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O octógono nunca foi a luta mais difícil de Cibely Gama

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AGCom
há 2 horas
6 min de leitura

Atleta profissional da categoria peso-galo e campeã no boxe, a amapaense concilia maternidade solo, estudos e treinos enquanto enfrenta o preconceito e a falta de estrutura.


Maria Cândida Ferreira*


Cibely encontrou nas artes marciais o caminho para realização de um sonho. Foto: Arquivo pessoal.
Cibely encontrou nas artes marciais o caminho para realização de um sonho. Foto: Arquivo pessoal.

Antes de vestir as luvas, Cibely Gama prepara o filho Arthur para a escola, organiza a rotina da casa e segue para o curso técnico de enfermagem. O treino só começa depois. No octógono, é conhecida como "Cyborg". Fora dele, enfrenta adversários que não aparecem nas estatísticas: a maternidade solo, a dificuldade de conciliar diferentes jornadas e o preconceito contra mulheres nos esportes de combate.


Moradora de Santana, a cerca de 22 quilômetros de Macapá, Cibely representa uma realidade vivida por muitas mulheres nos esportes de combate. Enquanto se prepara para novas lutas, também divide o tempo entre a criação do filho, os estudos e a busca por estabilidade financeira. Em modalidades ainda marcadas pela desigualdade de gênero e pela escassez de incentivos, permanecer competindo pode ser um desafio tão grande quanto vencer dentro do ringue.


Os resultados ajudam a explicar por que a atleta de 24 anos se tornou uma das principais referências do MMA (Artes Marciais Mistas) feminino no Amapá. Atleta profissional da categoria peso-galo (61 kg), venceu Maria Meireles por decisão unânime na primeira participação no Guerrero Fight Championship Amapá (GFC). Ela também participou do retorno dos grandes eventos da modalidade em Santana e conquistou cinturões de boxe promovidos pela Federação de Boxe Olímpico e Profissional do Amapá, além de se destacar na Copa Tucuju de Boxe.


“Era o meu sonho. Eu me via como lutadora e falava ‘um dia eu quero estar no stage (palco)’. Via as meninas lutando e me via nelas, e pensava: quero me espelhar nisso, é isso que eu quero pra mim”, relata a atleta.


A trajetória de Cibelly nas artes marciais começou em 2019, com o Karatê. Pouco tempo depois, migrou para o boxe e o Muay Thai até encontrar no MMA a modalidade em que decidiu construir carreira. O apelido "Cyborg", inspirado na brasileira Cris Cyborg, surgiu nesse período e passou a acompanhá-la nas competições.


Em 2020, a gravidez interrompeu temporariamente os planos de competir. Depois do nascimento de Arthur, retomou os treinos e voltou ao circuito competitivo. A estreia no MMA exigiu preparo físico e equilíbrio emocional diante de uma adversária mais experiente, mas a vitória reforçou a confiança para seguir na modalidade.


Desde então, acumulou títulos no boxe e consolidou seu nome entre as principais atletas do MMA amapaense. Sua conquista mais recente foi no Guerrero Fight Championship Amapá (GFC), em maio de 2026, onde superou a lutadora macapaense Aline Pitbull.


O confronto exigiu que Cibely perdesse quase 10 kg em tempo recorde. Foto: Arquivo GFC.
O confronto exigiu que Cibely perdesse quase 10 kg em tempo recorde. Foto: Arquivo GFC.

Luta por espaço e reconhecimento


Antes mesmo de enfrentar as adversárias dentro do octógono, Cibely precisou lidar com outro tipo de combate: o preconceito contra mulheres que escolhem esportes de contato. Desde o início da carreira, ouviu comentários de que a prática poderia comprometer sua feminilidade.


As críticas não partiram apenas de desconhecidos. Familiares também questionaram a escolha pela carreira esportiva, com o argumento de que o esporte não ofereceria estabilidade financeira e que as derrotas seriam inevitáveis. Em diferentes momentos, também precisou enfrentar dúvidas sobre sua capacidade de competir por ser mãe. "Já passei por muito julgamento. Diziam que isso era coisa de homem, que mulher não tinha que fazer esse tipo de esporte", destaca.


Entretanto, a atleta não está sozinha nessa. O cenário vem apresentando mudanças graduais e segundo o estudo Women and Sports 2026, da IBOPE Repucom, mostra que o interesse das mulheres pelo esporte cresceu 25% desde 2020 no Brasil e que a maior presença de atletas femininas nas competições tem ampliado a identificação do público com diferentes modalidades. A pesquisa também destaca que a representatividade feminina influencia diretamente o consumo esportivo e incentiva novas gerações a acompanhar e praticar esportes que, durante muito tempo, foram vistos como ambientes predominantemente masculinos.



Maternidade e desafios


Sem uma rede de apoio familiar permanente, ela precisou reorganizar sua vida para manter a carreira ativa.  A rotina de santanense ilustra o "pênalti da maternidade", conceito proposto na Sociologia pelas pesquisadoras Michelle Budig e Paula England para descrever os impactos da maternidade na trajetória profissional das mulheres. Cibelly sente os efeitos desse fenômeno social na pele.


Pesquisas da PUC-Rio e do Banco Mundial  também indicam que mães enfrentam maiores dificuldades de inserção e permanência no mercado de trabalho, além de uma redução de renda em comparação com mulheres sem filhos. No esporte, esses obstáculos são potencializados por lesões, interrupções na carreira durante a gestação, perda de patrocínios e a ausência de suporte institucional, levando muitas atletas a abandonar suas modalidades.


A lutadora está desempregada e depende financeiramente do recebimento de bolsas, parcerias, e eventuais premiações. Mesmo diante dessas dificuldades, ela evita tratar sua história como exemplo de superação individual. Para ela, seguir treinando é uma necessidade e, ao mesmo tempo, uma forma de construir um futuro melhor para Arthur."Ele é quem mais me incentiva. Quando fala que eu vou conseguir ganhar, parece que eu ganho mais força para continuar", relata.


Adilailson trocou as luvas de goleiro pelas do boxe tailandês e hoje atua como o principal mentor de Cibely . Foto: Maria Cândida..
Adilailson trocou as luvas de goleiro pelas do boxe tailandês e hoje atua como o principal mentor de Cibely . Foto: Maria Cândida..

Rede de apoio


Se a família nem sempre pôde oferecer apoio constante, a academia se tornou um refúgio e uma fonte de suporte. O mestre Adilailson Souza, conhecido como AdilThai, tornou-se uma referência fundamental. Ele acompanhou a evolução da pupila desde o Karatê e testemunhou suas dificuldades após a maternidade. Além de estratégias de luta, o mestre compreendeu as demandas da rotina de uma atleta mãe.


"Eu falei para ela antes da luta que ela venceu contra a Aline: ‘Eu confio em ti. Agora tu precisa acreditar em ti também. O teu maior adversário é você mesma’ e deu no que deu", recorda.


O incentivo do mestre foi crucial em momentos de desânimo. Segundo AdilThai, a disciplina e a persistência sempre diferenciaram Cibely, mesmo diante de limitações financeiras e dificuldades de acesso a competições maiores. A relação entre treinador e atleta se estendeu a Arthur, que participa de atividades infantis na academia ou permanece perto da mãe, e torna o espaço esportivo uma extensão da família.


“A gente entende que ela tem que estar aqui para treinar e não tem com quem deixar, então a gente acolhe ele. Quando dá, ele vai lá para o kids também, pois nós temos uma turma kids e ele vem treinar com a gente. Sempre é bem acolhido. É claro que as crianças acolhidas têm uma maneira de criar disciplina não só para a vida pessoal, mas respeito, empatia, se colocar no lugar do outro”, explica AdilThai.


Cibely relembra que estava enfrentando problemas pessoais durante o confronto mais recente  e conseguiu se manter centrada graças ao apoio do treinador. “Nessa minha última luta com a Aline, eu estava passando por umas coisas, mas eu fiquei tranquila porque meu mestre conversou comigo. Falou para eu me espelhar em Deus e acreditar. Ele me motivou muito, e falou que não era para eu desistir. Meu mestre é a minha base, é como um ‘paizão’ para mim”, destacou com carinho.


O mestre também lidera o projeto social Mudando Vidas em Santana, que atende crianças e adolescentes de 6 a 16 anos e utiliza as artes marciais para inclusão social, e reforça como o esporte pode transformar vidas.


Dentro da academia, também há outras meninas com o sonho e carreira em construção, como é o caso de Milena, de 14 anos, que já possui duas vitórias no Kickboxing por nocaute, competindo na categoria de 52 a 54 kg. “São mulheres que chegaram aqui e estão conquistando seu espaço. Histórias não vão faltar para contar”, destaca o mestre.


Assim como Cibely, outras atletas meninas veem em AdilThai a figura de apoio de que precisam. Foto: Maria Cândida Ferreira.
Assim como Cibely, outras atletas meninas veem em AdilThai a figura de apoio de que precisam. Foto: Maria Cândida Ferreira.

Motivação que acompanha cada luta


Arthur é uma presença constante na trajetória de Cibely. Desde pequeno, ele frequenta academias, acompanha treinos e celebra as vitórias da mãe, crescendo em um ambiente onde disciplina, esforço e dedicação são parte do cotidiano. "Ele fala: 'Mamãe, tu vai ganhar, tu consegue'. Isso me fortalece. Às vezes, quando estou cansada, lembro do que ele me diz e continuo", conta.


Para ela, o filho nunca foi um obstáculo e sim a principal motivação para competir. Cada treino, viagem e luta tem o objetivo de oferecer melhores oportunidades para a criança. Essa motivação influenciou decisões importantes, como recusar propostas para treinar fora do Brasil, tendo de optar por permanecer no Amapá para não se afastar do filho durante seu crescimento. Essa escolha reflete um dilema comum a muitas atletas de alto rendimento, no qual as oportunidades profissionais frequentemente exigem mudanças geográficas, mas a responsabilidade pelos filhos recai majoritariamente sobre as mães.


Cibely não se arrepende de suas escolhas, e acredita que construir a carreira ao lado do filho tem um significado maior do que qualquer título. "Quero que ele cresça sabendo que nunca desisti dos meus sonhos. Se ele acreditar nisso, já vou ter conquistado muita coisa", declara.


Mesmo sem a estrutura disponível nos grandes centros esportivos, a atleta segue treinando com o objetivo de disputar competições nacionais e internacionais. Cada resultado alcançado representa não apenas uma conquista individual, mas também a possibilidade de inspirar outras mulheres que enfrentam obstáculos semelhantes. Sua principal mensagem permanece simples.


"Não desistam. Nós somos capazes de conquistar os nossos sonhos, mesmo quando muita gente diz que não vai dar certo", conclui.


O pequeno Arthur já cresce vendo as lutas e batalhas diárias da mãe de perto. Fotos: Maria Cândida Ferreira.
O pequeno Arthur já cresce vendo as lutas e batalhas diárias da mãe de perto. Fotos: Maria Cândida Ferreira.

*Reportagem produzida na disciplina de Jornalismo Esportivo, ministrada pelo professor Dr. Alan Milhomem.

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