“O álcool realmente é uma droga, causa dependência e destrói o seio familiar”, diz Rômulo Pantoja, gerente do Caps AD de Macapá

Serviço público de saúde mental atua no acolhimento e tratamento de usuários de álcool e outras drogas.
por Jully Lima e Lara França*

Arte, música e esporte fazem parte do tratamento utilizado pelo Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD) em Macapá, que auxilia pessoas no combate à dependência química. Rômulo Lima Pantoja, de 40 anos de idade, enfermeiro com especialização em saúde mental, atua no Caps há 15 anos e gerencia há um ano o Centro de Atenção Psicossocial para Álcool e outras Drogas (CAPS AD III - Espaço Acolher). Para ele, o processo de desintoxicação e melhora de um paciente envolve não apenas o usuário e a equipe profissional, mas também a família, que é um apoio fundamental para a superação do vício em substâncias. Em entrevista, ele conta sobre os desafios e os métodos utilizados no tratamento da dependência química.
Como e quando buscar o atendimento?
Primeiramente a pessoa pode falar com alguém de confiança. Tem vários aspectos. Tem aquela pessoa que não reconhece o problema, outras pessoas que estão próximas que reconhecem. Os principais alertas para a pessoa é quando ela começa a dedicar maior parte do tempo dela para o uso, deixa de estudar, deixa de trabalhar, é quando a droga ou a substância começa a tomar o protagonismo da vida da pessoa. Então, nesse momento, ela pode procurar alguém em que confia e conversar sobre isso ou procurar nas redes sociais. Hoje em dia a gente tem essa facilidade. A pessoa pode procurar, falar com alguém de confiança ou um profissional da área de saúde, que geralmente eles têm essa informação que existe o CAPS e encaminham para cá.
Os pacientes vêm por conta própria ou eles vêm com a família?
O paciente pode vir de três formas. Encaminhado por algum serviço de saúde ou qualquer outro serviço. Ele vem por demanda espontânea, quando ele mesmo verifica que tem um problema com uso de álcool e outras drogas, ou ele pede ajuda para alguém da família, chega para alguém da família que conhece o serviço ou que já teve outra pessoa que passou aqui, ele pede ajuda e a pessoa traz. Então, às vezes vem trazido pela família, às vezes vem sozinho, ou também tem aquelas pessoas que vêm encaminhadas pela justiça, ou seja, que são obrigados, esses fazem tratamento de maneira compulsória.
Qual é o maior desafio do seu trabalho?
A área da dependência química é um desafio por si só. Devido a questão dos nossos pacientes, as características deles, aquele paciente que é ambivalente, ou seja, ora quer o tratamento, ora não quer. Então, eu tento justamente fazer com que a equipe o tempo todo se sinta motivada a estar cuidando desses pacientes. Portanto, nós temos que tornar o serviço mais atrativo possível. Como é que a gente faz isso? Através das oficinas. A gente tem uma diversidade muito grande de oficinas, onde a gente pega todos aspectos da vida deles; aspecto social, artístico, cultural. E, também, as oficinas que são específicas para cada um deles, dependendo do tipo de substância que usa, vai ter um perfil para participar de determinada oficina. O principal desafio é a gente como cuidador, como servidor, estar sempre motivado e fazer com que o paciente motive-se também a se engajar no tratamento.
Vimos que vocês trabalham com a arte. Como funcionam esses tratamentos?
A gente tem um quadro bem diversificado de oficinas, tem os grupos e tem as oficinas também. Quando nós montamos o Plano Terapêutico Singular (PTS), a gente monta de acordo com o perfil do paciente. Então, no acolhimento a gente vai perguntando, o que ele gosta, o que não gosta, como ele é, se é extrovertido, se não é. A gente tenta obter o máximo de informações possíveis. E aí, quando a gente traz essas informações, isso ajuda a montar o plano dele. Dentro do plano vão estar os atendimentos individuais que o paciente vai fazer com o médico, psicólogo, enfermeiro, centro social, terapia ocupacional, e também os grupos que ele vai participar. Os grupos nós montamos dentro da expertise de cada profissional. É dentro do que o profissional pode oferecer de terapia para o paciente dentro da sua própria área, por exemplo, a gente tem um grupo de terapia ocupacional, ela [terapeuta ocupacional] trabalha atividade de vida diária, trabalha arteterapia. A gente tem o grupo de teatro, música, cinema, tem o grupo de Práticas Integrativas Comunitárias, que é o PICS, tem uma gama bem variada. Tem também as oficinas que são mais técnicas. O grupo de álcool, para aquele paciente que faz o uso do álcool, o grupo verde, para aquele paciente que é usuário de maconha. O DQC, que é a Dependência Química do Crack, que é o paciente que usa o crack, não significa que ele faz uso somente do crack, mas que o crack é a principal substância que ele usa. A gente colocou o grupo de culinária e o grupo de dança também.

Como a música ajuda os pacientes?
A música é um conector universal. Dificilmente tem uma pessoa que não gosta de escutar uma música. A pessoa tem preferências, “Ah eu gosto de rock”, “eu gosto de reggae”, “eu gosto de sertanejo”, “gosto mais do pop”. A gente utiliza a música como uma terapia. Por exemplo, eu lembro que quando trabalhei no setor fechado da psiquiatria, eu utilizei para poder me aproximar de um paciente. O paciente gostava muito de rock e eu comecei a tocar umas músicas perto dele, ele falou: "Opa, gostei dessa música”, e veio para perto. Aí começou a conversar e pronto, já criou um vínculo, isso ajuda. Dentro da oficina, a gente pode trabalhar de diversas formas. A gente pode trazer, por exemplo, uma música pronta, eu vou escolher uma música pela letra dela. Eu coloco para eles escutarem e a gente começa a refletir em cima daquela música, em cima daquela letra. Porque ela traz mensagem para a gente, para a nossa vida. Temos também instrumentos, às vezes, a gente encontra algum paciente que sabe tocar violão, atabaque, pandeiro, eles também têm aquele momento livre. Eles escolhem uma música, começam a cantar e falam o que aquela música significa para eles, foi uma música que deu força, uma música que estimula eles, por exemplo, a buscar algo melhor na vida deles, é dessa forma.
Teve alguma história de algum paciente que marcou você?
Vários. Eu lembro de um paciente que chegou bem ruim aqui. A família o trouxe até o serviço, pois ele estava com um uso bem severo de craque. Usava uma grande quantidade e usava na casa dele. No início, essa pessoa passou por todos os profissionais, eu lembro que o médico passou uns remédios para ele. E ele começou a melhorar. Ele falou que teve um dia, voltando pra casa de ônibus, passou perto do estádio Zerão, viu um pessoal aquecendo, correndo; ficou curioso, desceu do ônibus, foi lá com eles e perguntou o que era e como é que ele fazia para participar. E eles falaram: "A gente é um grupo de corrida, atletismo. É só tu querer colocar um tênis e vir participar com a gente.” No outro dia, ele começou a participar. Foi quando, uns tempos depois, eu comecei a vê-lo nessas corridas de rua, foi uma coisa muito boa para ele. E eu vi que o tratamento, juntamente com a atividade física, no caso dele, a corrida, ajudou muito. Hoje ele tá recuperado, não usa mais, se dedicou somente ao esporte, já ganhou diversas medalhas. (...) São histórias que eu lembro que foram bem exitosas. É o tratamento que o paciente depois volta e agradece. Vem ver como está o serviço, se de alguma forma pode ajudar, porque aqui ele foi ajudado também.
Na sua opinião, como a atividade física pode ajudar o paciente a melhorar?
Eu sempre falo que o esporte deveria ser obrigatório para qualquer um, na verdade. A atividade física ajuda bastante em todos os aspectos da nossa vida. Combate a depressão, ansiedade, tudo. Olha, esse exemplo que eu dei do paciente, ajudou muito mesmo. Ele era um paciente que era sedentário, obeso, usuário de álcool e outras drogas. Então, isso ajudou demais ele. O esporte é muito importante.
Como a romantização dessas substâncias e das bets na mídia pode afetar esses pacientes?
A principal substância que a gente trata aqui é o álcool. O álcool é uma substância lícita. Se tu sair daqui agora, for ali no canto, tu consegue comprar uma garrafa de álcool, uma destilada de cachaça, cerveja, enfim. O grande desafio é esse, porque as drogas estão aí. Algumas são proibidas, e mesmo assim são utilizadas. E o álcool é legalizado, o tabaco é legalizado. A principal substância que a gente trata aqui, 95% / 98% dos nossos pacientes são usuários de álcool. A gente não pode romantizar. Porque o álcool realmente é uma droga, causa dependência e destrói o seio familiar. Como as bets, por exemplo, o paciente fica super endividado, gasta o dinheiro que era para pagar o aluguel, pagar a escola do filho, e se vê sem saída. Por exemplo, a gente atendeu um paciente por tentativa de suicídio, do HE, na enfermaria, por causa de jogos eletrônicos. Se super endividou, não viu mais saída na vida e tentou se matar.
Como o abuso de substâncias afeta a convivência do usuário com a família?
A primeira coisa que afeta é o ambiente familiar. Aquelas pessoas que estão ali mais próximas daquela pessoa. E isso quebra confiança, vai uma quebra também do amor que a pessoa sente por aquele familiar. A família muitas das vezes não tem a informação, não sabe como lidar, ela pensa que aquilo é uma falta de caráter. (...) E no grupo de família, quando acolhemos um paciente, sempre orientamos que a família também venha porque precisa aprender a lidar com ele; porque depois que parar o tratamento, ele vai voltar para casa. O paciente não fica aqui no Caps o tempo todo, ele vem e faz os atendimentos, consultas, os grupos e volta para a casa. Quando ele voltar para casa, a família precisa lidar com ele de uma maneira correta. Muitas vezes, aquele tempo que ele passou em sofrimento, a família lidou com ele de maneira errada, foi para o embate, não soube dar limites com relação a algumas coisas. E aí a família, no grupo de família, é orientada a isso; como lidar com essa pessoa? Quando ela está intoxicada? Quando está sob efeito? Quando está com uma crise de abstinência?. A gente sempre fala para a família que o trabalho não é só nosso, dos servidores, o trabalho também é em conjunto com a família. A família também é praticamente 50% porque o paciente volta para casa dele. Vai muito do paciente também, o paciente tem que querer, a gente tem que acolher naquele momento que ele quer. Às vezes tem gente que chega aqui quase dando seis horas da tarde e falamos: "Não, gente, bora acolher". Porque é a hora que o paciente pede, a hora que deu vontade, deu coragem. E tem alguns às vezes que vem sob efeito, fazem uso de substâncias para ter a coragem para aparecer, para vir aqui. Porque para eles é um desafio também. É um desafio para eles falar: "Eu estou mesmo precisando de ajuda nesse momento.” Para ele também é um desafio, é por isso que às vezes ele vem sob efeito, para poder criar coragem e falar.
Que mensagem você deixa para as pessoas que estão passando por algum sofrimento?
Que busquem ajuda. Hoje em dia, está mais fácil. Às vezes a pessoa se perde, porque vai para a internet e quer fazer por si próprio, mas eu acredito no serviço. Então, que ela procure um profissional, procure uma Unidade Básica de Saúde próximo à sua casa, em Macapá, quase todas as unidades têm um psicólogo. Faça uma consulta e ele vai te direcionar para o seu problema. A primeira coisa é que a pessoa precisa procurar ajuda. Procure alguém de confiança, algum familiar, e fale que você está sentindo, uma tristeza muito grande, por exemplo. Está sentindo uma coisa que não consegue explicar, ou que tem alguma coisa te preocupando. Uma coisa que hoje em dia está muito em alta, é a questão das bets, os jogos eletrônicos. Também fazemos o atendimento dessas pessoas aqui, às vezes a pessoa já tá super endividada e isso faz com que ela não durma direito, tenha sintomas de ansiedade, que trate mal as pessoas por causa da mudança de humor. (...) Então, a principal coisa é você se autoconhecer. A gente fala muito, inclusive nas oficinas, a gente trabalha muito isso, a questão do autoconhecimento. Eu tenho que me conhecer, tenho que saber quando é que eu tô mais irritado, quando é que eu não tô muito bem para conversar, o que tá causando isso em mim? De repente, algum problema? Eu consigo resolver, eu não consigo? Preciso de ajuda? Porque hoje em dia a gente dificilmente consegue resolver algo sozinho. A gente precisa de ajuda para resolver tudo. Então é buscar ajuda.
*Entrevista produzida na disciplina de Comunicação e Sociabilidade, ministrada pela professora Dra. Roberta Scheibe.




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