O custo da água: moradores pagam com a saúde o atraso histórico no saneamento básico em Macapá
- AGCom

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Nas áreas de ressaca, as pessoas convivem diariamente com abandono, adoecimento e riscos ambientais.
Por Bruno Ribeiro*

Adriana de Jesus, 49 anos, diarista, observa com atenção o entorno da casa onde vive, no bairro do Congós, zona sul de Macapá. A moradia é de madeira, erguida sobre estacas, em uma área de ressaca, como são conhecidas, no Amapá, as regiões alagadiças ocupadas, em sua maioria, por populações de baixa renda. Dali, ela enxerga outras casas igualmente próximas, separadas por estreitas passagens de madeira e vegetação densa. A cada chuva, o esgoto a céu aberto toma conta da área, trazendo lixo, mau cheiro e até animais peçonhentos, deixando famílias ilhadas e crianças expostas a doenças.
Ela mora com quatro filhos e dois netos. Vive há 17 anos no mesmo local e a rotina é marcada por improviso, cuidado constante e medo. Quando chove forte, o esgoto a céu aberto se mistura à água que invade o entorno das casas. O mau cheiro se espalha, o chão some sob a lâmina d’água e o caminho até a rua principal se torna impossível. Em dias assim, sair para trabalhar ou levar as crianças à escola vira um desafio. “Quando chove aqui, enche. Não tem como a gente passar. A gente fica ilhada aqui. Aí, como a minha filha estuda, o que eu faço? Ou eu carrego ela nas costas até a beira da rua ou eu carrego ela na bicicleta”, explica Adriana.
Segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Macapá tem 442.993 habitantes. Mas essa população não se distribui de forma igual. Estudos sobre a configuração urbana da cidade, como o publicado em 2023 por Camila Pernambuco Costa e Patrícia Rodrigues Samora, indicam que cerca de 30% dos moradores vivem em áreas de ressaca, o que representa mais de 130 mil pessoas convivendo cotidianamente com alagamentos, ausência de saneamento, moradias precárias e riscos ambientais.
Embora o termo “ressaca” seja localmente associado à ideia de favela, por não ter saneamento básico, sua origem é ambiental. Tecnicamente, as ressacas são ecossistemas típicos da zona costeira do Amapá: áreas úmidas formadas em terrenos baixos, que funcionam como reservatórios naturais de água e sofrem influência direta das chuvas e das marés, por meio de uma rede de canais. Com a expansão urbana desordenada, essas áreas passaram a ser ocupadas de forma irregular, sem processo legal de compra e venda da terra, o que levou o próprio IBGE, em 2010, a classificá-las oficialmente como assentamentos subnormais.

As casas, como a da diarista Adriana, seguem um padrão comum: construções do tipo palafita, feitas majoritariamente de madeira e com telhados de fibrocimento (a popular telha brasilit). O esgoto doméstico, na maioria dos casos, é despejado diretamente na área alagada. Não há rede de coleta, nem tratamento.
É nesse cenário que a água, em vez de sinônimo de vida, se transforma em ameaça. Adriana relata que a filha de 11 anos adoece com frequência. “Ela pega virose duas, três vezes no mês. Diarreia, vômito, febre. O médico fala que é virose, mas eu sei que é por causa dessa água suja”, afirma. Para ela, o saneamento precário não é um dado estatístico distante, mas uma experiência diária que se repete no corpo das crianças.
Os números confirmam o que Adriana vive na prática. Macapá está entre as piores capitais brasileiras quando o assunto é saneamento básico. Dados do Ranking do Saneamento 2025, do Instituto Trata Brasil, colocam o município no grupo das 20 piores cidades do país entre as 100 mais populosas. A capital apresenta baixíssima cobertura de coleta e tratamento de esgoto, perdas elevadas de água tratada e investimentos muito abaixo do necessário para alcançar a universalização dos serviços.
Hoje, menos de 10% do esgoto produzido em Macapá recebe algum tipo de tratamento. A conta desse atraso histórico é paga diariamente pela população, sobretudo por quem vive nas periferias e nas áreas de ressaca, na forma de doenças evitáveis, internações hospitalares frequentes e perda contínua de qualidade de vida. O cenário reflete décadas de investimentos insuficientes, crescimento urbano desordenado e falhas persistentes no planejamento público.

A saúde como primeira vítima
Durante o inverno amazônico, que no Amapá acontece entre os meses de dezembro a maio, período marcado por chuvas intensas e alagamentos frequentes, o risco sanitário se agrava. Doenças como diarreias infecciosas, hepatite A, leptospirose, parasitoses intestinais e doenças transmitidas por mosquitos, como dengue e chikungunya, passam a fazer parte do cotidiano das unidades básicas de saúde e hospitais da capital.
A médica Carolina Macedo explica que a relação entre saneamento precário e adoecimento é direta. “A água contaminada por fezes humanas e animais facilita a transmissão de bactérias e parasitas. O esgoto a céu aberto contamina o solo, os rios e favorece a proliferação de vetores, especialmente no período chuvoso”, afirma. Segundo ela, os grupos mais vulneráveis são crianças, idosos e gestantes, além das populações ribeirinhas e periféricas, que vivem mais expostas e com dificuldade de acesso à água tratada e a serviços de saúde.

No bairro do Pacoval, na zona norte de Macapá, uma das áreas de ressaca mais antigas da capital, essa realidade se repete de forma cotidiana. Vanda Costa, 40 anos, casada e mãe de sete filhos, trabalha como cuidadora de idosos. Ela mora há mais de cinco anos em uma casa cercada por água parada, lixo acumulado e passagens estreitas de tábuas. Quando chove, o entorno da casa se transforma em um espelho escuro, onde garrafas plásticas, restos de comida e dejetos flutuam próximos às moradias.
Além dos alagamentos, Vanda convive com a ausência de limpeza regular. “O lixo é frequente aqui e a prefeitura não faz limpeza da área. Quando chove, piora tudo”, afirma. O impacto aparece rapidamente na saúde da família e da vizinhança. “No período de chuva aumenta muito caso de doença (sic). É vômito, diarreia. A UBS vive lotada e às vezes não tem nem dipirona”, conta. A falta de saneamento já deixou marcas irreversíveis em sua história. “O meu sobrinho, ele faleceu uns três anos atrás com aquela doença de rato”, relembra, referindo-se à leptospirose.
O mesmo drama é vivido por Maria Benedita Pinto, 21 anos, professora, mas no bairro Universidade, zona sul da capital, onde vive com os pais idosos há mais de 15 anos. Ela descreve como a água contaminada chega às casas durante o período de chuvas. “Na época de chuva, a água sobe e os canos ficam por baixo da água. Eles furam e acabam tendo contato com a água do lago, que é bem poluída”, explica. Segundo Maria, episódios de diarreia e vômito são recorrentes entre os moradores da área. “É bem comum, praticamente todo mundo da área de ressaca passa por isso”, afirma.

Segundo os dados do estudo Saneamento é Saúde, do Instituto Trata Brasil, em 2024, o Brasil registrou cerca de 344 mil internações por Doenças Relacionadas ao Saneamento Ambiental Inadequado. Na Região Norte, a taxa de incidência chegou a aproximadamente 19 internações por dez mil habitantes. O Amapá apresentou o pior índice da região, com cerca de 24,6 internações por dez mil habitantes. Em Macapá, segundo o DataSUS, em 2023 foram registradas 220 internações por doenças associadas à falta de saneamento básico. As mulheres representaram 114 internações, enquanto os homens somaram 106 casos.
A médica Carolina Macedo alerta que esse cenário sobrecarrega o sistema público. “A falta de saneamento provoca aumento de surtos, maior número de internações evitáveis e elevação dos custos do SUS. Aqui em Macapá, as cheias ampliam muito o risco de leptospirose e diarreia”, afirma.

Saneamento e política pública
Aprovado em 2020, o novo Marco Legal do Saneamento estabeleceu a meta de universalizar o acesso à água potável até 99% da população e o esgotamento sanitário para 90% até 2033. Cinco anos depois, os dados indicam que, na Amazônia, em particularmente em Macapá, o desafio permanece distante de ser superado.
Segundo o Instituto Trata Brasil, os municípios com maior déficit de saneamento são justamente aqueles com menor capacidade econômico-financeira para investir. No Ranking do Saneamento 2025, os 20 piores municípios investiram, em média, R$ 78,40 por habitante ao ano, quando o considerado necessário para a universalização é de R$ 223,82. Macapá está na penúltima colocação, com investimento médio anual por habitante de apenas R$ 14,42. O reflexo aparece nos indicadores: somente 7,78% da população tem acesso à coleta de esgoto e mais da metade da água tratada se perde antes de chegar às residências.
A arquiteta e diretora técnica da Companhia de Água e Esgoto do Amapá (Caesa), Magaly Xavier, afirma que o saneamento é uma política pública estrutural, de longo prazo e historicamente subfinanciada na região. “O saneamento não se resolve da noite para o dia. São obras caras, que exigem continuidade e, principalmente, investimento federal. A ausência histórica de recursos compromete tanto a área urbana quanto a rural”, diz.
Segundo a diretora, as áreas de ressaca ampliam os desafios técnicos. “São áreas de palafita, onde a tubulação precisa passar por passarelas. Ao mesmo tempo, não se pode incentivar novas ocupações, porque isso entra em conflito com o Ministério Público. Falta articulação entre técnica, política e justiça. O técnico quase nunca é ouvido”, resume.
Magaly reconhece os entraves históricos e que projetos de ampliação estão em andamento, mas os efeitos ainda não chegaram à maior parte da população. “A cidade cresceu de forma desordenada, sem que o saneamento acompanhasse esse crescimento. Temos redes antigas, infraestrutura insuficiente e uma demanda que aumentou muito ao longo dos anos”, afirma.

Desde 2022, a gestão do saneamento básico em áreas urbanas do Amapá está sob responsabilidade da CSA Equatorial, concessionária privada que detém um contrato de 35 anos para operar os serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário. Já a Companhia de Água e Esgoto do Amapá (Caesa) permanece responsável pelo saneamento nas áreas rurais do estado. O modelo, desenhado para ampliar investimentos e eficiência, ainda não produziu mudanças perceptíveis para grande parte da população urbana.
Em Macapá, o índice de perdas de água tratada supera 50%, colocando a capital entre as piores do país, segundo o Estudo de Perdas de Água 2025, também do Instituto Trata Brasil. A diretora técnica destaca ainda que as perdas de água são um dos principais entraves do sistema. “As perdas são gigantescas, seja por furto, desvio ou falta de manutenção. Isso faz a empresa perder financeiramente e dificulta o reinvestimento”, explica. Para ela, o problema não se restringe às populações mais pobres. “Tem empresa, hotel, comércio que não paga ou paga parcelado. Não é só a população carente”, ressalta.
O futuro do saneamento em Macapá
Apesar do cenário crítico revelado pelos indicadores oficiais, estudos apontam que a universalização do saneamento na Amazônia Legal poderia gerar ganhos econômicos e sociais expressivos. Estimativas nacionais indicam que cada R$ 1 investido em saneamento pode gerar retorno superior a R$ 3, principalmente pela redução de gastos com saúde pública, queda nas internações evitáveis e aumento da produtividade.
No site institucional, a CSA Equatorial afirma ter um plano de investimentos no valor de 3 bilhões de reais, em 35 anos, voltado à universalização dos serviços, com ampliação da rede de esgotamento sanitário, modernização dos sistemas de abastecimento de água, redução de perdas e construção de estações de tratamento. No papel, as metas estão alinhadas ao Marco Legal do Saneamento, que prevê universalização até 2033. Na prática, os impactos ainda são pouco perceptíveis para quem vive nas áreas mais vulneráveis da capital.
No bairro do Pacoval, Vanda afirma que falta uma atenção contínua. “Se eles olhassem mais pro povo daqui, fizessem limpeza, melhorassem a água… A cobrança chega todo mês, mas a melhoria não”, diz. No Congós, Adriana resume a frustração de quem não pode esperar. “Se eu tivesse condições de sair daqui, eu não voltaria. Mas não tenho.
Então, a gente continua vivendo assim, adoecendo”. Para ela, saneamento não é projeto de longo prazo: “água limpa e esgoto tratado não é luxo, é necessidade!”.
Entramos em contato com a assessoria de comunicação da CSA Equatorial e com o presidente da concessionária para confirmar os dados apresentados, detalhar os investimentos realizados e esclarecer o cronograma de expansão da rede de esgoto. Até o fechamento desta reportagem não houve retorno.

*Reportagem produzida na disciplina de Redação e Reportagem III, ministrada pelo professor Dr. Alan Milhomem.




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