CrĂŽnicas de professor amapaense contam sobre os desafios da adolescĂȘncia
- AGCom
- 30 de out. de 2025
- 8 min de leitura
TiĂȘgo Alencar relata como foi o processo de construção de sua primeira obra âDo avesso e outras crĂŽnicasâ.
Eduardo Lima*

A coletĂąnea âDo avesso e outras crĂŽnicasâ foi lançada este mĂȘs pela editora Minimalismo. O livro traz a proposta de narrar as provaçÔes da juventude e uma jornada de autodescoberta, alĂ©m de discutir sobre relacionamentos, crenças e sexualidade. Os contos foram escritos ao decorrer da vida do autor e reunidos para sua obra de estreia.Â
TiĂȘgo Alencar, 31 anos, Ă© formado em Letras PortuguĂȘs e FrancĂȘs e professor hĂĄ 11 anos. Começou a escrever quando ainda era estudante sobre suas vivĂȘncias na escola. Em 2023, ao começar a lecionar no Instituto Federal do AmapĂĄ (IFAP), Campus Santana, o ambiente motivou o educador a continuar produzindo textos. Em entrevista, ele revelou os detalhes do desenvolvimento de seu primeiro livro.
Eduardo Lima: O que te motivou a escrever âDo avesso e outras crĂŽnicas?â
TiĂȘgo Alencar: Antes de qualquer coisa, a escola, pra mim, sempre foi um meio paradoxal. Eu sempre vivi um paradoxo na escola: enquanto aluno, essa experiĂȘncia pra mim nĂŁo foi tĂŁo legal, mas enquanto professor, essa experiĂȘncia pra mim foi maravilhosa em todos os espaços por onde passei, enquanto docente do ensino mĂ©dio e do ensino fundamental. E chegar atĂ© o IFAP (Instituto Federal do AmapĂĄ), eu nĂŁo sei o que foi que os passarinhos te contaram, mas definitivamente ter vivido essa experiĂȘncia no IFAP, pra mim, foi um ponto fora da curva. Eu percebi essa interação, esse diĂĄlogo com vocĂȘs [alunos], que eu poderia ressignificar um pouquinho disso e talvez repensar as minhas prĂłprias experiĂȘncias enquanto aluno, na escrita. Num dia especĂfico, nĂŁo lembro qual, nĂŁo necessariamente agora, mas eu conversava com um aluno sobre escrever, sobre essa necessidade que a gente tem de as vezes nĂŁo conseguir falar, mas aĂ a gente consegue escrever. E aĂ esse aluno especĂfico pegou disse: âprofessor, mas o senhor jĂĄ escreve. O senhor deveria escrever, porque do jeito que o senhor fala, eu consigo ler na sua voz aquilo que o senhor tĂĄ falandoâ. E eu fiquei muito pensativo em torno disso. âGente, como Ă© que pode, a pessoa dizer que tĂĄ me lendo enquanto eu tĂŽ falando sobre literatura ou sobre movimentos literĂĄrios ou o que quer que sejaâ. Isso gerou uma fagulha na minha cabeça. EntĂŁo, foi basicamente esse o cenĂĄrio em que âDo Avessoâ surge enquanto um livro.Â
Eduardo Lima: Por que âDo Avessoâ como histĂłria de entrada?
TiĂȘgo Alencar: Bem⊠âDo Avessoâ sempre foi uma expressĂŁo, tambĂ©m, que me causou algum incĂŽmodo, porque se a gente veste uma camisa do avesso, a gente tĂĄ vestido de alguma forma. NĂŁo que isso, necessariamente, seja algo ruim, mas as pessoas vĂŁo olhar pra aquilo e achar estranho: ânossa, a pessoa tĂĄ com a camisa do avessoâ, muito embora isso nĂŁo signifique nada em termos prĂĄticos. Eu pensei em "Do Avessoâ pra começar aĂ o livro, a primeira crĂŽnica, porque Ă© uma crĂŽnica que fala sobre despertar da sexualidade, algo que, pra mim, foi muito importante, que a escola teve um papel muito importante. E falar disso, pra mim, era urgente naquele momento, e pensar nessa noção de sexualidade na adolescĂȘncia, pra mim, Ă© algo que ainda precisa de uma discussĂŁo significativa, especialmente quando a gente fala de sexualidades nĂŁo hegemĂŽnicas, quando a gente fala de bissexualidade, de homossexualidade. EntĂŁo, âDo Avessoâ surge exatamente nessa minha reflexĂŁo, quando eu paro e penso: âcaramba, que estranho olhar pra um garoto e pensar que isso nĂŁo Ă© algo ruimâ, porque todas as minhas experiĂȘncias de proximidade com meninos foram traumĂĄticas, eu detestava os meninos de todas as formas. E, atĂ© que um belo dia isso nĂŁo aconteceu, e foi quando eu percebi que tinha sido virado do avesso, foi quando virou uma chave na minha cabeça.

Eduardo Lima: O que devemos esperar ao começar a leitura de âDo avesso e outras crĂŽnicasâ?
TiĂȘgo Alencar: Coisas aleatĂłrias sobre um adolescente⊠Tem bastante coisa sobre adolescĂȘncia, sobre essa transição da infĂąncia pra adolescente. Mas eu acho que a imagem da capa nĂŁo Ă© aleatĂłria: aparece alguĂ©m com a mĂŁo levantada, um menino, centralizado ali na escola, que a minha experiĂȘncia na escola dita esse tom exatamente. Estender a mĂŁo e falar parece um ato tĂŁo natural dentro de sala de aula hoje e na minha Ă©poca de estudante nĂŁo era, se eu fazia isso eu era alvo, eu virava alvo por responder um professor ou dar uma resposta correta. Por incrĂvel que pareça eu era bom de matemĂĄtica na escola, sabia?! E, atĂ© o fato de responder, isso jĂĄ virava uma situação, entĂŁo eu acho que, entre vĂĄrias coisas, dĂĄ pra esperar bastante reflexĂ”es sobre um perĂodo de amadurecimento da vida, que envolve, principalmente, minhas experiĂȘncias na escola. Enquanto professor, eu senti essa urgĂȘncia em falar sobre, atĂ© porque eu acho que Ă© uma forma de olhar pra trĂĄs sem um jeito tĂŁo doloroso. EntĂŁo, dĂĄ pra esperar um pouco disso tudo: histĂłrias sobre amor, sobre aprendizado, sobre religiĂŁo, sobre sexualidade, tem de tudo um pouco.Â
Eduardo Lima: Quais foram suas maiores inspiraçÔes e apoios para a construção do livro?
TiĂȘgo Alencar: Ai, nossa! Tem tantas⊠SĂł consigo pensar nas maiores, nĂ©?! Bem, pra fins de crĂŽnica, crĂŽnica mesmo, Ă© impossĂvel nĂŁo falar do Machado de Assis, porque ele tem vĂĄrias crĂŽnicas sensacionais e ele, pra mim, Ă© o grande escritor da LĂngua Portuguesa. Dificilmente alguĂ©m vai chegar no nĂvel que ele escreveu, mas isso eu tĂŽ pensando numa referĂȘncia bem maior no que diz respeito Ă escrita. O que Machado de Assis vai falar em vĂĄrios contextos, seja numa crĂtica social, seja na polĂtica, seja colocando polĂȘmicas ali, por isso me inspirou muito a escrever, tambĂ©m, nĂŁo sĂł âDo Avessoâ, acho que eu escrevo de maneira geral, tenho uma influĂȘncia tremenda dele. Mas, recentemente, eu acho que posso citar um cronista, que Ă© sensacional, chamado AntĂŽnio Prata, que eu conheci em uma revista que eu lia na Ă©poca. Eu nĂŁo comprava essa revista porque eu nĂŁo tinha dinheiro, mas na escola as minhas amigas sempre tinham essa revista, que era a Capricho, e o AntĂŽnio Prata tinha uma coluna na revista Capricho e era justamente falando da visĂŁo dele, enquanto homem, sobre coisas do universo masculino e que tambĂ©m tinham a ver com o universo feminino. Eu sempre li aquilo pensando: ele Ă© um cara escrevendo numa revista que tem o pĂșblico-alvo feminino, entĂŁo isso Ă© muito interessante. EntĂŁo, eu passei a olhar pras crĂŽnicas do AntĂŽnio Prata, tambĂ©m, como uma referĂȘncia. Ele tem um livro chamado âAdulteradoâ, que Ă© uma das minhas melhores inspiraçÔes pra âDo Avessoâ, que tambĂ©m Ă© uma coletĂąnea de crĂŽnicas. E quando ele menciona âAdulteradoâ, ele tambĂ©m fala sobre essa nossa visĂŁo sobre a divergĂȘncia das coisas: âpor que que a gente estranha tanto aquilo que destoa de um padrĂŁo, de uma norma, de algo fixo?â. E na verdade, faz parte de uma experiĂȘncia que nos coloca em caixinhas. Infelizmente âAdulteradoâ funciona dessa jeito. E eu aprendi com AntĂŽnio Prata que a gente nĂŁo deveria, necessariamente, pensar nisso como algo ruim e sim como algo que poderia ser passĂvel de inspiração. E a Ășltima coisa que eu posso citar Ă© a Clarice Lispector. Porque, assim, Ă© golpe baixo falar da Clarice nĂ©, eu gosto muito das crĂŽnicas dela, ela passeou por todos os gĂȘneros, ela tem romance, ela tem conto, ela tem tudo. E a prosa dela em conto e em crĂŽnica Ă© um negĂłcio fabuloso, ela nunca escreve demais, aquelas coisas imensas, mas tudo que ela coloca ali Ă© extenso suficiente pra que a gente entenda a força das palavras dela. E ela fala sobre coisas tipo como amizade, sobre, cotidiano, sobre a vivĂȘncia dela, enquanto uma mulher ali naquela sociedade, se firmando enquanto mulher escritora [...].Â
Eduardo Lima: Como foi a busca por uma editora que se adequasse Ă s suas perspectivas?
TiĂȘgo Alencar: Foi uma saga, viu?!. Eu preciso dizer, assim, pra quem nĂŁo sabe, que achar uma editora que se interesse pelo escrito do jeito como ele nasce, sem passar por toda uma questĂŁo de edição e algo do tipo Ă© difĂcil. EntĂŁo, eu jĂĄ havia mandando âDo Avessoâ pra quatro editoras e levei nĂŁo de quatro editoras. Eu nĂŁo sei se Ă© porque o livro nĂŁo Ă© tĂŁo extenso, ele deve ficar aĂ, acho que com umas 60, 70 pĂĄginas, Ă© um livro pequeno. E Ă© um texto que, a meu ver, ele ainda Ă© cru, esse Ă© um texto que vai falar muito diretamente da minha vivĂȘncia, entĂŁo, assim, eu nĂŁo penso muito em metĂĄforas, eu nĂŁo penso muito em coisas nesse sentido que talvez tornarem minha escrita um pouco mais densa. Eu mandei pra quatro editoras e quando eu jĂĄ tinha desistido, eu estava prestes a lançar âDo avessoâ de forma independente ali na Amazon como ebook e tudo mais, porque essa era uma das minhas grandes metas pra esse ano, consegui publicar âDo Avessoâ de fato. Assim, pra me ajudar enquanto autor. Ai, eu vi um chamado da Minimalismos. E antes disso, eu tenho dois grandes amigos na universidade, os dois sĂŁo escritores, o professor Luciano Duarte e a professora Jennifer Iara, ambos sĂŁo muitos prĂłximos, e eu jĂĄ havia visto que eles haviam produzido ali. Vi os dois e pensei: âNossa, eu vou tentar uma Ășltima vez, e se nĂŁo der certo, aĂ eu vejo o que que eu faço daqui pro final do anoâ. Estava eu, quietinho, dando minha aula quando de repente eu recebo o e-mail da Minimalismo dizendo: âTiĂȘgo, a gente adorou os seus escritos e seria incrĂvel se a gente pudesse publicar issoâ. E aĂ eu fiquei apavorado. Foi quando eu definitivamente vi que nĂŁo era bobagem o fato de eu jĂĄ ter mostrado pra uma ou outra pessoa âDo Avessoâ. JĂĄ haviam dito que aquilo tinha potencial, mas a Minimalismo foi a editora que abriu isso. EntĂŁo, quando eles receberam os escritos, avaliaram positivamente e eu dei a devolutiva dizendo âeu quero issoâ, a gente tentou chegar no consenso sobre vĂĄrias coisas: projeto grĂĄfico, a imagem de capa. Eu acho que longe de querer algo grandioso, eu acho que queria algo que fosse simbĂłlico suficiente pra marcar esse meu inĂcio numa trajetĂłria de escrita literĂĄria e a editora fez isso muito bem.
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Eduardo Lima: Pode-se esperar outros livros no futuro?
TiĂȘgo Alencar: Talvez. Bem, talvez, nĂŁo sei ainda, eu tenho rascunhos, com certeza absoluta. Eu tenho rascunho de romance e tenho outro rascunho de crĂŽnicas, que eles tĂŁo bem no inĂcio do projeto ainda, que precisam ser desenvolvidos. Mas eu jĂĄ tenho todo um esboço, do romance em especĂfico eu jĂĄ tenho todo o esboço da narrativa e tudo. Das crĂŽnicas, eu tambĂ©m tenho um esboço geral do que elas vĂŁo tratar, eu jĂĄ tenho duas escritas. Eu nĂŁo sei como isso vai parar, mas eu acho que jĂĄ posso adiantar que esse deve ser meu segundo projeto e sĂŁo crĂŽnicas sobre a vida adulta. JĂĄ que eu tratei âDo Avessoâ sobre adolescĂȘncia e sobre essa questĂŁo toda envolvendo escola, eu acho que a minha vivĂȘncia enquanto estudante de graduação aĂ na sua dignĂssima Unifap (Universidade Federal do AmapĂĄ), tambĂ©m foi um perĂodo que me marcou muito enquanto pessoa. EntĂŁo, acho que esse meu segundo projeto com certeza deve ser uma coletĂąnea de crĂŽnicas sobre esse meu inĂcio na vida adulta. Eu me tornei adulto em 2012, eu jĂĄ tinha feito um ano de faculdade quando me virei adulto e de lĂĄ pra cĂĄ muita coisa aconteceu. Eu acho que vale a pena investir um pouquinho nisso, mas ainda Ă© muito preliminar e eu acho que dĂĄ pra esperar algo nesse sentido. Quanto ao romance eu nĂŁo posso entregar muito, mas Ă© algo que envolve, nĂŁo necessariamente uma experiĂȘncia autobiogrĂĄfica, mas coisas que eu vi, coisas que eu vivi, presenciei, experienciei, e que nĂŁo necessariamente tem a ver com o que eu jĂĄ fiz anteriormente. Eu acho que esse romance Ă© o que eu devo fazer de mais ambicioso na minha vida, por isso que eu acho que nĂŁo Ă© um projeto pra agora. EntĂŁo, Ă© isso, tem projetos, tenho em mente, mas falta um pouquinho pra ir alĂ©m.
*Entrevista produzida na disciplina de Redação e Reportagem II, ministrada pelo professor Dr. Alan Milhomem
