Na Foz do rio do Amazonas, a Escola Família Agroecológica do Macacoari traça os caminhos da educação na Amazônia
- AGCom

- 2 de nov. de 2025
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Com o modelo da Pedagogia da Alternância, a escola alia saberes do campo e ensino formal, formando jovens que transformam suas comunidades.
Por Paulo Gama

Era por volta das seis da manhã quando a equipe partiu da Universidade do Estado do Amapá (UEAP) em direção à comunidade da Foz do Macacoari. Foram 46,7 quilômetros percorridos de carro, em cerca de 50 minutos, até o Lontra da Pedreira, ponto de embarque para quem segue rio adentro. De lá a viagem continuou em uma voadeira (embarcação de porte médio, com motor) por mais uma uma hora e meia, navegando pelas águas agitadas do rio Amazonas, enfrentando um pouco do que os estudantes vivem para estudar. No final, chegamos à Escola Família Agroecológica da Foz do Macacoari (EFAM).
Na EFAM, o aprendizado passa os limites da sala de aula. O modelo de Pedagogia da Alternância, adotado pela instituição, combina o tempo de estudo na escola com o tempo em casa, no convívio familiar e comunitário. Durante quinze dias, os estudantes moram na escola, nos outros quinze, aplicam o que aprendem em suas roças e quintais. “Aqui o aluno não tem só a formação da sala de aula. A gente faz uma formação para a vida”, explica o diretor Josiel Silva, que há três anos coordena a escola e atua há quase quatro décadas na educação do campo.

A rotina na EFAM é marcada pela coletividade. Os estudantes se dividem entre tarefas domésticas, preparo das refeições e cuidado com os espaços comuns. “O dia a dia da escola começa cedo. Às seis horas, os alunos se levantam e tocam o sino. Em seguida, realizam as atividades do cotidiano: limpam os prédios, preparam o café e servem o almoço e as merendas. A cada período, as tarefas são revezadas, de modo que, ao longo do ano, todos os estudantes passam por todas as funções. Até para quando chegar na sua residência, ajudar também a família”, conta Josiel. Segundo ele, essa dinâmica reforça os valores de cooperação, responsabilidade e autonomia, pilares do modelo de ensino que nasceu da necessidade das populações rurais e ribeirinhas.
Apesar da importância social, a EFAM enfrenta desafios estruturais e financeiros. Josiel assumiu a direção quando a escola estava “desacreditada perante a comunidade” e sem condições de emitir certificados de conclusão. “Quando cheguei, encontrei a escola irregular e praticamente abandonada. Hoje conseguimos regularizar tudo e entregar certificados até de alunos que estavam na universidade”, afirma. Ele ressalta que, embora o reconhecimento do governo do estado esteja previsto na Lei nº 924, de 25 de agosto de 2005, que reconhece oficialmente as Escolas Famílias do Amapá, e institui o Programa Estadual de Apoio Técnico-Financeiro às Escolas Famílias, previsto no artigo 38 das Disposições Gerais e Transitórias da Constituição Estadual.

Ela garante que essas instituições, baseadas na Pedagogia da Alternância, recebam suporte do governo para manter suas atividades. Além de assegurar o reconhecimento jurídico dessas escolas comunitárias, a legislação prevê que o Estado possa firmar convênios e parcerias para o repasse de recursos, com o objetivo de fortalecer a educação do campo e promover o desenvolvimento sustentável nas comunidades. Na prática, contudo, esse apoio ainda não se efetiva de forma plena. os repasses de recursos ainda são insuficientes. “O que vem para a escola é por meio de parcerias. O estado ainda não faz o repasse direto ", explica.
Entre as histórias que simbolizam o impacto da EFAM, está a de Sabrina Freitas, 22 anos, ex-aluna e hoje secretária da instituição. Ela entrou na escola aos 12 anos, cursou o ensino fundamental e médio e depois se formou em pedagogia na cidade de Macapá. “A escola foi muito importante para mim. Aqui aprendi técnicas agrícolas, manejo do açaí e principalmente o valor da educação. Voltei porque quero retribuir o que recebi e ajudar a minha comunidade”, conta.

Sabrina representa uma geração de jovens que escolheram permanecer em seu território, investindo em conhecimento e pertencimento. “No tempo em que estudava, os professores sempre incentivaram a gente a estudar e a ajudar o pai e a mãe em casa. Esse é o espírito da escola: aprender para fortalecer a família”, relata. Hoje ela é uma das responsáveis pela organização do tempo-escola, controlando o ritmo das atividades. “Aqui tudo tem hora: o café, o almoço, o lazer. É uma rotina que ensina disciplina e convivência”, explica.
Para Josiel, histórias como a de Sabrina mostram o sentido maior do seu trabalho. “Meu sonho é preparar pessoas para que a escola continue funcionando quando eu tiver que sair. Quero que meus alunos se desenvolvam, conhecendo o mundo, mas nunca esqueçam seu lugar”, resume o diretor.
“A gente não vem pra mudar a escola, é a escola que muda a gente. E eu sinto isso todos os dias”: Entre os educadores aprender também é ensinar

Entre os educadores da EFAM o jovem professor de Química Darlenson Prata, de 26 anos, é um exemplo de como o aprendizado também acontece para quem ensina. Formado pela UEAP e natural da cidade de Santana (AP), ele percorre longas distâncias pelo rio Amazonas para chegar à escola, e aprendeu a ver a educação do campo com outros olhos. “O primeiro impacto foi a distância. Eu nunca tinha feito uma viagem tão longa, ainda mais pelo rio. Tudo aqui era novo pra mim, o lugar, a rotina, o convívio com os alunos. Mas foi esse desafio que me fez entender que ensinar aqui é diferente”, relata.
Acostumado com a realidade urbana, Darlenson se surpreendeu com a maturidade dos seus alunos e com o vinculos deles com o território. “São meninos muito experientes. Muitos já trabalham desde cedo, ajudam na renda da família, vendem açaí, pilotam embarcações de transporte. Eles têm uma noção prática da vida que é rara de ver na cidade”, explica.
Para o professor, o cotidiano na EFAM exige um novo olhar sobre o ensino. “Na Química, tudo é muito técnico. Aqui, eu precisei adaptar o jeito de falar e de fazer os experimentos, trazendo o conteúdo para o universo deles, o rio, a terra, as plantas”. Porque, apesar de todas as adversidades logísticas e distância da família, é o sonho de seus alunos que o mantém motivado.
“Eles querem aprender. Mesmo com todos os obstáculos, estão ali, atentos, participando. É isso que me faz voltar. Ensinar aqui me faz entender o verdadeiro sentido da educação”, afirma.
A convivência entre os professores também é marcada pela colaboração. “A gente conversa muito sobre os alunos, troca experiências, tenta resolver juntos as dificuldades. É um ensino coletivo, comunitário. Todo mundo se ajuda. Na cidade, isso é raro”, destaca Darlenson. Ele diz que a pedagogia da alternância fortalece essa relação entre escola e comunidade.
Para os professores, a educação do campo é, antes de tudo, um ato de pertencimento. “Aqui, ensinar é também aprender com eles. A gente ensina ciência, mas recebe lições de vida todos os dias”, conclui, com um sorriso cansado.
Os estudantes: vozes que transformam a comunidade
A EFAM não forma apenas alunos, ela forma jovens capazes de transformar a realidade de suas famílias e comunidades. Enivaldo dos Santos, de 20 anos, mora no rio Ipixuna Grande, município de Itaubal, e conhece de perto os desafios do deslocamento pelo rio Amazonas. “Minha maior dificuldade é porque moramos longe e às vezes não temos transporte ou gasolina para vir para cá. Tenho minha filha e minha esposa, e isso exige um esforço extra. Mas o mais difícil não é permanecer na escola, é não desistir, mesmo quando tudo parece complicado”, relata.

Para Enivaldo, a escola vai muito além do aprendizado acadêmico. Ela é um espaço de afeto. “Aqui, a pessoa aprende a viver com o outro, a compartilhar, a saber estar junto quando alguém precisa, a brincar e respeitar os colegas. Quando chegamos, somos uma família e precisamos nos unir na dificuldade. Muitas vezes pensei em desistir, mas penso na minha família, na minha filha e nos meus colegas. É um lugar que ensina para a vida, não só para a escola”, explica.
Os estudantes possuem um laço afetivo muito grande com a escola, mostrando que ali vai muito além de espaço de aprendizagem escolar. Enivaldo enfatiza: “A escola família me ensinou que a dificuldade é para todos e que precisamos superar juntos. Aqui aprendi a ler, a escrever e a crescer como pessoa”.
Já Adrielson Santos, de 18 anos, fala sobre a diferença entre a escola da cidade e a escola do interior. Para ele, o maior desafio é o deslocamento, mas a recompensa está no aprendizado: “O mais difícil é vim pra escola, por causa do transporte e do tempo, mas estudar aqui é mais completo. Aprendemos o dia todo sobre o campo, a plantação, a vida na comunidade. Aqui, fazemos tudo juntos. A escola família é realmente uma família”, explica.

Além disso, Adrielson terá a honra de representar a EFAM e sua comunidade na 30ª Conferência das Partes sobre Mudança Climática da ONU (COP 30), que será realizada em Belém. A oportunidade de levar a voz dos jovens ribeirinhos para o debate global sobre Amazônia e mudanças climáticas é motivo de grande alegria e responsabilidade. “Quando soube que iria representar a escola, nem percebi no início a importância. Agora entendo que vou levar a voz da nossa comunidade pra gente do mundo todo. Eu nunca saí pra fora, nunca conheci outros lugares assim”, conta. Ele ainda destaca a preparação que recebe dos professores: “Todos os professores estão me ensinando, me explicando o que é a COP 30. É um aprendizado único”.
Vozes das Juventudes da Amazônia: educomunicação e transformação comunitária
O projeto Vozes vai muito além de um programa acadêmico, ele é um elo entre a educação, comunicação e realidade das comunidades tradicionais, Criado em 2023, com financiamento externo e coordenado pela pró-reitoria de extensão da UEAP, o programa nasceu da necessidade de engajar a juventude amazônica por meio da educomunicação socioambiental, combinado educação ambiental com tecnologias e processos comunicativos.

Para Alex Morais, analista administrativo da UEAP e coordenador do programa, o que torna o projeto especial é a troca de saberes. “Nós nunca chegamos com a postura de que viemos ensinar. A ideia é aprender juntos. A expertise da universidade dialoga com o conhecimento do dia a dia da comunidade, das problemáticas reais deles. Essa interação constrói algo formativo tanto para os alunos quanto para nós”, relata, com visível emoção. Ele ainda reforça: “O que mais me impacta é perceber como a comunidade valoriza a escola, mesmo diante de dificuldades de infraestrutura e falta de recursos. Eles fazem questão de participar, de estar junto, de acompanhar o desenvolvimento dos filhos. Isso é muito bonito de ver”.
O programa já atuou em diversas escolas famílias do Amapá, como Carvão, Macacoari e Pacuí, fortalecendo a educação desses jovens e apoiando os professores na implementação de atividades que complementam o que eles já estudam. Alex descreve a experiência com emoção: “Cada visita à escola me enche de alegria. Ver que o trabalho da universidade contribui para que esses jovens tenham oportunidades que talvez nunca imaginassem, que eles percebam que podem chegar à universidade, é algo que transforma não só eles, mas também nós que fazemos parte do programa”.
Em um contexto onde a distância, o transporte precário e a escassez de recursos representam desafios diários, o Vozes da Juventude da Amazônia reafirma seu papel essencial: transformar dificuldades em oportunidades, fortalecer laços comunitários e inspirar jovens a sonhar, aprender e agir ativamente pela Amazônia, pela educação e pelo futuro de suas comunidades.









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