Torcida organizada em Macapá: a força social que vai além dos 90 minutos
- AGCom

- há 2 dias
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Como a Fiel Fort utiliza a identidade corintiana para fortalecer vínculos comunitários e ocupar espaços na periferia da capital
Maria Cândida Ferreira*
Nos dias de jogo do Corinthians, a sede da Fiel Fort Macapá, localizada no bairro do Beirol, zona sul da capital, passa por uma transformação visível. O que durante a semana funciona como um espaço simples de convivência se converte em ponto de encontro vibrante.
Crianças circulam entre bandeiras alvinegras, idosos ocupam cadeiras próximas à televisão, jovens organizam a bateria e famílias inteiras acompanham cada lance da partida. Fundada em 2015, a instituição se consolidou como uma torcida organizada do Sport Club Corinthians Paulista no Amapá, mas seu impacto vai muito além do campo.

Origem e expansão da organizada
A história da organizada começou de forma simples, em um grupo de WhatsApp chamado “Gaviões do Amapá”. Segundo o presidente da torcida, Aldenir de Souza, conhecido como Lico, o objetivo inicial era apenas reunir corintianos da cidade para conversar sobre o time e produzir uma camisa própria.

O que era para ser um encontro informal para discutir a arte da camisa rapidamente ganhou proporções inesperadas. “A gente se reuniu um dia aqui mesmo na sede para discutir a ideia da camisa. Vieram só sete pessoas. Fizemos quase toda a arte ali. No outro domingo, apareceram mais dez. Depois vinte, depois trinta. Quando a gente viu, a sede lotou e a rua também”, relembra Lico.

O crescimento rápido fez com que o espaço passasse a ser utilizado regularmente para assistir aos jogos. Aos poucos, o grupo ganhou estrutura, novos integrantes e uma identidade própria. “Ali nasceu a Fiel Fort Macapá, em julho de 2015. Começou como torcida, mas foi virando muito mais do que isso”, afirma Lico.

Ações sociais e impacto na comunidade
Com o passar dos anos, a organizada passou a perceber que o alcance do grupo poderia ir além do esporte. Inspirados pela própria história do clube paulista, tradicionalmente ligado às classes populares, os integrantes começaram a promover ações solidárias voltadas à comunidade. “O Corinthians surgiu do povo trabalhador, dos operários. Isso está no nosso sangue. Então, naturalmente, a gente sentiu que precisava retribuir”, explica o presidente.
Uma das primeiras iniciativas foi o ‘Natal Solidário’, que arrecada alimentos para famílias em situação de vulnerabilidade no período de fim de ano. A ação se tornou anual e cresceu a cada edição. Além dela, surgiu o projeto ‘Fiel Fort Kids’, realizado no Dia das Crianças, com distribuição de brinquedos e atividades recreativas.

Segundo estimativas da coordenação, apenas entre 2024 e 2025, cerca de 400 pessoas foram beneficiadas por essas ações. No período da pandemia da Covid-19, o grupo também realizou a distribuição de máscaras para pessoas de baixa renda no Residencial São José, zona sul da capital.

As doações alcançaram bairros periféricos de Macapá, como Canal do Jandiá, Congós, Muca, Novo Horizonte e São Lázaro, além de comunidades no município de Santana. “No começo a gente ia de casa em casa entregar as cestas, sempre nas áreas mais carentes. Hoje, muita gente vem buscar aqui na sede, mas o foco continua sendo quem mais precisa”, explica Lico.

Para além das campanhas organizadas, a torcida também atua de forma emergencial, mobilizando arrecadações rápidas quando algum integrante ou morador enfrenta situações de dificuldade. Incêndios, doenças, desemprego e perdas familiares estão entre os momentos em que a rede de apoio se ativa.
Quando a torcida vira família
A lógica de solidariedade cotidiana transformou a percepção de muitos participantes sobre o que significa fazer parte da torcida. Entre eles estão Aline Braga e Robenilson Varela, que se conheceram justamente ao participarem da organizada, há cerca de dois anos. O que começou como encontros nos dias de jogo se tornou um relacionamento e, posteriormente, uma família.

O casal leva a filha Luiza, de cinco meses, carinhosamente apelidada de “Lulu da Fiel”, para acompanhar as partidas. Aline destaca que o ambiente é acolhedor e seguro. "É um espaço familiar. Você vê criança, idoso, todo mundo junto. Não tem aquela coisa de violência que as pessoas imaginam quando falam de torcida organizada", afirma.

Durante a gestação, o apoio do grupo se tornou essencial. Ao precisar montar o enxoval da filha, Aline começou a vender maquiagens, e a resposta dos integrantes foi imediata. Robenilson, que também é diretor da organizada, resume o espírito da torcida: "Não importa o cargo que a pessoa tem dentro da organizada. Todo mundo se ajuda. É realmente uma família. Eu sempre digo para os novatos: aqui é um lugar de apoio, de peito aberto".

Identidade local e combate ao preconceito
Os integrantes veem a torcida como um espaço de construção cultural próprio, adaptado à realidade amazônica. Essa adaptação local contribui para romper o estigma historicamente associado às torcidas organizadas, frequentemente retratadas como violentas ou marginalizadas. Para Lico, o trabalho social é uma das principais ferramentas para mudar essa imagem. “Existe preconceito, sim. Muita gente ainda acha que torcida organizada é bagunça, vandalismo. Mas nossa ideologia é justamente o contrário: amor ao time e responsabilidade social”, afirma.

O lema da torcida, “Além dos 90 minutos”, sintetiza essa proposta. A ideia é mostrar que o compromisso do grupo não se encerra com o apito final do jogo, mas se estende ao cotidiano da comunidade. “A gente procura honrar esse lema todos os dias, com trabalho social, com apoio às pessoas, com presença nos bairros”, diz o presidente.
Impacto sociológico e legado
Para a professora Roberta Scheibe, doutora em Sociologia e docente de Jornalismo da Universidade Federal do Amapá (Unifap), experiências como a da Fiel Fort demonstram como o esporte pode funcionar como base para a construção de vínculos sociais sólidos. Segundo a pesquisadora, ao se mobilizar para ajudar e criar espaços seguros de convivência, a torcida mostra que esses coletivos podem ser agentes de transformação social, exercendo funções semelhantes às de organizações sociais em áreas periféricas.

“Essas práticas vão gerando costumes, crenças e formas de conduta. Com o tempo, se constrói uma representação social do grupo como espaço de pertencimento, ajuda e colaboração”, explica. Para a pesquisadora, esse processo fortalece laços de confiança e cria uma sensação de segurança coletiva, especialmente em contextos urbanos marcados por desigualdades.

O lema da torcida “Além dos 90 minutos” se concretiza também nos planos futuros da organizada. O compromisso do grupo não se encerra com o apito final do jogo, mas se estende ao cotidiano da comunidade, honrando a história de inclusão e povo do Corinthians. O grupo pretende expandir as arrecadações para outras áreas de Macapá ao longo de 2026, com foco no atendimento emergencial de moradores e na continuidade dos projetos anuais de doação, reafirmamando o compromisso social que sustenta a identidade da torcida.
*Reportagem produzida na disciplina de Webjornalismo, ministrada pelo professor Dr. Danilo Borges.




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