top of page

Cidade sem sombra: Crescimento urbano sem árvores agrava ilhas de calor em Macapá

  • Foto do escritor: AGCom
    AGCom
  • há 2 horas
  • 9 min de leitura

Trabalhadores sentem no dia a dia os efeitos da falta de arborização, de um plano diretor desatualizado e da fıscalização urbana insuficiente.


 Por Édala Costa*


A cidade cresce sem planejamento urbano adequado. Foto: Breno Melo/Bee Movie.
A cidade cresce sem planejamento urbano adequado. Foto: Breno Melo/Bee Movie.

“O calor é demais, né? Tem horas que dá até vontade de largar tudo e ir embora pra casa tomar um banho”. O relato é de Merian Furtado, 29 anos, trabalhadora de uma loja de assistência técnica de celulares, localizada no centro de Macapá. Mesmo com uma tenda para se proteger do sol e do calor, ela enfrenta diariamente temperaturas elevadas agravadas pela falta de arborização e pela má qualidade do ar no entorno do local onde trabalha.


O desconforto térmico não afeta apenas a saúde, mas também a rotina profissional. “O sol é demais aqui desse lado, nem essa tenda dá conta e não tem nenhuma árvore aqui nessa rua”, relata a trabalhadora. Para driblar o calor, Merian criou truques para conseguir aguentar a jornada exaustiva. “No centro é meio ruim, porque aqui na loja onde eu trabalho a gente não tem acesso a banheiro que tenha um local pra gente tomar um banho rápido na hora do almoço. Aí a gente fica assim, vai no banheiro e molha só os braços”, explica.


Mesmo assim, as consequências do calor ainda são sentidas e as marcas aparecem na pele. “Eu tenho problema de alergia quando eu pego muita poeira com suor, o meu corpo irrita e me dá até umas alergias tipo umas bolinhas de ferrada de carapanã”, conta.


Questionada sobre o que poderia ser feito pelo poder público para melhorar o conforto térmico no local onde trabalha, Merian Furtado aponta a arborização como principal necessidade. “Eu creio que árvores. Só não sei como poderia implementar isso aqui. Porque a árvore melhora até o ar que a gente respira”, afirma.


Biólogo Leonardo Magalhães. Foto: Acervo pessoal.
Biólogo Leonardo Magalhães. Foto: Acervo pessoal.

Para o biólogo e coordenador do curso de Ciências Ambientais da Universidade Federal do Amapá (Unifap), José Leonardo Lima Magalhães, as árvores têm papel fundamental na regulação da temperatura urbana, mas a implantação precisa ser feita com critério.


“Há grande importância de utilizar espécies que tenham adequação para o nosso clima, para o nosso solo e para o ambiente em que elas estão. Por exemplo, quando a gente faz algum tipo de arborização ou plantio num aparelho urbano, numa praça, alguma área de uso público, tem que considerar diversas situações, uma delas é a probabilidade dessa árvore causar algum dano, no sentido das calçadas, da queda de algum fruto. Então, a adequação do uso tem a ver com essas condicionantes”, explica.


Magalhães reforça que a quantidade de árvores influencia diretamente na redução da sensação térmica, mas lembra que “o aspecto qualitativo também é muito importante” para garantir espaços seguros e agradáveis para a população. O pesquisador destaca ainda que o crescimento horizontal de Macapá, marcado pela ocupação de áreas nativas, agravou o problema.


As áreas de ressaca, classificadas como Áreas de Proteção Permanente (APP), deveriam manter vegetação capaz de proteger o ecossistema e contribuir para o equilíbrio térmico da cidade. No entanto, a pressão por moradia levou à ocupação, reduzindo os serviços ambientais que as plantas oferecem, como purificação do ar, filtragem de poluentes e regulação da temperatura. Com menos árvores e mais concreto e asfalto, as ruas passam a absorver e reter calor por mais tempo, elevando a sensação térmica especialmente no centro, gerando as chamadas ilhas de calor.


Arquitetura do calor: quando o concreto substitui o verde

Arquiteta Marcelle Vilar. Foto: Acervo pessoal.
Arquiteta Marcelle Vilar. Foto: Acervo pessoal.

A professora de Arquitetura e Urbanismo da Unifap, Marcelle Vilar, explica que a formação das ilhas de calor em Macapá tem relação direta com a forma como a cidade vem sendo construída. Segundo ela, o desenho urbano da capital priorizou o concreto em detrimento das áreas permeáveis. “A gente vê um abuso de calçada. Você vê uma calçada de cinco, três metros, que não tem uma faixa de grama, não se faz uma linha de plantio de árvore, nada. Se exagera sempre no cimento”, critica.


Marcelle destaca que esse modelo de urbanização é predatório e se intensificou ao longo das últimas décadas: “A gente tinha uma área urbanizada [em Macapá] de 24% em 1990 que passou para 37,84% em 2017. À medida que a gente vai construindo e a cidade vai crescendo de maneira muito predatória, são reduzidas as superfícies permeáveis e as superfícies verdes. É trocado por materiais de alta condutibilidade e a ilha de calor vai se formando. Então, ao ser medido a diferença de temperatura no centro da cidade e a temperatura na borda, ali na Fazendinha que se identifica essas ilhas de calor”, explica.


Uma pesquisa desenvolvida por pesquisadores da Unifap e da Universidade Federal do Pará (UFPA), sobre as variações sazonais do Índice de Temperatura Efetiva (ITE) e Índice de Calor (IC), identificou ilhas de calor já consolidadas em Macapá. Entre os principais pontos estão a Caixa d’Água do Buritizal, na Zona Sul, e o Terminal Rodoviário, na Zona Norte. São áreas marcadas pela baixa arborização e alta concentração de superfícies impermeáveis.

“Esperava-se, por exemplo, que o centro da cidade tivesse uma temperatura muito mais alta, só que o centro da cidade fica na borda do rio e a borda do rio traz muita ventilação e a ventilação ajuda nessa questão de diminuição do efeito da ilha de calor”, explica Marcelle.


Em contraste, áreas como o Museu Sacaca e a Área de Proteção Ambiental do Rio Curiaú foram identificadas como ilhas de frescor. “Essa pesquisa corrobora com tudo que a gente fala sobre isso. Ali no museu sacaca é um lugar agradabilíssimo, quando você entra lá, você sente a diferença. E ali no Curiaú também ainda temos muito verde, então ali na verdade a pesquisa identificou como as ilhas de frescor da cidade”, completa.


Outro aspecto apontado diz respeito ao Patrimônio Material de Macapá, já que o avanço da urbanização e o aumento das temperaturas também afetam diretamente o patrimônio histórico da cidade. Segundo Marcelle, as áreas verdes cumprem papel fundamental na regulação do microclima urbano e na preservação das edificações. “É importante para manter o clima mais equilibrado. As construções têm um tempo de durabilidade e de manutenção, e à medida que o clima vai ficando mais extremo, esse tempo também é alterado”, afirma.


Marcelle ressalta que o calor excessivo impacta desde o conforto térmico até a vida útil dos materiais utilizados nas construções históricas. “Vai interferir no resfriamento das paredes, na durabilidade das pinturas externas, das coberturas e de diversos outros elementos das edificações”, explica.


Ao mesmo tempo, a professora alerta que a arborização em áreas de valor histórico precisa ser planejada com atenção. “O patrimônio histórico depende de um campo visual para ser apreciado. Não se pode simplesmente criar um bosque na frente da Igreja São José ou do Forte de São José e transformar o espaço numa floresta”, argumenta. Para ela, a preservação não deve considerar apenas o edifício isolado, mas todo o conjunto urbano e paisagístico ao seu redor, para equilibrar proteção ambiental, conforto térmico e valorização histórica. Essas ações devem ser definidas no Plano Diretor da Cidade de Macapá.

Vista aérea de Macapá. Foto: Prefeitura de Macapá.
Vista aérea de Macapá. Foto: Prefeitura de Macapá.

Problemas no Plano Diretor da cidade

A Lei Complementar nº 26/2004-PMM, de 20 de janeiro de 2004, que institui o Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e Ambiental do Município de Macapá, estabelece que o planejamento urbano deve passar por revisões periódicas. O próprio texto da lei dialoga com o Estatuto da Cidade (Lei Federal nº 10.257/2001), que orienta os municípios a atualizarem seus planos diretores, preferencialmente a cada dez anos, para acompanhar as transformações sociais, ambientais e territoriais. No entanto, mais de duas décadas após o decreto, o Plano Diretor de Macapá nunca passou por uma atualização estrutural.


Segundo a estimativa populacional mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Amapá alcançou 806.517 habitantes em 2025, um aumento de 0,5% em relação ao ano anterior. A capital concentra a maior parte dessa população: 489.676 moradores, o equivalente a 60,7% dos habitantes do estado.


Para especialistas, esse avanço populacional, somado à expansão horizontal da cidade e ao avanço sobre áreas ambientalmente sensíveis, como as áreas de ressacas, evidencia a defasagem do Plano Diretor e compromete a capacidade do poder público de planejar o território de forma integrada, sustentável e alinhada às atuais emergências climáticas.


A professora Marcelle Vilar questiona a ausência de revisão do plano diante do cenário atual. “A maior legislação de gestão da cidade, que é o plano diretor, é de 2004. Ele nunca foi revisado até hoje. Então, como é que a gente vai inserir as novas demandas e a emergência climática? Porque lá em 2004 a gente falava em mudanças climáticas, agora a gente está numa emergência climática”, ressalta.


Segundo a arquiteta, a falta de atualização do plano diretor dificulta a implementação de instrumentos mais modernos de gestão urbana, como planos de adaptação e resiliência climática, que já vêm sendo exigidos e adotados em outras cidades brasileiras. Sem diretrizes atualizadas e sem um debate amplo com a sociedade, o planejamento urbano acaba sendo conduzido de forma fragmentada e reativa.


“Na verdade, o plano não vem sendo feito. Tem ficado a cargo da especulação imobiliária”, avalia Marcelle. Para ela, decisões sobre o uso do solo e grandes intervenções urbanas acabam sendo tomadas sem transparência e sem participação social. “É uma decisão política que muitas vezes é dada a canetadas, sem que a população saiba o que está acontecendo. Não existe um planejamento sério, voltado para a questão ambiental e para a qualidade de vida na cidade”, lamenta.


Os impactos das ilhas de calor também revelam desigualdades sociais profundas na cidade. Segundo a professora, há uma relação direta entre quem mais impacta o espaço urbano e quem mais sofre com as consequências do calor extremo. “Quem tem mais dinheiro é quem mais impacta a cidade, mas quem sofre mais são as pessoas que têm menos dinheiro. São as pessoas periféricas, pretas, que vivem nas áreas mais carentes de infraestrutura, de arborização e de serviços urbanos. Existe uma relação social, ambiental, política e histórica muito forte. Está tudo sobreposto nessa questão”, conclui a professora.

Projeto de iniciativa popular como resposta à ausência do poder público


Arquiteto Harife Nascimento. Foto: Acervo pessoal.
Arquiteto Harife Nascimento. Foto: Acervo pessoal.

Diante da falta de planejamento, de fiscalização e de políticas permanentes para a arborização urbana em Macapá, o arquiteto e urbanista Harife Nascimento Viégas decidiu transformar a insatisfação coletiva em ação concreta por meio do Projeto de Lei de Iniciativa Popular (PLIP 01/2025).


De acordo com o arquiteto, a proposta nasce tanto da indignação acumulada quanto da necessidade de mostrar à população que existem instrumentos legais de participação direta. “Esse projeto de lei de iniciativa popular surgiu justamente dessas demandas, de todas essas indignações coletivas, de todo esse processo que eu acompanhei e que eu cansei de não fazer nada”, explica.

Formado em Arquitetura e Urbanismo pela Unifap e pós-graduado em Processo Construtivo pelo Instituto Federal do Amapá (IFAP), Harife atua na Secretaria de Infraestrutura do Estado do Amapá, e também se mobiliza nas redes sociais. Ele mantém a página @ap.urbe no Instagram, que atualmente passa por um processo de ampliação para se tornar uma organização não governamental voltada à defesa do direito à cidade, da arborização urbana e da adaptação às mudanças climáticas.

Segundo Harife, bairros periféricos como Cidade Nova, Amazonas e Marabaixo concentram uma quantidade muito menor de árvores, o que faz com que seus moradores sejam justamente os mais afetados pelas mudanças climáticas hoje e no futuro. Ele também aponta que interesses comerciais e estéticos contribuem para a retirada da vegetação urbana, uma vez que a árvore ainda é vista como um obstáculo ao “progresso”, enquanto materiais como concreto, vidro e fachadas espelhadas são associados à modernidade.

Apesar de ainda não ter alcançado o número necessário de assinaturas para ser protocolado, o arquiteto avalia que o PLIP já cumpre o papel de provocar o debate público. “Por enquanto estamos um pouco longe disso, precisamos de 10 vezes mais assinaturas do que nós temos hoje. Mas desde então tenho visto uma movimentação até mesmo das esferas públicas de propor um plano de arborização e de mudanças climáticas. Então, é uma provocação, o PLIP também é uma provocação para se propor esse projeto”, destaca.


Diante das críticas sobre a ausência de políticas estruturadas para enfrentar o avanço do calor urbano, no dia 19 de dezembro de 2025, foi lançado o Grupo de Trabalho responsável pela elaboração do Plano Estadual de Arborização Urbana do Amapá. A iniciativa é coordenada pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) e reúne órgãos públicos estaduais, instituições federais, representantes da iniciativa privada e conselhos profissionais.

Assinatura do decreto que institui a Comissão Interinstitucional responsável por elaborar o Plano Estadual de Arborização Urbana. Foto: CREA-AP.
Assinatura do decreto que institui a Comissão Interinstitucional responsável por elaborar o Plano Estadual de Arborização Urbana. Foto: CREA-AP.

Durante o evento, o governador Clécio Luís assinou o decreto que institui a comissão interinstitucional encarregada de definir padrões de orientações, estratégias de manejo, expansão e manutenção da arborização urbana em todo o estado do Amapá. Segundo o governador, a política estadual de arborização busca alcançar todos os municípios do estado. “Isso é uma sequência do trabalho que venho desenvolvendo em todos os municípios com vários parceiros para tornarmos os ambientes mais amigáveis. Estamos pensando em todos os municípios do Amapá. Arborizar é cuidar do clima, da saúde e garantir um futuro mais verde e sustentável para as próximas gerações”, afirmou.

Embora o lançamento da Comissão Interinstitucional represente um avanço importante, especialistas como José Magalhães, Marcelle Villar e Harife Viégas, citados ao longo da reportagem, alertam que os efeitos práticos dessas iniciativas ainda dependem de um planejamento contínuo, integração com os municípios e de ações que cheguem, de fato, às áreas mais afetadas pelo calor e falta de arborização.


*Reportagem produzida na disciplina de Redação e Reportagem III, ministrada pelo prof. Dr. Alan Milhomem.


Comentários


WhatsApp Image 2022-05-15 at 14.41.58 (1).jpeg
  • Branca ícone do YouTube
  • Branco Facebook Ícone
  • Branco Twitter Ícone
  • Branca Ícone Instagram
bottom of page