Sapateiros: heróis da resistência em Macapá
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Artesãos transmitem técnicas de geração a geração e mantêm viva a tradição e a memória do ofício.
Por João Ferreira Filho*

A profissão de sapateiro é uma das mais antigas do mundo, surgindo da necessidade humana de proteger os pés contra as condições climáticas e os obstáculos do solo. Originalmente, os sapateiros trabalhavam de forma artesanal, criando calçados sob medida, com destaque para os soberanos e classes mais altas, para quem os sapatos eram um artigo de luxo. O sapateiro era uma figura popular na Idade Média, comum nas cidades e com oficinas próprias. Hoje, esses profissionais vivem o dilema entre a tradição e a modernização da profissão.
Com a industrialização, o ofício concentrou-se, principalmente, no conserto de calçados, mas a tradição artesanal ainda é valorizada na produção de peças únicas e de luxo. Em Macapá, no Mercado Central, essa tradição resiste. Há profissionais que mantêm viva essa arte e trabalham no mesmo lugar há décadas.
Natanael de Araújo Barbosa, 63 anos, macapaense, conhecido como 'Louro', trabalha há 45 anos como sapateiro no Mercado Central. Sua jornada começou aos 17 anos, inicialmente como balconista na loja de seu Manuel e dona Eunice (ambos falecidos). À época, essa atividade era conhecida como 'cacheiro'.
“Minha história de aproximação do ofício de sapateiro começou com os trabalhadores que ficavam em torno da lojinha onde eu trabalhava. Nas minhas folgas da loja, observava o Simão, o Queiroz, o Manoel, o Coló, o seu Cristóvão e outros trabalhadores do ofício. Esses eram da primeira geração de sapateiros, nos anos 80”, lembra Natanael Barbosa.

‘Louro’ percebeu que a atividade de balconista não era sua vocação natural, passando mais tempo observando os sapateiros do que atendendo clientes. A decisão de mudar de ofício veio no início dos anos 80.
“Dona Eunice, que era a dona da loja, começou a me chamar a atenção, porque eu ficava mais na área dos sapateiros do que na loja dela. Ela perguntou o porque eu estava indo lá com os sapateiros, se o serviço era na loja? Eu disse direto para ela: 'não venho mais trabalhar com a senhora, desculpa aí, mas não é a minha área. Vou trabalhar como sapateiro, falei com um rapaz e comecei a trabalhar na segunda-feira com ele. Nesse período, eu tinha 17 anos e o trabalho na loja foi o meu primeiro emprego”, relembra Louro.
Uma curiosidade no meio dos sapateiros profissionais do Mercado Central era que alguns aprenderam a profissão observando os outros. “Não conheço nenhum parente que trabalhava como sapateiro... Aproximei-me por causa das amizades com os sapateiros antigos, eram diferentes, eram pessoas que tinham a palavra e isso era bacana. Eles preparavam uma lista de material e mandavam eu comprar e me davam uma 'gratificação'. Nesse meio tempo, fui aprendendo, observando eles fazerem o sapato. Um deles dizia: 'Natanael senta aqui e aprende o ofício’. Esses que citei foram para o andar de cima", recorda Louro.
A primeira geração de sapateiros de Macapá começou na Rua Cândido Mendes, ao lado da extinta fábrica de gelo, próximo à Fortaleza de São José de Macapá. “Os mais conhecidos eram: o Cristóvão, o seu Raimundo, a dona Maria e o seu Manoel. Depois vieram o Coló, o Simão e o Valdez. Eu era conhecido como 'Capivara'. Esses antigos eram os patrões, os mais novos, empregados. Faziam questão de repassar os conhecimentos deles adiante. Hoje, sou um dos mais antigos no ofício em atividade”, conclui Louro.
No contexto da transformação constante em uma das profissões mais antigas da humanidade, o ofício de sapateiro hoje compete com a industrialização do produto e o avanço tecnológico. Mas o ofício já teve sua importância na economia local, como ressalta o historiador Hermano Benedito Pinto de Araújo, 73 anos.
“No início, o trabalho era artesanal: sapatos de couro com solas reforçadas, muitas vezes adaptadas com ponteiras e calçadeiras de aço para resistir às ruas de piçarra. A demanda era intensa, e os serviços passavam de pai para filho, formando famílias inteiras dedicadas à profissão”, conta.
O historiador citou o seu Geraldo Creão, um carismático e respeitado sapateiro que conseguiu formar seus filhos na universidade com o trabalho na Sapataria Creão, na Rua São José. “A família 'Creão' foi um exemplo, que trabalhou no ofício de sapateiro, confeccionava e vendia botas famosas entre a juventude da época, inspiradas em modelos usados por artistas como Roberto Carlos e Erasmo Carlos”, recorda Hermano Benedito.
Ainda conforme o historiador, o trabalho dos sapateiros não desaparecerá e continua sendo fundamental para atender a população de baixa renda e para manter vivo um mercado alternativo de reaproveitamento de calçados.
Sapatos sob os cuidados femininos

Natural de Afuá (PA), Maria Cipriano Maraes da Silva, 92 anos, é uma das primeiras mulheres a trabalhar no ofício como sapateira no Mercado Central. Ela praticou a atividade por 20 anos, no local conhecido como 'Beco do Sapateiro'. Aprendeu a arte com o saudoso esposo, Manoel Gomes da Silva, também afuaense e um dos sapateiros da velha-guarda.
“Eu comecei a trabalhar lá já tinha me casado com um sapateiro, tinha filho grande, comecei pintando, engraxando bota, salto, era o meu trabalho. Depois comecei a costurar também. Costurava sapato, bolsa, tudo que aparecia eu costurava, como se diz: o meu tempo de casada foi trabalhando. Depois que meu esposo morreu, resolvi voltar para casa”, conta Maria.
A artesã dedicou parte de sua vida ao mercado, desenvolvendo com habilidade a arte de fazer e consertar sapatos, sandálias, bolsas e costuras em geral em couro. Ela destaca que a situação melhorou após a revitalização do prédio do mercado. “A procura melhorou quando houve a reforma em alvenaria. Aí ficamos mais à vontade para trabalhar, tranquilo, as coisas ficavam trancadas, uma melhora total”, afirma Maria Moraes.
Aposentada, ela passou o bastão da arte para a família. Atualmente, em seu antigo ponto, a filha Edilene Moraes da Silva e o neto Edmundo assumiram o ofício, mantendo a tradição. “Só o neto, Edmundo, está trabalhando lá agora como sapateiro. A barraquinha onde eu ficava trabalhando ficou sob a responsabilidade da minha filha, Edilene. Foi tudo modificado, organizaram, tiraram todos que ficavam do lado de fora e colocaram para dentro. A minha barraca, o meu ponto, a minha filha é quem toma conta. Ela trabalha lá à tarde, porque tem outras atividades pela manhã. Lá vende bolsa e coisas miúdas. Só quem trabalha como sapateiro é o meu neto, Edmundo”, informa Maria Cipriano.
Com o avanço da tecnologia e a produção em larga escala, o temor é que o ofício desapareça. No entanto, Maria Silva garante a resistência: “eles continuam trabalhando lá, acho que até quando morrer, porque é a profissão que pegaram para si. Independente da questão da indústria, eles fazem aquelas coisas tudo à mão, de forma artesanal. Quando quebra o salto de um sapato na área comercial, onde vão fazer o conserto? Procura-se o Mercado Central, lá estão os sapateiros, a tradição continua", garante Maria Silva.

Do beco ao mercado
O termo “Beco do Sapateiro” se referia a um aglomerado de bancas e oficinas na lateral do mercado, onde esses artesãos trabalhavam consertando calçados, cintos, malas e bolsas. Apesar da modernidade, a demanda por consertos manuais persiste. O espaço é mais que um local de trabalho, é um ponto de encontro e memória afetiva para os amapaenses. Rosimar Santos, 53 anos, amapaense, sapateiro há 40 anos, cresceu no local. “Comecei vendendo saco no mercado de carne e de peixe e o 'Beco do Sapateiro' existia. Meu pai, Clodovil Monteiro, conhecido como 'Coló', trabalhou 60 anos no local. Cresci nesse lugar. Hoje sou sapateiro como meu pai”, recorda Santos.
Com o passar dos anos, esses profissionais foram realocados para a estrutura do Mercado Central de Macapá, prédio inaugurado em 13 de setembro de 1953. Com 63 boxes, o mercado abriga segmentos vendedores do setor como alimentício, ervas medicinais, serviços de costura e de conserto de sapatos. Após a revitalização, em 2020, os artesãos ganharam boxes mais organizados e isso trouxe esperança aos comerciantes locais.
“Com a reforma do mercado, os lojistas, que ficam na vizinhança, adoraram. A ampliação foi boa e os turistas se aproximaram como os franceses e ingleses. Sempre eles vêm nas férias de julho e agosto. Esses são os períodos de lazer que vem a Macapá. Esse momento é satisfatório para os empreendedores do mercado e para os da área do entorno”, afirma Cávio Alexandre Rodrigues, 34 anos, um dos administradores do Mercado Central.
Sobre os sapateiros, o gestor não acredita na extinção do ofício, mas entende que a categoria precisa de apoio. “Vejo carência para essa profissão de sapateiro, porque há uma demanda grande para poucos. Não vou te dizer se vai haver uma extinção deles, mas há muita necessidade. Os sapateiros, raízes, estão no mercado, eles sabem do procedimento de um sapato, de uma bota. E eu vejo que o mundo se atualiza. Se o mundo se atualiza, a pessoa tem que se atualizar e tem sapateiro aqui que se atualiza, comprando suas máquinas, aparelhos e seus instrumentos adequados, mais avançados”, ressalta Rodrigues.
Acompanhar o avanço tecnológico exige o apoio de órgãos públicos e da iniciativa privada. Rodrigues sugere o envolvimento do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) para formação e atualização dos profissionais: “É interessante, porque o Sebrae pode formá-los com cursos adequados. Atualizar o sapateiro no sistema do cadastro com Microempreendedor Individual, por exemplo, pode dar aula para pessoas que querem”, finaliza Rodrigues.
*Matéria produzida na disciplina de Redação e Reportagem III, ministrada pelo prof. Dr. Alan Milhomem.



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