir daí?

IGOR: Eu falava com um amigo há mais ou menos um ano. A gente conversava bastante sobre cinema, principalmente sobre pessoas que estão aqui no estado e querem realizar filmes, mas nunca têm um norte, nunca sabem muito para onde ir. Elas ficam geralmente com muita dúvida sobre a quem recorrer para esse tipo de coisa. Só que, por sorte, por cursar Artes Visuais, eu conheci muita gente interessada nisso. E eu sempre tive essa vontade e a ideia também, em particular, sobre o roteiro. Já que estávamos começando a entrar numa época de pandemia, achei que seria um bom momento para ter coragem para começar. Eventualmente, eu acabei encontrando algumas pessoas que também tinham muito interesse em realizar o projeto, e acabamos formando uma equipe rapidamente, porque eram amigos de amigos que se conheciam e toparam o projeto.

AGCOM: Seu amigo acabou entrando na equipe?

IGOR: Sim, o Ian veio a ser nosso produtor. Outra pessoa que foi importante nesse ponto foi o Kleber Wändel. Eu já conhecia o trabalho dele há algum tempo, e achei que, para encontrar pessoas confiáveis nesse sentido, com um interesse por cinema também, eu tinha que ir às pessoas que pudessem me ajudar, por exemplo, com equipamento, que é uma questão extremamente fundamental. Eventualmente, conversamos e ele demonstrou interesse muito grande na parte mais técnica. Através dele, eu também conheci outras pessoas. Ele falou com algumas envolvidas em produtoras e gente que pudesse nos ajudar a filmar em locais.

Equipe de Ausência. Foto: Arquivo Pessoal.

AGCOM: O filme foi filmado e pós produzido de forma completamente independente, usando equipamentos que a equipe já possuía. Quais os principais desafios da produção independente, especificamente em Macapá?

IGOR: Acho que, principalmente para pessoas que trabalham há algum tempo com produção de arte em geral, ou pensam em ganhar a vida com isso, a gente nota que Macapá é uma cidade que tem muita demanda, mas muitos não estão dispostos a pagar por isso. Então, quando eu penso em realizar um trabalho independente, independentemente do que tu quer realizar, tu encontra esses desafios muito maiores em relação a questões monetárias. Ou, por exemplo, achar um modo de conseguir aliar tanto a tua visão artística quanto o que vai precisar gastar para aquilo. Uma coisa que foi bem interessante desse processo foi que pudemos ter acesso a tantas pessoas interessadas em fazer parte do projeto pela vontade de estar no projeto. Não precisamos gastar tanta coisa assim, o máximo de dinheiro mesmo foi em passagem para pagar Uber e ônibus. Então a gente acabou não pagando ninguém. Os maiores desafios foram, principalmente, a questão da própria pandemia e ter que se reunir num período assim, a gente estava ali saindo do pós-apagão. E, conseguir achar lugares para filmar. Fazer algumas tomadas em casas, por exemplo, ou a tomada em bares, foi uma questão de ter que entrar em contato com pessoas e torcer para que elas aceitassem.

Poster usado para divulgação nas redes socias. Foto: Wändel Filmes

AGCOM: Você comentou que a ideia do curta veio já dentro da quarentena. Como você acha que esse período influenciou não só a produção, mas os próprios temas do filme?

IGOR: Uma coisa que vimos crescer, já depois do fim da produção, foi a significância da palavra ausência para todas as pessoas que participaram do projeto, principalmente os demais artistas. Agora estamos com essa ideia, que a gente vai trabalhar um pouco mais para frente, já no lançamento do curta, de lançar algumas artes onde cada artista vai ter um pequeno teaser sobre a visão que ele tem do que significaria ausência. Quanto à influência da pandemia, no caso, eu acho que a questão do isolamento e as transformações que cada uma das pessoas passou nesse meio tempo, já que ficamos ilhados por um bom tempo. As pessoas falaram sobre como elas repensaram muita coisa, como que a ideia de estar cada vez mais isolado e passar por um período tão complicado e tão único fez com que muitos fantasmas voltassem à mente. Essa ideia me interessava muito, eu ficava pensando o tempo todo sobre como era refletida na realidade a nossa visão em relação a essa experiência que estávamos tendo durante a pandemia. Me ajudou muito a construir a história a partir do ponto em que a personagem tivesse se fragmentando e se afastando da realidade dela cada vez mais, em decorrência de uma ausência. No caso do curta, pode ser sobre um relacionamento, pode ser sobre uma amizade, pode ser sobre um parente, mas também, no fundo, simboliza um pouco desses sentimentos que as pessoas estavam tendo durante a pandemia, e principalmente a forma que refletem em como agimos, como sentimos.

Eu ficava pensando o tempo todo sobre como era refletida na realidade a nossa visão em relação a essa experiência que estávamos tendo durante a pandemia - Igor Cardoso

AGCOM: Ausência é um filme bastante transparente em relação às suas referências, Apichatpong, Gus Van Sant e Mekas são citados pelo nome. Como vocês organizaram as influências dentro do projeto?

IGOR: Nesse sentido, toda a parte criativa foi coordenada por mim, principalmente em relação a essas referências. Mas, curiosamente eu tenho notado que algumas pessoas têm visto com... os olhos certos, eu acho, porque embora eu tenha essas referências de forma a homenageá-los. Citá-los e dar aquela leve piscadinha para as pessoas que vão saber do que eu estou falando, é mais uma questão de humor na verdade, porque o personagem do Luís, no filme, reflete um lado mais punheta da cinefilia, sobre como algumas pessoas que têm certos tipos de embasamento vivem querendo externalizar isso a todo momento. Aquela cena, em específico, demonstra um pouco de como a personagem está completamente desligada, ela não liga nem um pouco. Mas tudo o que ele sabe fazer, tudo o que ele sabe falar é citar essas coisas, e fica bem distante da esfera dela.

Kleber Wändel durante as gravações. Foto: Arquivo Pessoal

Eu acho que uma coisa importante que tem acontecido é esse lado mais subjetivo da visão das pessoas. Tenho conversado muito com algumas pessoas a respeito das leituras sobre o que o filme exemplifica, porque não é um curta complicado nem nada né, mas enquanto a gente fazia, a gente discutia muito sobre como produzir alguma coisa ou terminar um corte que refletisse numa coisa completamente subjetiva. Tem certas cenas do curta, por exemplo, que a gente acabou cortando para que o certo realmente fosse feito na mente de cada pessoa, e daí ela tivesse pensamentos de acordo com o momento em que encontra o filme na vida. A gente pensava muito sobre as experiências que cada um tem durante a vida ou pelo que elas passaram na pandemia, ou passaram nos últimos tempos. Elas encontram o filme desse jeito e dependendo da própria história, elas pudessem enxergar um pouco dessas coisas também no curta, enquanto outras pessoas veem de forma completamente diferente certas partes e tudo bem. Eu acho que o grande saldo positivo é dar um rosto para um objeto que consiga ser humano a um nível mais profundo, sabe. Se conectar com essas coisas de forma muito mais latente do que seria, por exemplo, fazer uma comédia ou algo assim.

AGCOM: Ausência é um dos competidores do Festival Imagem-Movimento (FIM), principal evento de curta-metragens do estado, que ocorrerá mês que vem. Qual a expectativa da equipe para o festival?

IGOR: Acima de qualquer coisa, a gente quer muito que esse curta metragem chegue às pessoas, sabe. Porque estar no festival já é um grande ato, principalmente para um grupo pequeno de universitários, que fez um curta metragem sem nada no bolso e que foi selecionado para competir com alguns outros curtas que tiveram muito mais orçamento, muito mais ajuda. A gente pensou muito nisso principalmente porque as pessoas que estão dentro da equipe são completamente aficionadas por cinema. A gente meio que começou a produzir agora, é o primeiro curta-metragem de algumas pessoas e tivemos que desenvolver vários papéis, né. Então ver o resultado disso é muito bonito. Acabamos sendo selecionado para alguns outros festivais e esperamos ser selecionados para ainda mais, mas o FIM era o nosso principal objetivo, justamente por ser o maior festival de curta metragem do estado. Foi uma grande felicidade ser selecionado e as nossas expectativas se viram muito mais para que as pessoas acabem acessando e vendo, do que pensando em algo competitivo.

A 17ª edição do Festival Imagem-Movimento ocorrerá em junho. Foto: Divulgação

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