• AGCom

Merlane Tiriyó fala com a AgCom

Atualizado: 18 de mai. de 2021


Foto: Arquivo Pessoal Merlane Tiriyó

Dia 19 de abril é a data no calendário brasileiro para lembrarmos nossa ancestralidade indígena, reconhecer suas representações e difundir sobre a realidade das aldeias, das lutas políticas, dos conflitos por demarcação de terras e da existência das etnias que sobrevivem desde 1500 ao genocídio e ao etnocentrismo da Colonização. São povos dos quais se tirou o direito à vida e aos seus modos de vida, sua cultura e até mesmo sua língua. A resistência indígena é a mais antiga no Brasil e vive até hoje lutando para ocupar território. Reconhecer, aceitar, cuidar, lembrar, fazer existir, dar direito à vida, às terras, aos rios é luta diária das comunidades indígenas e deve também ser da sociedade brasileira. Não só hoje, mas continuamente, é uma pauta fundamental para a AgCom.


Hoje, entrevistamos Merlane Tiriyó, mulher indígena, ativista, em Macapá, pela visibilidade de seu povo e das mulheres indígenas, unida na diversidade do feminino, onde encontrou uma família.

 

AgCom: Olá Merlane, boa tarde. Primeiramente, gostaria de agradecer por sua segunda participação no nosso Portal. Então, como você conta a sua história e sua identidade indígena?


Merlane Tiriyó: Boa tarde! Bom, eu nasci na aldeia Tiriyó e aos 5 anos meus pais me mandaram morar com meus tios em Macapá para estudar e, futuramente, voltar para ajudar meu povo. Então, atualmente estou cursando Direito e Técnica em Enfermagem, mas com a pandemia precisei trancar. A minha identidade indígena está no sangue, desde quando vim para a cidade sempre me identifiquei como tal, nunca deixei de fazer o que eu acredito na minha cultura, meus tios nos ensinaram muita coisa, principalmente a nossa língua nativa. É algo muito importante até hoje, quando estamos em família sempre falamos nossa língua, mas, aos 15 anos meu tio me expulsou de casa por achar que a militância não era coisa pra mulher e por não ter retorno financeiro. Então, uma senhora que conheci nos movimentos me acolheu, mas os parentes dela também não me aceitavam. Daí em diante, eu tive que me virar sozinha. Felizmente, sempre tive o apoio da minha mãe, mesmo de longe. Às vezes, fica difícil e quero desistir, já passei por muitos perrengues, mas graças a isso penso na minha trajetória e vejo que aprendi coisas que me fortaleceram.


AgCom: Na sua experiência como mulher e indígena, que cresceu em aldeia e hoje vive na cidade, quais são as diferenças para o papel feminino na comunidade indígena e nas sociedades urbanas?


Merlane Tiriyó: Já tive muitas experiências ruins como mulher, tanto com parentes e com não indígenas também. Eu já sofri abuso sexual, e isso fez com que eu me encontrasse no movimento feminista. Consegui transformar o sofrimento em uma coisa boa. Não posso falar por todos os indígenas, pois cada comunidade tem seus próprios costumes. Em relação ao Tiriyó, as mulheres lutam por suas terras, são esposas e mães, acabam ficando por lá, porém, as mais jovens estão tendo uma visão diferente, menos machista, assim como eu, e acabamos sofrendo por discordar deles, principalmente os mais velhos. Já na cidade, na maioria das vezes, as mulheres vêm para estudar, mesmo com dificuldade vem adquirir conhecimento e posteriormente levar de volta para ajudar seu povo.


AgCom: Em 2019, você concedeu uma entrevista para a AgCom. Na ocasião, você realizou uma performance na Praça Floriano Peixoto em homenagem à memória das Mulheres Indígenas. Como você considera sua ação? Você é uma ativista do movimento feminista e indígena? Ou você é uma artista criando memória e acontecimento social em prol da comunidade indígena?


Merlane Tiriyó: No evento, me apresentei como ativista, mas misturei um pouco de cada coisa. No decorrer da minha vivência, tive que aprender a transformar preconceitos indígenas a meu favor, então usei o dia 5 de Setembro de 2019 - dia Internacional das Mulheres Indígenas, que muitas vezes passa batido - para homenagear não só as mulheres da minha região, mas todas. As pessoas desconhecem o papel da mulher nas aldeias, muitas morrem defendendo seus territórios, enfrentam certas violência nas aldeias, que são dadas como culturais e “normais”. Sei por experiência própria, essas mulheres merecem visibilidade, às vezes, em eventos sociais de mulheres, as indígenas não são convidadas e isso precisa ser falado, então naquele dia quis dar voz a essas mulheres.


AgCom: Você citou que faz Direito e Técnica em enfermagem, então como foi o processo de ingressar na escola e universidade? Houve muita dificuldade por conta do preconceito?


Merlane Tiriyó: Preconceito eu vivi desde que comecei a estudar, quando criança. Eu não sabia falar muito bem ainda, então me excluíam, me apelidavam de “piolhenta”. Lembro um dia marcante em que tinha que fazer uma atividade em dupla e ela fez a atividade errada de propósito e me culpou para que eu ficasse de castigo, já que na época não podia falar para me defender. Já na faculdade, aprendi a não ligar tanto, quero sempre mostrar meu melhor, tenho orgulho de quem eu sou, então quando algo mexe comigo, respondo na hora, não baixo a cabeça. Recordo de um professor que foi dar aula para uma turma de indígenas, ele falava como se fosse uma máquina, como se não entendêssemos, me incomodava muito, mas com o passar do tempo ele percebeu que nós entendíamos e conseguíamos aprender normalmente, como qualquer outra pessoa. Quando comecei a trabalhar, não me identifiquei como indígena de primeira, quando citei minha origem, notei que me excluíam, me sentia um peixe fora d’água.


AgCom: Como você, mulher indígena, se sente em relação aos assédios masculinos em relação à sua identidade étnica. Já ocorreu com você?


Merlane Tiriyó: Já passei por isso, mas sempre recusei. Já aconteceu várias vezes de homens falarem que queriam ficar comigo por ser indígena, abriram a boca pra falar “queria ter uma experiência com você, com uma índia, exótica”, ouvir isso é muito ruim. Eles nos veem como seres exóticos, você se sente como um objeto.


AgCom: Como você pensa na data 19 de abril referida como feriado nacional Dia do Índio?


Merlane Tiriyó: Acho que é uma data que tem realmente importância sim. O indígena ser lembrado, homenageado, ter visibilidade, receber parabéns. Entretanto, passa o resto do ano todo não respeitando a cultura indígena, te evitando, fazendo atos racistas, devemos ser respeitados todos os dias. Por exemplo, o cocar, os artefatos indígenas, eu não vejo problema em não indígenas usarem no cotidiano, a problemática é que usam como fantasia para fazer piada, não como uma vestimenta, é desrespeitoso. Falam muito sobre nós usarmos celulares e outras tecnologias, que não é da nossa origem, mas nós precisamos usar no dia-a-dia para nos comunicar, a nossa vestimenta não.


AgCom: Para finalizar, como estão seus planos para o futuro em relação ao ativismo indígena e feminista?


Merlane Tiriyó: Tenho alguns projetos, mas ainda estão em andamento, não posso comentar ainda. Tem um para sair em junho do ano que vem, espero que gostem, se Deus quiser, vai ser uma realização de um sonho! Também pretendo finalizar meu curso de Direito. Eu gosto muito, mas online não consigo focar tanto. Atualmente, faço parte da Articulação das Mulheres do Amapá (AMA), que faz parte da Articulação das Mulheres Brasileiras (AMB). Nós realizamos oficinas, palestras e rodas de conversas com diversas mulheres; além das indígenas, mulheres de periferias, ribeirinhas, quilombolas, negras, entre outras. Isso que é importante, a diversidade, eu levanto muito essa bandeira, me encontrei lá e se tornou uma família.


0 comentário