• Léo Nilo

"Uma em cada cem pessoas é psicopata", afirma Gian Danton, autor de novo livro sobre o assunto

“Psicopatas - Na vida real e na ficção” é o novo livro de Gian Danton, premiado autor de quadrinhos brasileiro, em parceria com Jefferson Nunes. A obra está sendo financiada coletivamente na plataforma Catarse, com lançamento previsto para o primeiro semestre de 2022. Em entrevista exclusiva à AGCOM, Gian Danton conta sobre como o livro surgiu, como reconhecer um psicopata e quais são os mais realistas da ficção.



AGCOM: De onde surgiu o interesse no tema do livro, os psicopatas?

GIAN DANTON: O interesse surgiu ali pelo ano de 2003, quando eu fui vítima de um psicopata golpista. Não era um psicopata assassino, graças a Deus. Mas foi uma pessoa que passou dois anos convivendo dentro de casa, que vinha e tomava café, almoçava, jantava em casa e acabou me aplicando um golpe. Nesse mesmo período, saiu na revista Veja uma matéria sobre psicopatas e tinha uma lista de características deles. E quando eu li a matéria, fui identificando todas as características da pessoa com quem eu tinha convivido por dois anos. Isso me chamou muita atenção, pensei "poxa, da mesma forma que eu fui enganado, muitas outras pessoas devem estar sendo enganadas".

Outros fatores também me chamaram muita atenção, porque depois eu tentei avisar as pessoas que eram amigas em comum, com relação a esse indivíduo, e ninguém acreditava em mim, porque a capacidade de convencimento do psicopata é extraordinária. Você pode estar falando a verdade, com todas as provas, ele pode estar mentindo da maneira mais descarada possível, mas a pessoa acredita nele. Depois, todas as pessoas que eu tentei avisar vieram me falar que foram vítimas de golpes dele.

Nessa época, naquela coisa de jornalista mesmo, eu comecei a pesquisar, comprar livros sobre o assunto, acompanhar tudo que saia em jornais e revistas. E eu tive algumas coincidências, por exemplo, quando o Francisco das Chagas, que emasculava crianças, estava agindo no Maranhão no último crime dele, eu estava no Maranhão visitando um tio. [Francisco das Chagas] inclusive era quem falava em nome da família. E eu estava ali vendo a situação, e depois vi que o cara foi preso, a criança foi enterrada na casa dele. Eu falei "nossa, o cara que eu via lá nas manifestações falando pela família". Depois, quando eu fui para Goiânia para fazer doutorado, no mesmo período estava agindo o maníaco de Goiânia. Também tem essas coincidências, de eu estar próximo aos locais em que estava acontecendo.

E claro, eu fui coletando tudo que saía na imprensa sobre o assunto. Eu comecei logo a ter ideia de fazer um livro. Mas o perfil do livro mesmo surgiu em decorrência de uma editora, chamava-se Opera Graphica. Eu comentei sobre o livro com um dos sócios e ele disse "olha, como a Opera Graphica é uma editora especializada em cultura pop, em quadrinhos e tal, se vocês tiverem também esse enfoque de cultura pop a gente se interessa em publicar”. Aí que virou essa ideia de "na vida real e na ficção". Só que, infelizmente, a editora fechou antes que o livro pudesse ser publicado. Aí a gente parou o livro ainda em produção. Só que em 2021, eu fui convidado para palestrar num congresso chamado "Mentes Criminosas", para falar exatamente sobre psicopatas. Já que eu vou palestrar no Congresso, por que não trazer o livro de volta e usar o Catarse como uma forma de financiamento? Foi assim que surgiu o livro.

Gian Danton, co-autor do livro "Psicopatas". (Imagem: Reprodução/Facebook)

AGCOM: O livro foi feito em colaboração com o jornalista Jefferson Nunes. Como se deu essa parceria?


GIAN DANTON: O Jefferson surgiu exatamente nesse momento em que a Opera pediu esse enfoque em cultura pop. Como o Jefferson já tinha feito vários outros trabalhos comigo, eu sabia que ele era muito bom de pesquisa em cultura pop. É um cara que saca muito de música, de filmes, seriados e tal. Ele já tinha feito, por exemplo, um trabalho que eu editei pra Escala, um livro sobre a queda do muro de Berlim. Eu escrevi alguns artigos no livro e o editei. Aí eu sugeri o projeto de fazer um [capítulo] sobre a época da guerra fria na cultura pop e foi um capítulo muito bom, muito elogiado no livro. Então como eu já tinha essa experiência com ele, sabia que ele era muito bom de pesquisa nesse assunto, trouxe para junto do projeto.


Jefferson Nunes, co-autor do livro "Psicopatas" (Imagem: Reprodução/Facebook)

AGCOM: Estamos num momento muito peculiar no cenário de cultura pop em que vários conteúdos de true crime (crimes reais) estão sendo populares na mídia. Você acha que essa maior cobertura ajuda a conscientizar as pessoas do problema, ou ela mais sensacionaliza a questão?


GIAN DANTON: Realmente parece que há um interesse maior em cima do tema. Eu acho que tem alguns muito bons, alguns trabalhos são excelentes até de ficção mesmo, como "Bom Dia, Verônica" da Netflix. Ela é co-escrita pela Ilana Casoy, que é uma das principais autoras de livros sobre psicopatas no Brasil. Você percebe ali que isso ajuda muito a fazer uma obra que realmente mostra um psicopata como ele é. Mas você vê alguns outros também que às vezes ficam muito no sensacionalismo, uma visão que não te mostra direito o que é aquilo, ou não discutem direito. Por exemplo, essa questão do Lázaro que chamou muita atenção da mídia. Nisso eu acho que houve muito mais desinformação do que qualquer outra coisa. Porque se vendeu muito como o Lázaro seria um psicopata, um serial killer, e talvez até fosse, mas ele não tinha laudo. E no final acabou se descobrindo que ele era um jagunço. Contratavam ele para matar pequenos fazendeiros para se apossar da terra deles, pelo que já se descobriu. É possível até que contrataram um psicopata para fazer isso, mas pode ser que não, que ele simplesmente fosse um um assassino profissional. E como mataram ele, não dá para saber, não tem um laudo. Nem todo psicopata é assassino e nem todo assassino é psicopata. Às vezes essas questões estão na mídia e mais confundem do que ajudam.


"Bom Dia, Verônica", série da Netflix. (Imagem: Divulgação)

AGCOM: É possível se prevenir de um ataque de psicopata, ou é o tipo de coisa que só se percebe depois que acontece?


GIAN DANTON: A ideia do livro é bem essa. O livro tem 3 capítulos, o primeiro capítulo é exatamente falando sobre o fenômeno da psicopatia e falando em como você pode se prevenir disso. Existem algumas características que te ajudam a identificar um psicopata. Existem várias pesquisas com resultados diferentes, mas a grande maioria concorda que pelo menos uma em cada 100 pessoas é psicopata. Ou seja, é o que eu costumo dizer: se você tem 100 amigos, é muito provável que uma dessas pessoas seja psicopata. E geralmente é quem você menos desconfia.

Esse é o maior problema, porque o psicopata cria uma coisa chamada de "máscara social". O primeiro livro escrito sobre o assunto, lá na década de 40, se chama "A Máscara da Sanidade", ele destacava muito isso. [O psicopata] sabe que se as pessoas souberem quem é ele, como ele age e como ele pensa, ele vai ser preso. Então ele cria uma máscara para mostrar para a sociedade. Esse é o maior problema porque é muito difícil você identificar. Porque parece uma pessoa muito agradável, parece uma pessoa muito simpática, uma pessoa que está o tempo todo sorridente. Uma pessoa muito prestativa. Mas você não pode também dizer que todos que são prestativos e simpáticos são psicopatas. Aí você tem que ir para os fatores que realmente identificam um psicopata.

O primeiro fator que é muito perceptível, que é um grande sinal de alerta, é a questão da mentira compulsiva. Mentira compulsiva você identifica muito rapidamente: o psicopata mente o tempo todo. Ele mente até quando ele não ganha nada com a mentira. E você muitas vezes pega ele na mentira, você descobre, mas a lábia dele, a capacidade - os pesquisadores chamam de Charme Artificial, ou Charme Superficial - a lábia dele é tão grande que ele consegue te convencer de qualquer coisa. Esse psicopata que me deu o golpe, eu já tinha pego ele em várias mentiras e era impressionante, ele se fazia de vítima, ele chorava, sabe. E no final você se sente até culpado de ter descoberto aquela mentira. Então, se você tem alguém que conhece que mente o tempo todo, isso já é um grande sinal de alerta.


“...a grande maioria concorda que pelo menos uma em cada 100 pessoas é psicopata” - Gian Danton

GIAN DANTON: Aí vão os outros fatores que são mais difíceis de perceber, por conta dessa máscara social. O psicopata não tem relacionamentos afetivos, ele tem relacionamentos de interesse. Eu costumo dizer que o psicopata não tem pai, não tem mãe, não tem filho, não tem esposa, namorada. Ele tem pessoas que estão na órbita de interesse dele e pessoas que não estão na órbita de interesse. Mesmo um bandido normal, por exemplo um traficante que não seja psicopata, ele vai fazer de tudo para que não aconteça nada com a família dele. E se acontecer, vai ficar extremamente chateado com aquilo. Para o psicopata, não faz diferença nenhuma a não ser que ele vá perder alguma coisa com aquilo. Por exemplo, dentro de uma empresa - tem um trecho no livro só sobre psicopatas dentro das empresas - Ele vai fazer amizade com as pessoas que acha que vai ganhar alguma coisa. Vai conseguir informações privilegiadas, vai namorar ou seduzir pessoas dentro da empresa, não porque ele gosta delas, mas porque ele vai usá-las de alguma forma. E no momento que ele usa, ele descarta. Ele não tem afetividade.

O livro "Psicopatas - Na vida real e na ficção". (Imagem: Divulgação)

GIAN DANTON: Ele não tem capacidade também de sentir o que a outra pessoa está sentindo, o que a gente chama de empatia. Ele olha para uma pessoa e sabe que ela está sofrendo, mas não consegue sentir o que ela está sentindo. E é o que nós, pessoas normais, sentimos. Se houver um acidente na rua e a pessoa quebrou a perna, você olha e sente o que a pessoa está sentindo de alguma forma. Você pode não sentir a dor física, mas sente a dor psicológica. O psicopata não consegue se colocar no lugar dela. Claro que esses são dois fatores muito difíceis de perceber, porque tem essa máscara social. Ele sabe que, se ele revelar isso, as pessoas vão ficar de sobreaviso com ele.

Outra característica que dá para perceber também, é que ele é muito controlador. Ele gosta de controlar pessoas, gosta de estar no controle. Então se ele está numa empresa, ele vai fazer de tudo para chegar num cargo de chefia. Se ele está num grupo, pode ser até um grupo da igreja, ele é o controlador, aquela pessoa que fica manipulando, as vezes criando discórdia.

Ed Gein, psicopata americano. (Imagem: Reprodução)

GIAN DANTON: Ele sente prazer nisso. Porque o psicopata não sente prazer como a gente sente, com as coisas da vida. A capacidade cognitiva dele é afetada. Por exemplo, boa parte dos crimes de psicopata, no caso de assassinato, são sexuais. Porque ele não sente prazer na relação sexual. Ele precisa de algo muito forte para sentir prazer. A mesma coisa na vida. A vida do psicopata é cinza, ele não sente prazer nas coisas.

No caso da sexualidade, por exemplo, tem o exemplo emblemático que é o [Andrei] Chikatilo, um psicopata russo. Ele tentou ser um estuprador em série. Geralmente estupradores em série são psicopatas. A primeira vez que ele tentou estuprar uma garota, ele não conseguiu porque ele não conseguia ter ereção. E aí ele ficou tão bravo, tão nervoso com aquela situação, que ele esganou a garota. E no momento que matou ela esganada, ele sentiu um prazer que ele não sentia no sexo, mesmo quando era a tentativa do estupro. Daí ele pensou "opa, isso aqui dá mais prazer do que relação sexual, então a partir de agora eu vou só matar". Então, eles precisam de algo pra tirar eles dessa vida cinza, eles precisam de grandes emoções, de grandes sensações. E algo que seja extraordinário na vida deles.

Eu costumo dizer o seguinte: todo psicopata - pode até não ser assassino - deixa um rastro de destruição por onde passa. Tem gente que é vítima de psicopata e se mata, gente que fica na miséria. Há casos aí famosos em que o psicopata deixou a mãe na miséria, por exemplo. E é algo muito comum, é impressionante como as pessoas ficam fascinadas por ele, mesmo quando são avisadas. Que foi o que aconteceu com os meus amigos, mesmo avisados, continuaram hipnotizados. A ideia do livro é tentar abrir um pouco a cabeça das pessoas e elas ficarem mais atentas a isso.

Andrei Chikatilo, psicopata soviético. (Imagem: Reprodução)

AGCOM: O livro aborda tanto os psicopatas da vida real quanto os da ficção. Em sua opinião, qual personagem ficcional melhor demonstra as características dos psicopatas reais?


GIAN DANTON: Tenho vários. Mas um que eu destacaria muito é "O Silêncio dos Inocentes". Esse filme é muito bom porque ele teve a consultoria de um cara que foi o co-criador do departamento do FBI que trata de psicopatas assassinos. Inclusive tem, não é ficção, mas tem uma série na Netflix chamada “Caçador de Mentes” que conta a história da criação desse departamento. Uma coisa que eu aconselharia, é assistir o seriado e depois assistir "O Silêncio dos Inocentes", que aí você percebe o quanto uma coisa tem da outra. Como o consultor era um cara que trabalhava com psicopatas, de certa forma o filme reflete a realidade dele.

"Caçador de Mentes", série da Netflix. (Imagem: Divulgação)

GIAN DANTON: Eram caras do FBI que tinham um departamento de psicologia, em que faziam perfis de criminosos e palestras para policiais sobre essa questão psicológica. E um dia eles foram fazer uma palestra em um local perto da penitenciária onde estava o Big Ed. Famoso Big Ed, que era um cara imenso e um dos grandes assassinos norte-americanos. Um deles tem a ideia de ir lá entrevistar o Big Ed. E ele era um cara muito orgulhoso do que ele fazia, e essa é uma grande característica também, [os psicopatas] são muito narcisistas. E ele começa a falar muito sobre o caso e, naquele orgulho dele, começa a dar muitas informações. Aí eles usam as informações que estão coletando com o Big Ed para solucionar um caso real. O cara volta com ele algumas vezes, para tentar entender como funciona a mente de um psicopata, e como o Big Ed era muito orgulhoso, ele ajuda o cara. Se você for ver, é a mesma história de “O Silêncio dos Inocentes”. Que a Jodie Foster vai lá pra conversar com o Hannibal, porque tem um psicopata que pegou a filha da senadora, e ele ajuda ela. É a mesma história, eles só fizeram alterar os personagens. Mas assim, é impressionante pra quem conhece realmente do assunto, acho que é um dos melhores filmes sobre [psicopatas]. Mostra realmente como é um psicopata. Claro que tem os exageros de Hollywood, o Hannibal é um cara sobre-humano. Mas inclusive tem detalhes, por exemplo, uma hora em que a senadora é orientada pelo pessoal do FBI a fazer uma fala na TV, falando para o Buffalo Bill - que, aliás, é baseado em outro psicopata: no “O Silêncio dos Inocentes”, o Hannibal seria o Big Ed e o Buffalo Bill seria o Ed Gein, um cara da década de 50 que matava mulheres para tirar parte do corpo, porque ele achava que se ele tivesse uma roupa de pele ele viraria mulher - quando a [senadora] vai falar na TV, ela fala diversas vezes o nome da filha. Aí eles explicam porque ela fez aquilo: para humanizar a mulher, a garota. Porque o psicopata precisa desumanizar ela, ele precisa que ela seja vista como um objeto, como um animal. Então repetir o nome dela era uma forma de humanizar e tentar evitar que pelo menos naquele momento ele a matasse. Então, eles estavam usando ali as técnicas que são usadas no FBI mesmo. É um dos meus filmes prediletos, e o mais parecido mesmo.

Anthony Hopkins como Hannibal em "O Silêncio dos Inocentes". (Imagem: Divulgação)

GIAN DANTON: Tem outros que eu adoro. Não é tão realista, mas o “Se7en” é um filme perfeito. E aliás, traz outra característica do psicopata, que é a coisa da assinatura, do cara fazer questão de assinar os crimes. Cada assinatura tinha a ver com um pecado. Além da história dele acompanhar. Essa é uma característica dos psicopatas assassinos, eles acompanham os casos. Ele sabe quem está investigando, ele compra todos os jornais sobre o assunto. Ao contrário, por exemplo, do louco. Essa é uma coisa que o pessoal confunde muito, achar que psicopata é o mesmo que psicótico. São duas coisas completamente diferentes. O psicótico é um louco. Um louco que mata em um momento de fúria. O louco, por exemplo, pode até fazer isso várias vezes, mas ele não vai mexer na cena do crime. Ele não vai acompanhar o caso pela mídia. Ele não vai planejar. São bem diferentes, o psicótico do psicopata. E esse é outro problema, quando eu e o Jefferson estávamos fazendo a pesquisa para o livro, a gente encontrou vários casos - tem uma história do Homem-Aranha que eu estava lendo justamente porque falaram que era um caso de psicopata, e terminei de ler e falei "puts, isso aqui é um surto psicótico, não tem nada de psicopata". Mas no quadrinho é meio falado que ele é um psicopata, mas você lê e se depara com um psicótico. O personagem na verdade é doido.

Livro "Psicopatas - na vida real e na ficção". (Imagem: Divulgação)
 

O livro “Psicopatas - Na vida real e na ficção” está em fase de financiamento coletivo na plataforma Catarse, que pode ser acessada aqui.

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