• Ingra Tadaiesky

Muita terra sem gente, muita gente sem terra.

Trabalhadores rurais desejam lotes para produzir

Foto: Ingra Tadaiesky

Benedito Costa e Maria de Fátima Bacelar são paraenses e vieram para o Amapá, em 2002. Trabalhadores rurais com quatro filhos residiram por um tempo em uma casa cedida por um parente, onde eles puderam morar por algum tempo, mas eram proibidos de plantar. Após algum tempo, o proprietário pediu que saíssem da casa, eles o fizeram. Mas, não tinham mais para onde ir e ficaram sem lar. A casa onde viviam foi desocupada e está vazia. Atualmente, Benedito, Maria e seus filhos residem à beira da estrada, entre uma cerca e a rodovia AP-070.

“A gente mora aqui porque não tem onde fazer uma casa, a casa que a gente tem é essa aqui. Não tem terra pra gente, na verdade, terra tem, mas tem dono, é uma terra vadia que não mora ninguém. Terras desocupadas”, fala Maria. A sua casa improvisada fica a poucos metros de um grande terreno cercado por altos muros, pertencente a um empresário, evidenciando as desigualdades de moradia.

Do lado esquerdo, a cerca limitando a propriedade privada e, no centro, a casa improvisada. À direita, a estrada. Foto: Ingra Tadaiesky

Entre a rodovia e o latifúndio privado, “essa casinha aqui toda irregular, é uma casa que a gente não podia fazer, mas não tinha onde ficar e aí tivemos que fazer aqui”, fala Benedito.

A Reforma Agrária, no estado do Amapá, é uma ação conveniada entre o Instituto Municipal de Administração Pública (IMAP) e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para a transferência de terras por meio de trâmites legais. “A gente quer estrutura e aqui não tem nem energia. Precisamos de estrutura, porque a reforma agrária não é só distribuir terra, tem que dar estrutura mínima. Não tem energia em casa, e na beira da estrada o poste passa bem na frente”, fala Jairo Palheta, trabalhador rural.

Casa de Jairo. Foto: Ingra Tadaiesky

O Brasil atingiu, em 2021, a marca de 14,2% de desempregados, segundo dados divulgados pela Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O estado do Amapá, nos últimos dados divulgados no primeiro trimestre de 2020, aparecia com a segunda maior taxa de desemprego de todo o país, com 17,2% ficando atrás somente da Bahia com 18,7%.

“A cidade é pra quem tem estudo”, afirma José Maria Albuquerque, trabalhador rural do Vale da Ressaca. Ele nasceu e cresceu em zonas rurais, no entanto, passou um período de sua vida na cidade e lá percebeu que sem estudo não conseguiria emprego. “Tu vais pedir emprego em uma empresa e eles colocam tanta dificuldade que tu não consegues”, fala ele.

José Maria e toda sua plantação. Foto: Ingra Tadaiesky

Na zona rural, não passam fome. Fazem uma farinha, pescam, plantam frutas e vão sobrevivendo com auxílio ou o bolsa família. Em média de R$ 100,00 o recurso federal para uma família ajuda a comprar material escolar, roupas, remédios. É sempre uma sobrevivência e improvisam outros modos, como a venda à beira da estrada das frutas ou do tucupi.

Elziane e sua filha. Foto: Ingra Tadaiesky

Elziane da Silva conta que sempre viveu no campo e está há 24 anos no Amapá. Ela explica que a vida na cidade é mais difícil e sem uma fonte de renda não tem como sobreviver. “Aqui não, qualquer coisa vou ali pesco um peixe pra eu comer, algum vizinho me dá frutas, ou eu planto”, fala. Os filhos de Elziane moram na cidade de Macapá e tiram seu sustento na venda de produtos dentro dos ônibus da capital.

José Maria e Elziane são vizinhos e cada um possui um pequeno pedaço de terra onde produzem para a comercialização e subsistência. No entanto, o espaço não é o suficiente para a plantação, sendo extremamente pequeno. Ambos se mobilizam na luta pela terra, em busca de conseguirem ampliar seus lotes para a produção agrícola familiar.

Como a produção é pouca, algumas famílias da zona rural comercializam frutas compradas na cidade de Macapá, uma enorme contradição. “Eles vendem frutas que compram de Macapá, olha o disparate, vivem em uma área rural, não tem terra, são desempregados e vendem produtos que não são produzidos aqui! Olha o nível de contradição e injustiça”, exclama Jairo.


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