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POR QUE VOTAR EM MULHERES NEGRAS?

Por: Elane Albuquerque

Elane Albuquerque (Foto: Arquivo Pessoal)



Escrevo este texto um dia antes do início das propagandas eleitorais, neste pleito de 2022, para falar sobre candidaturas de mulheres negras, o que me parece já uma urgência, especialmente neste ano. De fato, estas eleições são diferentes e, por isso, minha posição em relação a este processo também teve que se adaptar às necessidades deste contexto.


Para nós, mulheres e negras estes últimos anos foram bem difíceis. Vivenciamos todos os tipos de violência geradas na polaridade política, cultural, social, moral e ética resultante da última eleição presidencial. Eu ainda sou afroreligiosa e professora e por isso, não escapei dessa experiência em todos os espaços da minha vida cotidiana, no trabalho, na família, nas redes sociais, no amor... Se outras escaparam, é porque foram abduzidas neste meio tempo.


Por isso, acredito ser urgente termos condições para disputar esse espaço, mesmo que enfrentando todas as contradições dos partidos de "esquerda", já que os partidos da “direita” apresentam projetos de sociedade que não nos cabem, mas também não nos iludem. Da minha parte, sempre fui pouco otimista sobre a participação popular por meio da política representativa. Acredito que este espaço e suas regras se mantêm como parte importante da estrutura racista e sexista da colonidade brasileira, incluindo aí os partidos políticos de "esquerda", como bem expressou as imagens do ato de apoio à candidatura Lulista, realizada na USP na última semana.


Não precisa ser especialista na leitura de imagem para entender que os registros apresentam exatamente as mesmas características da cara da elite branca, que também comanda os partidos de “direita”.


Por isso, não é de hoje que venho declarando minhas intenções de voto radicalmente em mulheres negras. Se, você, companheira/o branco/a, da luta socialista, entende isso como “racismo reverso”, até dispenso o diálogo. Primeiro, não tenho obrigação de fazer alfabetização racial com você. Segundo, tenho ciência que entre vocês temos realmente poucos/as aliados/as dispostos/as a abrir mão do privilégio da branquitude para construir junto conosco uma sociedade em que não serviremos mais a vocês, mas compartilhamos com vocês de toda riqueza e produto de nosso trabalho.


Então, disputar este espaço, sendo mulher preta, certamente é se jogar em uma trajetória onde o verbo esperançar seja o todo ao acordar até o dormir. É uma escolha de muita ousadia e isso nunca nos faltou na vida, é nosso sobrenome. E, no Amapá, as pretas vieram "di cum força" e me surpreendeu a quantidade delas que se lançaram neste "fogo". O que não me surpreendeu foi a resposta “deles/as” diante de nossas candidaturas, através de todo tipo de violência partidária, utilizando-se de “características e comportamentos femininos” para nos desqualificar, apartar e assim, fragilizar.


O desafio é: Como fazer esse enfrentamento se não for exatamente da mesma forma que chegamos até aqui, coletivamente? Porque o meu projeto de sociedade é aquele em que mulheres negras estejam por nós nos espaços de poder de decisão de nossas vidas. E esse projeto-sonho-movimento não é individual e nem é de agora. É ancestral e coletivo. Entender isso é potencializador e muitas das nossas entendem isso.


É preciso questionar a ausência de nós em espaços que decidem sobre nossas vidas e nossos corpos, ainda mais se tratando de um espaço criado e elaborado por e para que os mesmos personagens, homens brancos, proprietários, héteros e cristãos renovem o projeto colonial racista e patriarcal que herdaram e que perpetuam cinicamente e violentamente a cada pleito eleitoral. Mas, eles não esperam que nós estejamos juntas. E, nós estamos e iremos derrubar a porta, se for preciso. Porque estamos reivindicando nossa existência com dignidade e no diálogo, eticamente amoroso entre nós e o mundo.


Nossa estratégia começa quando compreendemos que o movimento de uma mulher negra nunca é solitário. Trazemos as que vieram antes, as de agora e as que virão. Trazemos nossos homens, irmãos e filhos. Trazemos nossas irmãs e irmãos indígenas. Trazemos todes que experimentam o desafio de viver e amar como seu corpo deseja. Trazemos todas/os/es que não foram convidadas/os/es. Cada ser e elemento sagrado. Trazemos um mundo inteiro em nós. Uma mulher negra gesta, pari e alimenta, porque somo “Yás” do mundo inteiro.


Entretanto, se houver aquela que ingenuamente decide trilhar sozinha, por e para si, desconsidera de onde veio e para onde irá... Ela certamente, se perderá pelo caminho. Precisará retornar num movimento sankofa e exuístico. Reencontrar nossas ancestrais, reencontrar a outra e, assim, reencontrar e reconhecer a si mesma como parte desse movimento potencializador da trajetória terrena. Recomeçar imersa no axé, na força vital que nos retroalimenta.


Porque votar em mulheres negras?


Porque ter mulheres negras na política é importante. Estar junto com elas também é importante. Porque precisamos dessa certeza de que não estamos sós. E não estamos mesmo. Por isso seguro a mão de cada uma que escolheu esta trajetória por nós. Por mais Alziras, Lauras, Thawanas, Piedades, Cristinas, Veras e tantas outras dessa rede que nos entrelaça por um mundo melhor... Eu seguro a mão de vocês, minhas irmãs.

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