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Paradesporto: Em meio a desafios, atletas buscam maneiras de continuar no esporte

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AGCom
há 3 horas
8 min de leitura

Por Emilly Almeida e Eduardo Oliveira*


Paratletas amapaenses Joana Brilhante, Leylianne Santos e Wanna Brito. Fotos: Arquivo pessoal.
Paratletas amapaenses Joana Brilhante, Leylianne Santos e Wanna Brito. Fotos: Arquivo pessoal.

O Amapá abriga uma população de aproximadamente 50 mil pessoas com deficiência (PCDs), esse número representa cerca de 7,1% da população, segundo dados do censo do Instituto Nacional de Geografia e Estatística (IBGE) . Por trás dos números, existe um grupo que visa transformar sua realidade por meio do esporte. Porém, para muitos paratletas de Macapá, a competição vai muito além do desporto: ela acontece diariamente em busca de visibilidade, infraestrutura e apoio financeiro.


As paratletas Wanna Brito, Leylianne Santos e Joana Brilhante conhecem bem a realidade da capital amapaense. Mesmo praticando modalidades distintas, as esportistas compartilham trajetórias que evidenciam problemas recorrentes enfrentados por atletas com deficiência.


A rotina de um atleta de alto rendimento é guiada por horas de treino, repetições, dieta e o objetivo de alcançar os melhores resultados. No entanto, essa realidade é diferente para muitos que praticam o paradesporto em Macapá, tendo que conciliar os treinos com a vida pessoal, e com as dificuldades trazidas pela deficiência.


IMPACTO NO RENDIMENTO


A falta de uma estrutura ideal não gera apenas desconforto, mas também dificulta a evolução técnica dos atletas. Sem os equipamentos específicos para cada modalidade, os amapaenses enfrentam um grande obstáculo: alto risco de lesões e a perda de competitividade em relação aos esportistas de outros estados.


Em grande parte, os equipamentos em locais públicos e privados não foram pensados para receber esses atletas, o que no esporte de alto rendimento nem sempre é suficiente. Segundo a professora de educação física e técnica de paradesporto, Carina Reis, o déficit na infraestrutura são fatores que prejudicam os atletas e muitas vezes impedem que eles obtenham melhores resultados.


“A nossa estrutura física, o espaço dos nossos ginásios não são dos mais adequados do mundo. [...] Alguns problemas estruturais, eles acabam comprometendo um pouco ali, como iluminação, como as marcações inadequadas, como alguns buracos no ginásio, problemas nas tabelas do basquete, nos postes do vôlei e nas traves do futsal”, conta.

Outro desafio apontado é a falta de instalações planejadas de forma inclusiva para atender certas especificidades. Cristina Baddini, professora do colegiado de Engenharia Civil da Universidade Federal do Amapá (Unifap), explica que, por mais que existam alguns espaços adaptados na cidade, eles não são suficientes para suprir as necessidades da população.


“O principal desafio de Macapá não é apenas a ausência de infraestrutura acessível, mas a falta de continuidade dessa infraestrutura. Em muitos trechos existem intervenções pontuais, porém elas não formam uma rede de deslocamento segura e contínua para pessoas com deficiência. A acessibilidade precisa ser pensada como um sistema integrado, conectando moradia, transporte público, escolas, unidades de saúde, equipamentos esportivos e espaços de lazer", afirma Baddini.


WANNA BRITO

Paratleta Wanna Brito. Foto: Alessandra Cabral /CPB.
Paratleta Wanna Brito. Foto: Alessandra Cabral /CPB.

Wanna Brito é um dos nomes mais famosos do paratletismo mundial e sua trajetória começou em Macapá. Além da prata conquistada no arremesso de peso nos Jogos Paralímpicos de Paris 2024, a atleta amapaense diagnosticada com paralisia cerebral, conta com mais de 100 medalhas em seu acervo pessoal. Ela compete em provas de arremesso de peso e clube, classe F32.


Começou no esporte em 2018 praticando natação e, em 2019, migrou para o atletismo por incentivo de sua então professora de nado, que imaginava que ela evoluiria melhor na nova modalidade. De fato, Wanna obteve resultados positivos logo em sua primeira competição, a etapa Norte e Nordeste do Circuito Loterias Caixa, e levou para casa uma medalha de ouro e duas de prata.


Com a pandemia do Covid-19, veio a primeira grande dificuldade: os treinos foram suspensos sem previsão de retorno, mas a vontade de competir falava mais alto que qualquer empecilho. “Acho que ficou quase um ano parado, mas eu gostei daquilo ali. Aquilo ali me distraiu mais que a natação. Aí comecei a me esforçar mais ainda. Quando a gente voltou, no final de 2020, já voltou com outra pegada. Aí falei assim: eu quero isso também, preciso me dedicar mais ainda”, relata Wanna.


O retorno aos treinos não foi fácil. Ela treinou em diferentes lugares tentando encontrar um que melhor atendesse suas necessidades. “Já treinei no IFAP, na UEAP, no Estádio Zerão, na Unifap, tudo quanto é lugar público eu já treinei. Até na pracinha do Jardim”, conta.


Um dos episódios mais revoltantes vivenciado por ela aconteceu quando Wanna ainda treinava na Universidade Estadual do Amapá (UEAP). Como nas dependências da universidade não há um campo que ela pudesse utilizar, todos os treinos tinham que ser adaptados para o ambiente interno. Buscando melhores condições, a equipe da atleta resolveu ir até o Estádio Zerão para que ela pudesse praticar ao ar livre.


No entanto, ao chegar no local, foram agressivamente recebidos por um funcionário, que insistiu diversas vezes que eles se retirassem e só liberou o espaço mediante insistência da equipe. Mesmo com a liberação, a hostilidade não cessou e se tornou ainda mais perigosa, enquanto Wanna treinava, o sistema de irrigação do estádio foi acionado com intuito de expulsá-los do lugar e, em decorrência do acúmulo de água, a atleta caiu e se machucou durante o episódio.


Frente a situação, Wanna estava determinada a buscar um local mais adequado para os treinos e passou a frequentar a Universidade Federal do Amapá, que, por mais que melhor acomodasse as particularidades de seus treinos, trazia consigo outro problema: o da mobilidade urbana.


Na época, Wanna morava na Zona Norte da cidade, que fica longe do local e, como não contava com um meio de transporte próprio, chegava a passar mais de uma hora dentro do ônibus para enfim chegar ao treino, o que prejudicava seu rendimento. “A gente percebeu que eu já chegava cansada [...] É cansativo, é muito calor, então eu acabava gastando energia antes mesmo de chegar no treino”.


Para Carina Reis, o principal fator que compromete a participação de paratletas de todas as modalidades nas atividades desportivas é o sucateamento do transporte público. Ela explica que o atraso dos ônibus, o estado deteriorado em que a grande maioria dos veículos se encontra e a falta de acessibilidade do serviço dificultam o deslocamento e a participação efetiva desses atletas nas atividades de treinamento.

Além das condições físicas, Carina pontua que os atletas muitas vezes são vítimas de preconceito nesses ambientes. “Os nossos atletas relatam que, além da demora, quando passa, às vezes, o motorista não quer parar por preconceito, por ver que é uma pessoa com deficiência”, afirma.


Segundo a professora, outro empecilho comum enfrentado por muitos atletas, está relacionado às condições socioeconômicas dos esportistas, que muitas vezes têm que sacrificar seus horários de treino em prol de trabalhar. “Muitas vezes o atleta tem as preocupações de alimentação, de transporte, econômicas e estudantis, para além do treinamento. Então, muitas vezes, esse atleta, ele não tem disponibilidade também para treinar porque ele precisa trabalhar para se sustentar”, explica.


Em muitos casos, ainda que alcancem resultados expressivos, a estabilidade financeira ainda está longe de ser uma realidade para muitos atletas de alto rendimento. Mesmo quando conseguem benefícios como o Bolsa Atleta, programa que oferece auxílio financeiro mensal a esportistas que obtêm destaque em competições nacionais e internacionais, em diferentes categorias, sem patrocínios ou outras fontes de renda, alguns atletas ainda enfrentam dificuldades no âmbito financeiro.


Wanna, que é beneficiária da categoria Bolsa Pódio, destinada a atletas que estão entre os melhores do mundo em suas modalidades, explica que o incentivo representou uma mudança significativa em sua rotina e permitiu que passasse a se dedicar integralmente ao esporte.


No entanto, ela destaca que essa realidade está longe de alcançar a maioria dos atletas. Antes de atingir a categoria mais alta do programa, o benefício recebido era insuficiente até mesmo para custear despesas básicas, realidade compartilhada por muitos esportistas que ainda dependem das categorias iniciais do Bolsa Atleta. "Hoje, para mim, está um pouco mais fácil, mas quando era só a bolsa nacional não era muito fácil não. Não pagava nem meu Uber", relata.


Embora reconheça avanços recentes na política de incentivo ao esporte paralímpico, Wanna ressalta que chegar à Bolsa Pódio ainda é um caminho longo de difícil acesso. Para ela, o Brasil ocupa hoje uma posição de destaque no cenário paralímpico internacional, mas esse reconhecimento ainda contrasta com as dificuldades enfrentadas por grande parte dos esportistas durante sua trajetória até o alto rendimento.


LEYLIANNE SANTOS


Leylianne também é beneficiária da Bolsa Pódio. Foto: Confederação Brasileira de Taekwondo.
Leylianne também é beneficiária da Bolsa Pódio. Foto: Confederação Brasileira de Taekwondo.

Assim como Wanna, a atleta Leylianne Santos também conhece de perto as dificuldades enfrentadas pelos paratletas amapaenses. Ela conheceu o karatê por volta dos 10 anos de idade, ao ver seu pai, que também era atleta, praticando. Leylianne revela que começou a treinar apenas como hobby, atualmente é faixa preta na modalidade, e é constantemente convocada para representar a seleção brasileira em competições. Além disso, também pratica taekwondo profissionalmente, representando o país nas duas modalidades.


Ela possui deficiência congênita, tendo nascido sem a mão e parte do pulso do braço esquerdo. A paratleta relata ter sofrido bullying durante a infância por conta de sua condição, o que gerava medo e vergonha de mostrar para outras pessoas. No entanto, afirma que encontrou no esporte uma forma de mudar de vida.


“A arte marcial me ajudou a perder esse medo, eu via que nos treinos as pessoas não me menosprezavam por não ter uma mão. Ali eu me encaixava, então o karatê mudou minha vida por completo, sabe?”, conta.


Pelo karatê, a atleta participou de diversas competições regionais, onde obteve sucesso. Em 2014 ela participou de seu primeiro campeonato brasileiro e se consagrou campeã da categoria. Nessas viagens, ela observa grandes diferenças na estrutura de outros estados em relação ao Amapá: “infelizmente a gente não tem tantos campeonatos por não ter estrutura para receber 3 mil atletas, por exemplo. Se nós tivéssemos isso, a gente teria uma visibilidade melhor”, afirma.


Assim como Wanna, Leylianne também é beneficiária da Bolsa Pódio, o que a ajuda nas viagens. Pelo taekwondo, a maioria das viagens são pagas por ela mesma, exceto quando é convocada pela Confederação Brasileira da modalidade. Ela conta que no início da carreira, não tinha patrocínios, o que a deixou de fora de algumas competições.


“Eu não imaginava que ia ser uma atleta, então meu pai fazia de tudo para conseguir custear minhas viagens, então eu devo tudo a ele por me tornar a atleta que sou hoje”, diz Leylianne.


JOANA BRILHANTE


 Joana Brilhante  é a atual campeã brasileira de lançamento de disco na categoria F55. Foto: Acervo pessoal.
Joana Brilhante  é a atual campeã brasileira de lançamento de disco na categoria F55. Foto: Acervo pessoal.

Outra figura muito conhecida do cenário paradesportivo amapaense é Joana Brilhante. Ela é paratleta pela Universidade Federal do Amapá (Unifap) e é um dos maiores nomes do estado nas modalidades de lançamento de dardo, disco e arremesso de peso. Começou a carreira profissional no atletismo em 2016 e, atualmente, a atleta também está dedicada à paraesgrima, modalidade em que representou o estado nacionalmente.


Com 33 anos, ela é a atual campeã brasileira de lançamento de disco na categoria F55, para atletas cadeirantes que possuem lesões medulares ou amputação nas pernas. “Eu passei 7 anos para chegar no primeiro lugar, sempre foi uma classe que eu consegui me manter entre as três, mas foi um trabalho muito árduo”, afirma. A maior marca da amapaense é 17,26 metros, apenas dois centímetros a menos do recorde nacional.


Apesar do grande currículo, Joana ainda precisa superar dificuldades diariamente por conta da deficiência. Segundo ela, a maior dificuldade é a mobilidade urbana, pois depende do transporte público. A atleta mora em Santana, mas seus treinos e fisioterapia são feitos em Macapá, são mais de 30 quilômetros todos os dias de ônibus circulando entre os dois municípios.


No entanto, o meio de transporte não atende às suas necessidades. “O transporte não é adaptado para mim e nem para nenhuma pessoa com deficiência. O elevador não funciona, é aquela superlotação todos os dias, já me aconteceu de cair, se machucar dentro do ônibus”, relata.


Acerca dessas dificuldades estruturais, Cristina Baddini destaca que a falta de infraestrutura urbana atinge diretamente a dignidade e segurança do cidadão. Segundo a especialista, quando uma pessoa encontra uma calçada mal feita, ou paradas de ônibus inacessíveis, deixa de exercer seu direito de ir e vir, passando a depender de terceiros para realizar atividades simples.


Ela alerta que os riscos são concretos e diários: “Uma calçada deteriorada pode causar quedas, ausência de piso tátil traz riscos às pessoas cegas. Em Macapá, investir em mobilidade acessível significa ampliar o acesso ao esporte, educação, trabalho e serviços públicos”, aponta a especialista.


Apesar de todos os problemas, o Amapá vive uma crescente no desenvolvimento de paratletas. Joana relembra que há 5 anos, seu centro de treinamento contava com cerca de 20 atletas e o equipamento não os atendia. Hoje em dia são mais de 100 atletas.


“A gente está sempre buscando levar nosso trabalho para a televisão, mostrar que a gente faz parte do centro de treinamento. Então, querendo ou não, isso traz mais visibilidade e acaba atraindo mais pessoas para a prática do esporte”, afirma a paratleta.


*Reportagem produzida na disciplina de Jornalismo Esportivo, ministrada pelo professor Dr. Alan Milhomem.


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