• Léo Nilo

Entrevista com Rayane Penha, diretora de “Utopia”

Atualizado: 12 de jun. de 2021

Rayane responde sobre as fronteiras da ficção e a humanização dos garimpeiros. Utopia é um dos competidores do FIM 2021.

Cartaz de Utopia. Imagem: Reprodução

Utopia é um dos curta-metragens selecionados para competir na mostra Fôlego do Festival Imagem-Movimento (FIM) de 2021. Metade documentário sobre a realidade da vida dos garimpeiros amapaenses, metade uma jornada pelo luto de uma filha, Utopia foi financiado pelo primeiro Edital de Produção Audiovisual do Amapá, em 2017. Dando sequência à cobertura do FIM pela AGCOM, conversamos com a diretora e produtora do filme, Rayane Penha.


AGCOM: Como foi o processo de fazer o curta?

RAYANE: O Utopia é um projeto que nasceu em 2017. Eu estava fazendo um projeto de ficção, na verdade, e o meu pai faleceu nesse período. Ele era garimpeiro e teve um acidente no serviço dele, e acabou falecendo no garimpo. Na época lançou o edital para produção audiovisual aqui no Amapá, o primeiro edital do fundo setorial. Aí eu resolvi inscrever o projeto, só que já de documentário, que trouxesse esse processo de luto do meu pai, sobre a vida dele, sobre as histórias que ele tinha vivido nesses garimpos. E principalmente para tratar sobre o processo de violação, não só da Terra, mas desses corpos que estão dentro desses espaços também. Inscrevi o projeto, e foi um dos selecionados. Eu comecei a realização dele em julho de 2018, a gente gravou ele aqui em Macapá e em dois garimpos aqui do Amapá: o Vila Nova, que era a comunidade onde ele morava e trabalhava, de onde a minha família veio também; e o garimpo do Lourenço, que é o maior garimpo daqui do estado do Amapá, e também o mais antigo do Brasil. O Lourenço, quando você vai lá, você tem uma dimensão imagética muito forte sobre o que é o garimpo, a devastação daquele espaço. Então eu queria muito trazer isso. Eu já tinha feito um filme sobre garimpo, mas que não trazia muito esse impacto imagético, digamos assim, do espaço. E o Lourenço traz isso. Então fui para o Lourenço com a equipe, a gente gravou lá e depois foi para o Vila Nova. O processo de produção foi difícil e muito custoso, porque exigia esse deslocamento pra lugares muito distantes um do outro. O Lourenço fica na região ali pro Oiapoque e o Vila Nova fica entre a Serra do Navio, então é muito oposto e aí teve um processo de produção bem complicado. Mas eu tinha uma equipe enxuta, que participou do projeto, então deu para realizar. Foi muito difícil, porque eu estava vivendo um processo pessoal no meio daquilo, que era a perda do meu pai, e eu via as pessoas falando aquilo e me desestabilizava muito. Mas eu consegui realizar. Depois que terminaram as gravações, eu acabei tendo muita dificuldade no processo de finalização. Eu tentava montar o filme e nunca era exatamente o que eu queria, achei que não estava conseguindo e acho que isso tem influência muito forte do fato de eu estar tendo um processo pessoal, então acabou demorando. O filme só foi finalizar agora em 2021.

Rayane durante as gravações de Utopia. Foto: Arquivo Pessoal

AGCOM: Como você disse, Utopia é um filme muito pessoal. Como acha que esse processo de luto impactou o filme?

RAYANE: É um filme pessoal, ele não foge disso. Esses dias eu estava conversando com um dos montadoras do projeto, o Rodrigo Aquiles, - o filme na verdade passou por 3 montadores, mas quem montou oficialmente foram dois profissionais, o Rodrigo e o Mc Super Shock - e aí eu conversava isso com Rodrigo e ele ia me dizendo que, desde o início, ele falava isso para mim, que o filme era pessoal e eu tive um pouco de resistência a isso, eu quis fugir desse processo. E aí eu falei para ele que era porque eu estava querendo fugir de admitir ali no filme que ele era sobre um processo de luto, que meu pai estava morto. É muito doido porque quando eu escrevi o roteiro, eu escrevi sobre isso, mas depois, quando a gente fez o filme, gravou, eu queria trazer um pouco a ideia de que meu pai ficaria vivo. De que teria essa memória dele. Mas, na prática, o filme era sobre isso, sobre o luto, e aí eu tive um pouco de dificuldade de deixar que o filme fosse muito pessoal, eu tive uma certa resistência. Mas depois não tinha como, eu não tinha para onde fugir porque é um filme pessoal. Eu sinto que quando eu fiquei mais madura dentro desse processo foi que ele nasceu de verdade e eu tive mais segurança para assumir isso.

AGCOM: Há um trabalho muito bonito de humanização dos garimpeiros durante o filme. Ele já começa com aquela primeira tomada do drone entrando no buraco da mina. Como foi para a equipe entrar e retratar esse modo de vida?

RAYANE: Aquela cena específica, não a do drone entrando, mas a cena dentro do poço, foi muito complicada. Tem uma foto minha muito engraçada, em que eu estou com uma cara de desespero, assim, tremendo, porque o diretor de fotografia e o fotógrafo desceram no poço pra gravar as cenas e enquanto eles estavam lá dentro a energia acabou. Era um poço de 20 m de fundura, e quando a energia acaba as pessoas que estão dentro do poço podem morrer asfixiadas. Só que, na hora, o dono do garimpo começou a ligar o motor de energia para ir oxigênio para baixo, porque fica um tubo de oxigênio entrando no poço enquanto os garimpeiros trabalham lá dentro. Só que o motor de energia não queria pegar de jeito nenhum, e aí eu comecei a entrar em muito desespero. Só que, quando foi embora a energia, tanto os garimpeiros quanto o diretor de fotografia e o fotógrafo começaram a subir o poço pra vir à superfície, e aí deu tudo certo. Mas foi um desespero muito grande a gravação daquela cena, foi algo que a gente não esperava, que a energia fosse embora e ficasse sem oxigênio lá dentro.

Equipe durante as gravações do filme. Foto: Arquivo Pessoal

Agora, [sobre] o processo geral de retratar as pessoas, em todos os processos que eu trabalho eu sou honesta e não caio num lugar de espetáculo da vida das pessoas. Eu quero que elas falem, que elas mostrem o que estão sentindo, aquela realidade. É óbvio que eu tinha um roteiro, que eu queria um lugar específico pra que aquela história fosse contada, mas apesar de ter um direcionamento, eu queria trazer aquele processo do que aquelas pessoas estavam sofrendo, elas também estavam passando por um luto. Eu consegui isso, mas também muito por mérito de que as pessoas me conheciam, elas tinham uma intimidade comigo, eu cresci naquele espaço. Elas também tinham vivência com meu pai, elas tinham um afeto, então elas foram muito transparentes sobre o sentimento. Quando a gente fala sobre garimpo, existe um certo fetiche da truculência e, obviamente que existe, hoje a gente está vivendo no país uma realidade devastadora, uma guerra que os garimpeiros estão fazendo contra as terras indígenas, mas o que eu tento fazer dentro desse processo é [mostrar] que aqueles corpos são a ponta dessa estrutura, eles estão sendo tão violados quanto a terra que eles violam. Acho que a morte do meu pai, pra mim, significa isso, e o lugar em que aqueles outros homens se colocaram também, o quanto que são frágeis dentro desse processo. E o quanto que tudo pode se perder num piscar de olhos, a vida deles, tudo. A energia pode ir embora e todo mundo que está dentro de um poço trabalhando vai morrer, não tem saída. E esse é mais um retrato desse processo de desigualdade que a gente vive, porque são lugares em que o estado faz questão de não alcançar, não existe uma estrutura, não existe educação, não existe saúde, não existe segurança pública, não existe nada, são espaços completamente esquecidos pelo estado, e que tem que se estruturar ali diante dos seus próprios comandos, em que a vida vale muito pouco.

“...tudo pode se perder num piscar de olhos, a vida deles, tudo. A energia pode ir embora e todo mundo que está dentro de um poço trabalhando vai morrer, não tem saída.” - Rayane Penha

AGCOM: Utopia existe na fronteira entre o documentário e algo mais interpretativo. Como foi navegar entre essas duas esferas?

RAYANE: São coisas que eu gosto muito de trabalhar. Eu sempre me sinto muito livre para construir as coisas. Pra mim todos os projetos são projetos vivos, sabe. Eles pedem para nascer, pedem formas de como nascer. Eu acho que sou só um canal que é utilizado para fazer isso. Utopia veio muito nisso, ele veio dessa ideia do sonho mesmo, para além do nome e do processo que eu vivi, ele vinha nesse lugar do sonho. Eu sempre sonhava muito quando meu pai faleceu, sonhava muitas coisas, então eu quis trazer para o filme esses sonhos que eu tinha. Todas as performances do filme foram sonhos que eu tive ou antes da produção ou durante a produção, eu sonhava e aí ficava "cara, eu acho que a gente precisa gravar isso, faz sentido e é isso que eu quero colocar no filme". E era muito doido, porque pra equipe naquele momento era confuso, as pessoas não entendiam direito, "ah, mas a gente está gravando um documentário", mas eu queria colocar umas cenas aqui de ficção, digamos assim, mais performáticas. Só que pra mim fazia muito sentido, apesar de ter dificuldade de explicar aquilo na época, e depois fez sentido na estrutura do filme. Então eu não me apeguei muito no que era documentário e o que era ficção, eu estava fazendo um filme e aquele filme estava pedindo isso.

Still de Utopia. Foto: Régis Robles/Reprodução

AGCOM: Utopia é resultado do primeiro Edital de Produção Audiovisual FSA do Amapá. Em sua visão, como o investimento público impacta a produção audiovisual do estado?

RAYANE: Ele é resultado do primeiro edital de Produção Audiovisual do Amapá, foi uma iniciativa do governo do Estado e do Fundo Setorial do Audiovisual, através da Ancine. Eu sou uma completa defensora das políticas públicas culturais, não só porque eu sou artista, mas porque acredito muito no processo de fazer política. A cultura é um direito nosso, é um direito humano não só da gente produzir cultura, mas da gente ter acesso à cultura de forma gratuita. É muito triste você ver um país que desvaloriza muito a cultura, que não pensa a construção de política pública cultural. E principalmente porque a gente vai formando, porque a cultura também é educação, e se você não tem acesso à cultura a gente vai formando uma sociedade que repudia isso também, que acha que é desnecessário você ter gastos com cultura. Sendo que você salva vidas, você muda a estrutura de vida das pessoas por conta da cultura. E eu luto muito por isso, para que a gente tenha acesso à política pública cultural, porque eu vejo o impacto que a cultura teve na minha vida, na minha formação enquanto pessoa, na minha estrutura de vida de ter conseguido sobreviver da cultura. Todos esses anos da minha vida sobrevivi por conta do meu trabalho com audiovisual, eu nunca tive acesso a emprego aqui no meu estado. Eu estou terminando o curso de jornalismo da UNIFAP e eu nunca tive acesso a nenhum estágio de jornalismo aqui no Amapá. Mas tive o audiovisual esses anos todos, trabalho a quase 10 anos com audiovisual e consegui ter uma estrutura de vida por conta do trabalho com audiovisual, e muitos desses trabalhos foram possibilitados porque teve investimento de política pública para que isso acontecesse. Então para mim, é um direito nosso, uma necessidade extrema. Não só pelo acesso à cultura, mas porque é toda uma cadeia produtiva que o audiovisual gera dentro desse país e que está movimentando a economia e isso precisa ser valorizado, sabe. Essas pessoas que são trabalhadoras desse setor precisam ser valorizadas, precisam ser mantidas.


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