"Dançar nos faz mais felizes": a história por trás da Roda de Saias Samaúmas
- AGCom

- há 2 dias
- 6 min de leitura
Ana Cláudia Azevedo relembra a criação do grupo durante a pandemia, fala sobre a valorização da cultura amazônica e reflete sobre a dança como instrumento de identidade, bem-estar e conexão entre mulheres.
Por Lucas Farias*

A apresentação da Roda de Saias Samaúmas durante a abertura do Congresso de Tradutores da Amazônia (COTRAM), realizado na Universidade Federal do Amapá (Unifap), chamou atenção não apenas pela riqueza estética das danças, mas também pela história por trás do grupo. À frente da iniciativa está Ana Cláudia Azevedo, professora de Artes formada pela Unifap, pesquisadora das manifestações culturais amazônicas e entusiasta das identidades que compõem a região Norte. Movida pelo interesse em preservar e compartilhar elementos da cultura popular, ela ajudou a transformar uma atividade surgida entre amigas durante o período de isolamento social da pandemia em um coletivo que promove arte, integração e bem-estar. Em entrevista concedida após a apresentação, Ana Cláudia, com seus 51 anos, relembrou a criação da Roda de Saias Samaúmas, falou sobre a construção dos espetáculos inspirados na cultura amazônica e refletiu sobre a dança como ferramenta de pertencimento, felicidade e fortalecimento comunitário.
Você poderia falar sobre a sua trajetória e sobre como surgiu a Roda de Saias Samaúmas?
Ao longo da minha trajetória, eu tenho me envolvido de uma forma direta com atividades culturais, eu gosto, é uma coisa que me move de verdade. Sou uma amante da cultura do Norte, é das nossas identidades culturais, enfim.
O objetivo inicial do grupo foi para ocupar um pouco o nosso tempo, principalmente na pandemia. Durante a pandemia nós ficamos um pouco sem nos encontrar [...]. O grupo começou de uma brincadeira entre eu e uma outra professora amiga minha, e ao longo de um ano ele cresceu absurdamente, ganhou logo oito integrantes, e hoje nós somos 15 pessoas. E a mais jovem é a Mariana, que tem 19 anos, e eu acho que a mais velha sou eu, que tem 51, a maioria são mulheres mesmo, e mães que trabalham.
De que forma a dança contribui para o bem-estar e a qualidade de vida das integrantes da Roda de Saias Samaúmas?
Então, quando a gente fala da questão do bem-estar, dançamos justamente para manter a nossa qualidade de vida. Porque dançar nos deixa, embora cansadas, ofegantes e suadas, é o que nos deixa muito feliz no final de cada apresentação. A felicidade que a gente sente [...] não tem nem como comparar. Ficamos realmente muito felizes, saímos comentando sobre tudo, falando sobre tudo. Então, essa relação de bem-estar para nós hoje é essencial.
Manter a identidade, falar para as pessoas o quanto que a gente gosta da nossa cultura, embora a gente saiba que na identidade do Amapá, o forte é o marabaixo, que não deixamos de citar porque é parte do Norte, mas mesclar com tudo, com tudo aquilo que nós temos como referência nortista e levar para as pessoas, para dizer que dançar nos faz mais felizes, e é isso que importa.
Com que frequência vocês são chamadas para participar de eventos como esses?
A gente tem, por incrível que pareça, uma agenda. O mês de junho é o mês que a gente mais se apresenta. Por exemplo, hoje nós temos essa apresentação, nós nunca fizemos uma apresentação durante a semana, geralmente é nos finais de semana.
No final de semana nós já temos mais duas apresentações, então a gente vai nos lugares onde tem muitas pessoas, onde as pessoas gostam desse tipo de apresentação. Perto de outros grupos que a gente conhece, assim, acho que nós temos uma agenda bem agitada.
Embora a gente trabalhe, procuramos mesclar o nosso tempo para ensaios, apresentações e o tempo para a gente, que de vez em quando nos reunimos e fazemos uma brincadeira, fazemos happy hour só para nós, e buscamos sempre fazer com que isso aconteça com a maior frequência possível. Para podermos ir nos mantendo assim, muito bem conectadas umas com as outras.

Como é a recepção do público, das pessoas que normalmente veem as apresentações?
No início a gente ficou um pouco receosa porque não sabíamos como as pessoas iriam receber mulheres dançando. Só que foi muito positivo desde a nossa primeira apresentação. Nossa primeira apresentação no ano passado, por exemplo, nós fizemos três apresentações numa mesma noite, porque nós fomos solicitadas para dançar, e em todos os lugares que nós passamos, as pessoas realmente gostaram, participaram.
Geralmente a gente leva saias extras e as pessoas participam da roda com a gente – onde podemos levar -, dançam, experimentam, veem a indumentária, a saia, o rodar da saia, os enfeites de cabelo, tudo isso chama muito atenção.
Então vira uma relação não só de bem-estar de vocês, mas sim também de quem recebe as apresentações?
De quem recebe, exatamente, a gente sempre costuma dizer assim, a gente também quer que as pessoas sintam aquilo que a gente sente, que às vezes olham: "Nossa, que saia legal”, vamos, vem cá, coloca a saia aqui. Só da pessoa pôr a saia, ela já se sente feliz. Então é de costume interagir muito com as pessoas.
Como aqui [no evento na Unifap] é uma questão mais roteirizada, que ter uma dinâmica de tempo, a gente já faz um outro tipo de apresentação, que é essa, que faz a apresentação e vai embora. Mas a gente geralmente costuma interagir direto com o público, sem problema nenhum.
Como é que funciona essa concepção das danças e apresentações?
A gente geralmente busca contar uma história. No ano passado, nós fizemos uma apresentação falando um pouquinho do misticismo da floresta. O nosso nome, ele fala muito da questão da Samaúma, que ela é a representante, a rainha da floresta, o ponto de referência da floresta. Costumamos passar isso também para as pessoas, sabe?
Para que a gente consiga contar essa história cronologicamente, dentro daquilo que as pessoas culturalmente relacionadas ao nosso povo já conhecem. Então, a gente falou do Sacaca, falou do encanto do Lundu, do batuque, carimbó, e da música latina, que é uma referência nossa, uma mistura de culturas. Então, contamos essa história dentro da dança.
Como que a dança evolui? Que não é só dançar, é todo um contexto histórico que está por trás disso, até nós chegarmos no que é envolvente, no ritmo balançado, que é o colorido, que é animação, que é felicidade.
Já estamos sentando agora para o nosso terceiro projeto e a gente tá apresentando um, já tá pensando no outro. Estamos com uma ideia agora de fazer um festival de dança em Santana, se Deus quiser, somos todas de Santana. E se a gente conseguir fazer o festival, aí nós vamos poder trazer outros grupos para poder integrar dentro das nossas apresentações.
Você disse que o projeto surgiu no período de pandemia, mas a música já fazia parte da sua vida há muito mais tempo?
Sim, eu sempre gostei de dançar, dancei na escola, mesmo antes de ter formação acadêmica. Eu participava das atividades culturais da escola, gostava de dançar todos os ritmos. Mas assim, o ritmo do Norte, é muito mais marcante, pela questão da identidade mesmo que a gente vai se apegando. E a pandemia me trouxe uma possibilidade de criar, a possibilidade de pensar no que fazer. E depois que ela [pandemia] foi aliviando, as pessoas já para saíram, para aí começar a colocar as ideias que a gente tinha fechado ali entre quatro paredes.
Nossa primeira roda de saia foi no Balneário da Fazendinha, nós fizemos uma roda livre. Levamos as saias para lá e as pessoas foram dançar com a gente. Fizemos três noites lá, três terças-feiras de Macapá Verão. Na quarta noite que a gente ia, o pessoal já estava todo mundo querendo, choveu e não conseguimos ir. Fomos para as escolas, fomos para associações, para os centros comunitários e agora estamos aqui na Unifap.
Como você acha que essa formação na Unifap ajudou a construir essa visão artística?
O curso de Artes na época (em 2002, hoje Artes Visuais), foi a turma que estava passando pela transição, da saída do curso de educação artística, para artes visuais. Então foi meio experimental, fomos cobaia de algumas disciplinas para saber como que era o desempenho, o desenrolar, mas assim, foram experiências muito boas.
Os professores que nós tivemos foram professores muito capacitados, tivemos mestres maravilhosos de todas as áreas, das áreas de pesquisa, teatro, música, dança, de todas essas linguagens. Nós tivemos grandíssimos mestres. Mas assim, o que mais atrapalha a questão do desempenho da universidade pública são as paralisações. A gente começou em 2002, e terminou em 2007. No final de 2007 passamos ali por umas duas ou três paralisações, e aí vem toda a questão da pós formação. Mas é a Universidade Federal, ela ainda é o melhor, a primeira e a melhor opção, a nível de formação superior.
E estar aqui novamente na Unifap, agora com o grupo se apresentando em um evento da universidade, tem algum significado especial para você?
Com certeza, eu agradeço muito a oportunidade, para mim é uma satisfação muito grande estar aqui de volta. Eu não me lembro a última vez que eu entrei nesse auditório. Foi aqui que eu fiz a minha formatura, que eu recebi meu certificado. Então esse espaço aqui, os corredores, a minha foto está num dos corredores de artes visuais, e para mim isso é minha história, né? Parte da minha história, então é muito bom estar voltando aqui para casa.
*Entrevista produzida na disciplina de Comunicação e Sociabilidade, ministrada pela professora Dra. Roberta Scheibe.




Comentários