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“Estou sempre saindo da minha zona de conforto”, conta estudante que acumula experiências dentro e fora da universidade

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  • há 2 dias
  • 8 min de leitura

Universitária relata como a organização e hobbies contribuem na sua trajetória e no seu bem-estar


Por Eloí Beatriz Fonseca*

No laboratório precisa sempre estar atenta para sua pesquisa. Foto: Eloí Beatriz Fonseca.
No laboratório precisa sempre estar atenta para sua pesquisa. Foto: Eloí Beatriz Fonseca.

Pesquisadora, sous-chef (subchefe na cozinha) e pet sitter (babá de animais), Dara Aline Pereira Lacerda, de 26 anos, é estudante de Engenharia de Pesca na Universidade do Estado do Amapá (Ueap), atua em pesquisas sobre a biodiversidade de peixes na costa amapaense e já participou de um intercâmbio acadêmico em Portugal. Participou como representante da Ueap no evento Conferência dos Oceanos da ONU (Organização das Nações Unidas) e foi convidada para participar do documentário Pororocas, que retratou sobre o que é ser mulher dentro da pesquisa. Tem duas gatas chamadas Yuta e Botan e 12 tatuagens, a maioria de animais marinhos, é uma pessoa calma e mais introspectiva. Seu livro favorito é Planta de Ferro, do George Orwell, foi o primeiro livro que leu na Pandemia do Covid- 19 em 2020, em um momento de caos, ela relata que criou muito apego por ele. Possui como metas focar na saúde mental e após se formar pretende iniciar o mestrado. Dara encontra nos hobbies como a leitura, puzzles (quebra-cabeças), sudoku e na cerâmica, formas de cuidar da saúde mental e equilibrar a rotina.


Para começar, você já fez várias coisas, dentre o intercâmbio para Portugal, ser pet sitter, trabalhou como sous chef,  participou de um evento da ONU. Como você consegue conciliar tudo? 

Eu tento manter de forma bem organizada, tenho diversos cadernos e agendas para conseguir organizar meus horários. Sempre sento um dia antes para verificar as coisas que tenho no dia seguinte e as atividades que considero como prioridade. Foi a forma que eu consegui me organizar, também tenho outras atividades, faço parte do grupo de pesquisa da Embrapa, tenho dois grupos de pesquisa da Ueap, então sempre estamos trabalhando para desenvolver outras atividades para além dessas. 


Dentre tantas atividades já realizadas, você se consideraria uma pessoa aventureira? 

Mais ou menos. Tem que ser, né? Porque eu faço muita coisa. Para mim são aventuras, estou sempre saindo da minha zona de conforto. Ainda mais que me sinto uma pessoa muito ansiosa, então quando a gente se coloca em atividades novas sempre é desafiador, então para mim eu estou sendo aventureira. 


Como foi sua experiência no evento da ONU?

Foi a primeira vez que eu apresentei o trabalho em outra língua, o inglês, e a primeira vez que falei com tantas pessoas de nacionalidades diferentes. Foi muito legal, desafiador, mas muito estranho, eu estava completamente fora da minha zona de conforto, porém muito bacana ter uma troca tão interessante e ver perspectivas tão diferentes sobre o mesmo assunto. Então acho que dentro das minhas fases aventureiras, eu acho que essa foi a maior. 


De que maneira os seus estudos contribuem para a preservação ambiental na costa amapaense? 

Estamos na primeira fase de descrição das espécies que temos na costa. A gente só consegue preservar e cuidar daquilo que a gente conhece. Os dados podem auxiliar na criação de políticas públicas para preservar tanto essas espécies, quanto esses locais. Por exemplo, fiz a coleta na área do Goiabal, uma área de berçário, então é importante ter um local de preservação para garantir que as espécies consigam se desenvolver e também para as pessoas que utilizam disso como fonte de renda consigam trabalhar de forma mais equilibrada, mantendo tanto o ambiente seguro, quanto eles conseguindo o seu dinheiro, conseguindo se alimentar.


De que forma o intercâmbio influenciou no seu bem-estar e na sua saúde mental? 

Percebi em Portugal o quão bom é estarmos em um local que ninguém nos conhece.,Às vezes a gente se sente um pouco pressionado quando há muitas pessoas em nossa volta que conhecemos, por sentirmos certas expectativas sobre nós. Então, eu me senti muito livre por estar cercada de pessoas que não me conheciam. Consegui fazer as coisas sem pensar tanto. Isso foi muito produtivo dentro da pesquisa que eu estava realizando. Estava completamente fora da minha zona de conforto, trabalhando com espécies e materiais que eu não conhecia, falando uma língua que eu não conhecia e apesar de ser em Portugal, só me comuniquei em inglês. Eu tive certa liberdade por esse lado e eu estava muito distante de tudo que era a minha zona de conforto, longe do meu namorado, da minha casa, da minha família, dos meus gatos, então eu tive que tentar me segurar em algumas coisas.


Eu me prendi muito na minha religião, quando estava lá. Também me prendi muito em diversas atividades, comecei a correr, a me alimentar melhor, porque eu vi que estava precisando me cuidar melhor. Foi um momento muito importante para minha saúde. Tive contato com comida de qualidade, coisas que aqui em Macapá são um pouco mais caras. Consegui desenvolver um pouco meu espiritual lá também. 


Busca por resultados exige uma rotina por vezes cansativa, mas que contribui para que consiga alcançar bons resultados acadêmicos. Foto: Eloí Beatriz Fonseca.
Busca por resultados exige uma rotina por vezes cansativa, mas que contribui para que consiga alcançar bons resultados acadêmicos. Foto: Eloí Beatriz Fonseca.

Conta um pouco mais sobre sua espiritualidade. 

Eu adentrei no catolicismo atualmente. Em Portugal, eles têm uma comunidade bem acolhedora na igreja, entrei em contato com eles lá dentro da universidade e conheci uma pessoa que me levou para igreja de Monte Negro, que era perto de onde eu morava. Como eu estava passando por um momento de muitas mudanças enquanto estava lá, eles me ajudaram muito a passar por esse processo. E eu me segurei nisso, naquela comunidade. Foi muito bacana para mim, me desenvolvi bastante espiritualmente. Conheci mais da religião e me encontrei um pouco mais nesse período.


Você sentiu um certo preconceito dos portugueses por você ser brasileira?

Não, eu acho que não, mas acredito que pela minha aparência. Eu sou uma pessoa branca, loira, de olhos claros. Mas eu fui com uma outra colega, uma mulher negra, baixa e ela sofreu bastante preconceito. Então acho que eu só tive esse benefício por conta de eu ser quem eu sou, mas claro, quando a gente abre a boca e eles veem que somos brasileiros, a gente sente um pouco, mas não foi nada muito difícil.


Em Macapá, aconteceu algo em que você se sentiu desafiada enquanto pesquisadora? 

Eu trabalho muito nos interiores e com pescadores às vezes. Então a gente já passou por diversas situações de assédio, que são extremamente estressantes. O meu curso é quase todo composto por mulheres. Aprendemos a lidar com esse tipo de situação, nunca vamos sozinhas, sempre vamos com um homem acompanhando para conseguir lidar com essas situações que são quase de praxe, principalmente quando estamos aplicando o formulário para pescadores.


Por que você escolheu cursar engenharia de pesca?

Na verdade, eu queria fazer jornalismo, acredita? Só que eu tive uma influência dentro da minha casa, a minha irmã era formada em engenharia de pesca. Tínhamos esse plano de trabalhar juntas, criar a nossa própria empresa. Hoje minha irmã não está mais viva, mas eu continuo com esse sonho. E foi uma coisa que foi crescendo dentro de mim dentro do curso. E eu continuei e acabei me apaixonando.


Em quem você se inspira fora do âmbito profissional?

Me espelho muito na minha sogra. Ela é uma pessoa que já passou por muitas adversidades e consegue lidar com essas coisas sorrindo e eu fico impressionada. Eu tento lidar com as minhas adversidades dessa forma também, mas é muito difícil para mim, imagino também que seja para ela, mas mesmo assim ela consegue levar. Eu acho isso admirável.


A estudante também gosta de ler nas horas vagas. Foto: Eloí Beatriz Fonseca.
A estudante também gosta de ler nas horas vagas. Foto: Eloí Beatriz Fonseca.

Quais estratégias você usou como válvula de escape lá em Portugal e continua fazendo em Macapá?

Eu fortifiquei a minha leitura enquanto estava lá. Como passei por alguns momentos de estresse máximo, tentando lidar com as mudanças, eu acabei jogando muito no meu celular como escape e eu queria sair disso. Eu comecei a ler mais e isso me ajudou bastante a ficar mais calma, a ficar mais centrada, me manter de início meio e fim dentro do meu objetivo que era ler pelo menos 10 páginas por dia e eu consegui executar, isso me ajudou bastante. Parece pouca coisa, mas me ajudou muito. 


Quais atividades fora da universidade você faz para se divertir, além da leitura? 

Eu acabei me segurando muito em atividades manuais. Tenho uma tendência a vício em redes sociais, celular e tudo mais, então prefiro ficar um pouco longe. Também porque eu trabalho a maior parte no computador, no celular, então eu sei que meu momento de descanso tem que ser longe disso. Comecei a fazer as minhas agendas, eu gosto de fazer sudoko, de fazer puzzles no geral e eu me divirto muito. Já participei de competição, mas hoje em dia eu gosto disso só como um hobby mesmo. São coisas que eu me apeguei, sabe? Porque dentro da minha área a gente tenta não errar o máximo possível. Então, nos meus hobbies manuais eu gosto de fazer coisas feinhas e tortinhas, sem obrigação de fazer uma coisa perfeita, eu acho que é um alívio para mim. Não são perfeitos, mas para mim são perfeitos desse jeito. É bom fazer as coisas sem a obrigatoriedade de ser perfeito. E eu me divirto fazendo isso. 


Sobre a culinária, você trabalhou como sous-chef. Considera que cozinhar é uma atividade relaxante?

Sim, eu gosto bastante de cozinhar, inclusive durante a pandemia acho que foi um dos poucos momentos que eu fiquei em casa e consegui fazer as minhas coisinhas. E eu cozinhava bastante, é muito bacana. Acho que assim como essas atividades, realmente cozinhar é uma coisa muito relaxante para mim, porque é como um jogo de enigmas, tentar descobrir o que é que vai ficar melhor e a gente vai provando. É bem bacana, eu gosto. 


O que você desenvolve atualmente na Ueap?

Estou no processo de publicação do estudo de biodiversidade e agora estou trabalhando especificamente no Vozes da Juventude, trazendo  debates em relação a mudanças climáticas para alunos de todo o estado. Realizamos um debate mais lúdico, porque são adolescentes, e foi uma coisa vinda deles, que pediram para comentarmos mais sobre o assunto, principalmente alguns alunos da APA da Fazendinha, eles observaram diversas mudanças na realidade deles, já que são ribeirinhos majoritariamente, então eles viram e assimilaram com as mudanças climáticas. São pessoas muito interessadas dentro desse assunto.


Para você, o que sua família significa? 

A minha família é uma montanha russa, mas no geral somos acolhedores um com os outros. Somos pessoas um pouco problemáticas, mas a gente sabe, reconhece isso e nos acolhemos nos nossos erros. 


Dara se diverte fazendo cerâmica por não precisar se preocupar em errar. Foto: Eloí Beatriz Fonseca.
Dara se diverte fazendo cerâmica por não precisar se preocupar em errar. Foto: Eloí Beatriz Fonseca.

Há mais alguma atividade que faça você relaxar? 

Eu gosto de ir para o interior. Eu sou do interior do Amapá. Então, eu gosto de voltar para lá e me reconectar, recarregar minhas energias no lugar de onde eu vim. Gosto de ficar lá com meus pais, ficar ouvindo o barulho dos pássaros, não tem quase nada ao redor de onde a gente mora. Então, sempre que sobra tempo aqui eu corro para lá.


É por isso que você gosta muito dos seus hobbies? 

Eu gosto muito deles e eu não quero jamais trabalhar com isso financeiramente porque eu sinto que eu vou deixar de amar, tanto quanto eu amo agora. O meu tio, por exemplo, ele é arquiteto e sempre amou desenhar, depois que começou a trabalhar, deixou de fazer isso, porque virou um trabalho. Então, eu gosto de separar bastante meu trabalho das coisas que eu gosto de fazer. Eu tenho medo de perder essa magia. 


Qual a melhor coisa que a ciência já lhe proporcionou?

Conhecer culturas diferentes, pessoas diferentes. Eu já viajei bastante pelo Brasil e fora do Brasil, conheci outros países através da ciência e da educação, tudo através da Ueap. Fora isso, eu não sei sobre que circunstâncias eu conseguiria realizar nem metade disso tudo.


*Entrevista produzida na disciplina de Comunicação e Sociabilidade, ministrada pela professora Dra. Roberta Scheibe.

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