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Conheça o Projeto Saúde Mental Itinerante realizado em Macapá e premiado nacionalmente

A iniciativa amapaense foi destaque em evento nacional que premiou projetos na área da saúde de todo Brasil.


Por Ediléia Fernanda e Mickael Marques

Equipe do projeto recebendo premiação nacional em Goiânia. Foto: Conasems

O Projeto Saúde Mental Itinerante realiza atendimento profissional em diferentes regiões fora da área urbana de Macapá, como no arquipélago do Bailique, localizado a 12 horas de barco da capital. Este é um projeto piloto da Secretaria Municipal de Saúde que se iniciou em agosto de 2022 e surgiu das demandas que começaram a ficar mais evidentes a partir da pandemia de Covid-19. A condição de vulnerabilidade psicossocial, especialmente nas zonas rurais, foi outro elemento que motivou a criação da iniciativa.


A psicóloga Nataline Rangel é uma das integrantes do projeto e, em entrevista, comenta sobre como funciona o serviço, as atividades prestadas ao público e salienta a necessidade dos cuidados com o bem-estar e a saúde mental da população que reside fora do perímetro urbano da capital.


Na prática, como funciona o projeto?

Então, funciona a partir da elaboração de cronograma, que é feito pelo Departamento de Saúde Mental, em conjunto com as equipes de Estratégia da Saúde da Família da localidade e outros departamentos da Secretaria Municipal de Saúde […], também conta com dispositivos de outras secretarias, tentando essa atuação intersetorial. E a partir do levantamento dessas demandas pela equipe de Saúde da Família, é que se pensa nas intervenções, lembrando sempre que essas demandas podem ser previamente levantadas naquela equipe, ou surgem de forma espontânea. Atualmente, nós temos duas psicólogas, sendo eu uma delas, e nos deslocamos para essas comunidades e fazemos os atendimentos pertinentes à prática do psicólogo, então, atendimento individual, coletivo, educação de saúde e visita técnica, domiciliar, aquilo que o território demandar. Um ponto interessante do itinerante é que a gente trabalha em cima do que o território demandar, sabe? [...] Nós ouvimos as equipes de lá e eles dizem o que estão precisando, que suporte estão precisando. Às vezes é uma atividade de matriciamento, atendimento individual ou educação de saúde dentro de uma escola. E nós elaboramos, organizamos e vemos como podemos auxiliar no tocante dessas demandas.


Existe uma equipe definida que é direcionada? Quanto tempo passam nesses locais?

A gente trabalha em conjunto com as equipes de referência daquela localidade. Isso também é muito importante. Esse trabalho é desenvolvido por muitas mãos, muitas mãos mesmo, um trabalho coletivo que precisa do interesse, da disponibilidade, não só técnica, mas também pessoal de muitas pessoas. E as equipes são essenciais pro alcance do objetivo do projeto. E o tempo depende muito da localidade. Macapá é composta por oito distritos e alguns a gente acessa em 40 minutos, como por exemplo o Abacate da Pedreira, que é toda aquela região com várias comunidades; e outro como o Bailique, que são 12 horas de barco. Então se é necessária uma atividade no Bailique, aí se estende um pouco mais, portanto caso seja uma ação maior, nós permanecemos por mais dias.


Como seria o feedback do trabalho realizado? Vocês têm um retorno de pacientes sobre no que resultaram essas atividades?

Sim. Eu costumo falar que saúde mental é um pouco mais complicada de ver esse

resultado porque nós lidamos com o subjetivo, né? Mas, por exemplo, algumas demandas que nós conseguimos identificar com o pouco tempo que esse projeto está aí, entre o público infantil, foi a necessidade de avaliação e acompanhamento devido a traços de TDAH, TEA, transtornos de aprendizagem. Por exemplo, em casos dessa necessidade de avaliação por traços de TEA, é muito interessante essa garantia da longitudinalidade em inserir essas pessoas na rede. Tem outro projeto da secretaria que não sei se vocês conhecem, que chama TEAtendemos, onde algumas dessas crianças e adolescentes que foram identificadas via serviço de saúde mental itinerante já conseguiram ser incluídas para avaliação nessas edições do TEAtendemos. Então, há crianças e adolescentes que estão aí há muito tempo em sofrimento psíquico devido à essa dificuldade na avaliação, no diagnóstico. E aí, quando a gente consegue, por exemplo, identificar essas demandas, essas crianças, essas pessoas, nós recebemos muito feedback positivo de mães e de famílias agradecendo. "Ah, eu estava há anos tentando o diagnóstico do meu filho e agora eu consegui". Esse sim é um dos que nós mais temos, mas tem alguns que são muito significativos para mim enquanto profissional, por exemplo, que é garantir mesmo algum tipo de auxílio profissional e cuidado mesmo. É interessante pensar pela via de gestão, por exemplo, mas também pensar a partir da própria psicologia amapaense. [...] Então a gente sabe que essa dificuldade do acesso ao profissional é multifatorial, então quando recebo, por exemplo, um feedback positivo de pessoas que falam, agradecem pelo cuidado, agradecem pela escuta, pelo acolhimento, é um retorno recorrente muito significativo.


Alguma localidade específica foi marcante na sua carreira?

A atuação no Bailique, enquanto profissional de Psicologia, é riquíssima, porque a situação ali vivenciada pelas pessoas que residem no distrito é muito específica. Não sei se vocês conhecem a respeito do fenômeno das Terras Caídas, mas a experiência lá me levou a refletir sobre adoecimento e produção de vida. Adoecimento porque de alguma forma, em uma leitura superficial, esse ambiente é atingido de forma natural por conta desse fenômeno, porém o interessante é a produção de vida naquele local em que apesar da dificuldade ao acesso de políticas públicas, a população desenvolve suas próprias estratégias e que reside ali em uma relação muito íntima com a água, com a sua terra. Apesar de tudo isso, a atuação ali me fez perceber que é possível elaborar sistemas afetivos, principalmente, na questão da saúde mental. A forma a qual as pessoas se estabelecem ali é gerida pelo cuidado por si e pelo próximo, por isso é algo que me inspira muito.


Em julho deste ano, o projeto recebeu atenção em nível nacional no evento "Aqui tem SUS", em Goiânia. Poderia comentar sobre esta participação no congresso?

A “Mostra Brasil, aqui tem SUS” ela se organiza a partir de experiências estaduais, por exemplo, “Amapá que tem SUS”. [...] Nós concorremos aqui no Estado e a nossa experiência foi premiada. Qual é o objetivo dela? É premiar experiências exitosas no âmbito da saúde municipal. E aí a gente conseguiu a premiação estadual. E foi algo muito, muito interessante. E fomos pro nível nacional. [..] Foram 535 experiências de todo o Brasil e 73 prêmios. E o prêmio que nós recebemos foi o Prêmio CONASEMS (Congresso do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde), que é uma premiação que garante a elaboração de um documentário, um webdoc, que vai ser divulgado posteriormente sobre o projeto e sobre a experiência. Então é algo que eu costumo dizer que não é algo individual, é um reconhecimento mesmo, que ajuda a fortalecer iniciativas como essa e, principalmente, que garante que talvez no futuro, que esse é o nosso principal objetivo, iniciativas como essas se tornem políticas públicas e que haja realmente essa garantia no cuidado da saúde mental de populações rurais, que haja efetivamente um avanço do SUS, um avanço da saúde mental. Eu acho que o maior prêmio realmente é essa garantia.


A partir disso, poderia compartilhar sua visão sobre o futuro do projeto e como ele pode se desenvolver nas próximas atividades?

Bom, daremos continuidade ao trabalho, com essa metodologia e experimentando outras de acordo com as demandas. Identificamos como uma necessidade a ampliação do projeto […] com o aumento do quantitativo profissional, a garantia, por exemplo, do recurso para deslocamento. Exige um planejamento logístico muito amplo, muito grande, desde a garantia do combustível até como nós vamos ficar lá. Então, isso demanda recursos e aí há essa necessidade. E também, como dito anteriormente, objetivamos que estratégias se tornem políticas públicas. Então esse é um dos principais objetivos.


*Entrevista produzida na disciplina de Redação e Reportagem II, ministrada pelo professor Alan Milhomem.




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