O PET que deixa de ser fim e passa a ser começo
- AGCom

- 25 de fev.
- 7 min de leitura
Projeto da Ueap reaproveita garrafas plásticas para gerar filamentos de impressoras 3D.
*Por Dhiúlia Braga

Em 1984, quando o engenheiro norte-americano Charles Hull apresentou ao mundo a primeira impressora 3D, a ideia de “imprimir” objetos físicos parecia mais uma coisa de ficção científica. Quatro décadas depois, porém, essa tecnologia deixou as indústrias, ganhou escolas, hospitais e pequenos negócios. Passando também, de forma inesperada, a dialogar com um dos maiores dilemas do nosso tempo: o lixo que produzimos.
No Brasil, esse dilema tem cores, forma e até um nome técnico: PET, uma sigla para Polietileno Tereftalato. Presente no dia a dia em garrafas e embalagens, esse material, segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), pode levar de 200 a 600 anos para se decompor no meio ambiente (o equivalente, em média, a dez vidas humanas). Enquanto isso, segue se acumulando em aterros, rios e áreas urbanas, especialmente em regiões onde a coleta seletiva é limitada ou inexistente.
De acordo com o 13º Censo de Reciclagem de PET no Brasil, divulgado pela Associação Brasileira da Indústria do PET (Abipet), o país reciclou 410 mil toneladas de embalagens PET em 2024, um aumento de 14% em relação a 2022. Ainda assim, a própria entidade aponta que a ausência de políticas públicas e de sistemas eficientes de coleta seletiva continua sendo um obstáculo para a reutilização adequada desse resíduo.
É nesse cenário que o Amapá aparece como uma alternativa para repensar os usos e destinação das garrafas PETs. Desde 2024, na Universidade Estadual do Amapá (Ueap), o projeto Reciclagem de Resíduos para o Processamento de Novos Materiais (RRPM) decidiu aproximar dois mundos que pareciam distantes: o da reciclagem e o da impressão 3D. Ao transformar garrafas PET descartadas em filamentos para impressoras 3D, a iniciativa não apenas reaproveita os resíduos, mas propõe uma mudança de olhar sobre o lixo.

O professor Felipe Tavares e o estudante de Engenharia Química Rafael Silveira são os responsáveis por conduzir a pesquisa dentro do laboratório do RRPM, com a possibilidade de expansão para outros acadêmicos interessados no futuro.
A iniciativa, no entanto, não surgiu diretamente com foco na reciclagem. No início, o objetivo do estudo era o de detectar e analisar as propriedades dos materiais utilizados na impressão 3D (como resistência, mecânica, química e comportamento térmico). Ao longo desse processo, os pesquisadores passaram a questionar a origem dos insumos utilizados e os custos dados à aquisição dos filamentos comerciais, o que abriu espaço para a discussão sobre alternativas sustentáveis.
“Como o curso de Engenharia Química aborda toda essa extensão de procurar entender a tecnologia e a sustentabilidade, o interesse veio justamente em querer integrar esse ramo da inovação”, conta o estudante e bolsista do projeto, Rafael Silveira.
A partir desse olhar mais técnico, a ideia de transformar garrafas PET em filamentos ganhou força. Durante o curso, o contato de Rafael com temas ligados à tecnologia e à inovação despertou o interesse em desenvolver algo que dialogasse com problemas reais da região. Em conversas com o orientador, a proposta ganhou forma: utilizar o PET (um resíduo amplamente encontrado) como insumo para uma tecnologia relativamente acessível e com múltiplas aplicações.
O objetivo da iniciativa passou a ser prolongar o tempo de vida útil das garrafas, evitando que o material fosse descartado de forma irregular. O impacto financeiro também aparece como um dos pontos centrais da pesquisa. No mercado, o filamento ABS (um dos mais econômicos utilizados na impressão 3D) custa em torno de 90 reais por quilo. Já o filamento produzido a partir do PET tem seu custo diretamente ligado à coleta do material, o que reduz significativamente o valor final.
Para o professor Felipe Tavares, esse cenário abre espaço para pensar a iniciativa também como uma oportunidade de empreendimento sustentável, tanto em projetos públicos quanto privados. “A partir do momento que você vai produzir, o custo desse filamento em si, você não terá mais. Então já é um ganho a mais se você for comercializar”, garante.

O caminho do PET
A escolha de utilizar garrafas plásticas no projeto se relaciona também ao cenário nacional dos resíduos sólidos. De acordo com dados do Banco Mundial, o Brasil ocupa a quarta posição entre os maiores produtores de lixo plástico do mundo, com cerca de 2,4 milhões de toneladas descartadas de forma irregular. Em média, cada pessoa gera aproximadamente 1kg de plástico por semana. Segundo os pesquisadores, essa mesma quantidade de material em filamento 3D pode ser produzida a partir do reaproveitamento de cerca de 60 garrafas PET.
O processo de produção do filamento começa com a coleta das garrafas, realizada tanto no ambiente universitário quanto fora dele. Após essa etapa, as embalagens passam por higienização, retirada de rótulos e tampas, secagem e preparação do material. Em seguida, as garrafas são cortadas e encaminhadas para a extrusão, etapa responsável por transformar o plástico processado no filamento final. A modelagem das peças ocorre no computador, por meio de softwares específicos, e o material reciclado é utilizado normalmente nas impressoras 3D, com resultados satisfatórios em resistência e acabamento.
“Seria uma forma de qualquer pessoa que tenha uma garrafa PET poder reciclar esse produto e reutilizar, de forma que ele (o PET) não vai ser mais destinado para o meio ambiente. E sim virar uma peça útil dentro de casa. Então por isso veio o projeto de extensão”, conta o professor Felipe Tavares.
Um dos diferenciais da iniciativa está na construção da própria máquina filetadora, desenvolvida a partir de peças de impressoras 3D e adaptações técnicas. O equipamento é responsável por transformar o PET limpo e processado em filamentos com diâmetro adequado para a impressão, sem apresentar problemas de compatibilidade durante o uso.
O professor explica que esse tipo de máquina não é comercializada. Por isso, foi necessário estudar modelos já existentes, compreender o funcionamento da extrusão e adaptar os componentes disponíveis para executá-la corretamente. “A gente aprendeu como ocorre essa montagem do equipamento, montamos o nosso e a partir daí fomos procurando, a partir de testes, realizar a verificação das condições ótimas de utilização”, afirma.

O processo exige atenção constante e domínio técnico, já que cada tipo de garrafa apresenta características e composições diferentes, especialmente em relação à cor, que interfere diretamente nas propriedades do material. Garrafas transparentes, verdes ou azuis resultam em filamentos com resistências distintas, o que demanda atenção, ajustes e conhecimento prévio antes da produção.
Esse amadurecimento técnico também trouxe um aprendizado que ultrapassa o laboratório. Para que o PET possa ser reaproveitado e transformado em filamento para a impressão 3D, ele precisa chegar aos pesquisadores em condições específicas. Ou seja, garrafas que entram em contato com resíduos orgânicos, restos de alimentos ou outros materiais perdem a possibilidade de reutilização, já que a contaminação compromete a qualidade do filamento e inviabiliza o processo. Por isso, os pesquisadores incentivam atitudes simples de conscientização.
“Muitas vezes a gente até faz a coleta dentro da universidade e solicitamos: ‘olha, faça uma pré-lavagem para tirar o resíduo’. Não que a gente não vá lavar aqui, mas já pensando nessa educação ambiental”, ressalta.
Essa exigência revela um problema que vai além da pesquisa acadêmica, e expõe um desafio estrutural da gestão de resíduos no estado. A ausência de coleta seletiva e a falta de informação sobre a separação correta do lixo fazem com que grande parte do PET descartado deixe de ser reciclável ainda na origem.

Essa discussão ganha ainda mais força quando analisada a partir de iniciativas que já atuam diretamente com esse enfoque ambiental no estado. A professora Géssica dos Santos, do curso de Ciências Ambientais da Universidade Federal do Amapá (Unifap), coordena o projeto de extensão Unifap Lixo Zero, que desenvolve ações voltadas à separação adequada dos resíduos e à redução da contaminação de materiais recicláveis.
Com atuação tanto na universidade quanto em espaços públicos, o projeto trabalha a conscientização ambiental como ferramenta central para evitar que resíduos com potencial de reaproveitamento acabem descartados como lixo comum. “Se você separa (o lixo) direitinho, você consegue mandar o PET, o alumínio, a latinha e o vidro para a reciclagem. E o orgânico você pode fazer a compostagem. Então se você fizer a destinação adequada para cada categoria de resíduo, você tem o 'que a gente chama de lixo zero, ou seja, não gerou mais lixo”, destaca a professora.
Géssica explica como a mistura do PET com certos resíduos transforma um material reciclável em lixo comum, e que isso inviabiliza qualquer reaproveitamento posterior. Esse problema contribui para índices ainda baixos de reciclagem no país. Segundo o Fundo Mundial para a Natureza, apenas 1,2% do total de toneladas de lixo plástico produzidas por ano recebe destinação adequada por meio da reciclagem.
Para a ambientalista, iniciativas que estimulam a separação correta têm papel fundamental para o sucesso de projetos como o RRPM, já que as boas condições para reciclagem em grande escala podem gerar cada vez mais matéria-prima para a fabricação de filamentos, e evitar que garrafas PET descartadas em lugares inadequados como rios. “Se você consegue fazer uma reciclagem eficiente desse material, você consegue mitigar, inclusive evitar, esses impactos associados à produção desse material”, afirma a professora.
O objetivo agora dos pesquisadores do RRPM é levar o projeto ao máximo de pessoas interessadas. A inovação já foi apresentada em espaços como a Expofeira, eventos no IFAP, no Sebrae e dentro de atividades na própria Ueap. Como próximos passos, os pesquisadores também planejam a criação de um curso específico voltado ao ensino do processo de fabricação dos filamentos recicláveis, incluindo o passo a passo da construção da máquina desenvolvida por eles.
*Reportagem elaborada na disciplina de Redação e Reportagem III, ministrada pelo professor Dr. Alan Milhomem.




Muito bem escrita a matéria!
Que matéria boa!!!