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Zwanga African Fashion e a representatividade na moda negra amapaense

Das 360 mulheres qualificadas pelo projeto social da Zwanga, 73% abriram seus negócios.


Por Paullynna Figueireddo e Cássia Palheta

Rejane Soares cursou moda na Colômbia e retornou a Macapá para investir no mercado local. Foto: Reprodução Facebook Zwanga African Fashion

“A Moda não pode ditar o que tu vais vestir, é que tu que escolhes”, é o que afirma a Rejane Soares, 45 anos, macapaense, e criadora da marca Zwanga African Fashion. Ela inspira mulheres negras a serem independentes e donas de seus próprios negócios.


No último desfile, a marca trouxe para as passarelas roupas que possuem modelagens que se adequam às pessoas com deficiências, trans, padre, dançarino de hip-hop, entre outros, fato que foi muito comentado nas redes sociais. Nesta entrevista, a estilista comenta sobre os desafios de empreender na moda negra amapaense, a importância da representatividade e como funciona o projeto social da Zwanga.


Gostaria de começar pedindo que você se apresentasse e falasse um pouco do seu trabalho.

Meu nome é Rejane Soares, sou da Zwanga Fashion, sou a pessoa que cuida da parte criativa da Zwanga. Temos dois focos de trabalho, o negócio, que é a questão de produzir as roupas, vender os acessórios, turbante, bolsas; e o projeto social, que é a questão dos cursos, formação para as mulheres, para gerar renda. Então, temos dois viés de trabalho, a Zwanga é um negócio social, um empreendimento social de impacto.


Nos conte como funciona esse projeto social da Zwanga.

Eu moro em uma periferia e eu sei que para nós é mais difícil, as pessoas só vêm até aqui quando é período de campanha. Montamos um projeto para levar formação para essas mulheres na área de costura, trancista e o curso de maquiadora profissional. Fizemos uma pesquisa para saber o que essas mulheres gostariam de trabalhar dentre as opções que nós poderíamos ofertar e chegamos nesses três cursos. Fizemos as inscrições de forma virtual, construímos um banco de dados após as inscrições, com mais de dez mil mulheres que se inscreveram para participar, mas tínhamos estrutura apenas para 360 mulheres, foi muito dolorido, porque percebemos que as mulheres não têm oportunidade de fazer um curso, de tentar abrir um negócio em suas casas. Fechamos as turmas e qualificamos 360 mulheres. No nosso curso, as alunas ganham certificado de conclusão e, além disso, elas ganham o “kit semente”, que nele contém o material que ela possa montar o negócio dela e atender seus primeiros clientes. As trancistas, por exemplo, ganham certificado e mais o kit que vai jumbo, agulha, pomada e entre outros materiais necessários para iniciar sua carreira. Hoje, essas mulheres trabalham coletivamente, montam o combo de trança mais a maquiagem. As mulheres que nós qualificamos, das 360, 73% abriram seus próprios negócios, temos um índice no Amapá de 66,4% de desocupação feminina. A partir do mês de setembro abriremos o processo de inscrições de novas mulheres, para saber quem são elas, pois temos um perfil de seleção.


Você falou que as mulheres pelo projeto social têm um perfil, qual é esse perfil?

Tem que ser moradora de periferia, negra, chefe de família, mulher trans ou LGBT. Vamos justamente nesses perfis que são excluídos do mercado de trabalho, então se não tivermos esse olhar de entender que essas pessoas estão nas periferias e por suas condições e cor, elas são mais excluídas ainda. A ideia do nosso projeto é justamente fazer o resgate financeiro delas e também resgatar a autoestima que é um outro processo que está linkado a essas questões. E vamos trabalhando com elas, monitorando e mentorando, pois elas precisam entender a gestão do negócio delas. Uma coisa sou eu, 10 anos no mercado de trabalho, pego uma planilha e consigo entender, outra coisa uma pessoa que acabou de sair do curso, vai montar um negócio e não entende o que é livro caixa, saída, entrada, dispensa, finança e etc. Então, nós montamos uma forma simples para elas trabalharem, para que elas possam fazer a gestão do negócio delas, do jeito delas, e vamos monitorando e mentorando.


O que a Zwanga valoriza?

Primeiramente a cultura negra, que consiga respeitar a diversidade de corpos, isso para nós é muito importante. A moda não pode ditar o que tu vais vestir, é tu que escolhes. Ter o olhar de dizer: isso aqui vai ficar bem em mim? A Zwanga prioriza a tua liberdade de escolha, a Zwanga te diz que tu pode vestir e escolher, com o designer diferenciado, com modelagem diferenciada, com as cores africanas, com combinações com coisas africanas, com as estamparias africanas.


Qual o diferencial dos designers das roupas e produtos da Zwanga?

A Zwanga briga para que tenha uma modelagem de roupa que entenda o corpo das pessoas, que muitas vezes é grande demais em baixo e pequeno demais em cima, o corpo que muitas das vezes é grande em cima e pequeno em baixo, é um desafio porque a modelagem tradicional da moda te dá o padrão 38, 36, estourando o 40. Mas você tem que fazer uma nova reconstrução, uma tabela diferente de medidas, justamente para vestir esses corpos reais que não é fácil. Você precisa pensar como que vai valorizar o corpo de uma mulher que tem a barriga maior e ela não quer mostrar. A bunda dela é pequena e a barriga é maior que a bunda, como que eu vou trabalhar para que ela não tenha esse incômodo da barriga? A gente usa muito a ideia dos vestidos entrelaçados, estilo envelope, que você esquece que tem barriga. “Teu vestido é lindo”, “É porque teu corpo é bonito”, não é isso, eu tenho estria, tenho barriga, peito caído, só que esses modelos tiram isso.


Quais foram os desafios para empreender na moda negra amapaense?

Primeiro que as pessoas não acreditavam que moda era um negócio, moda afro. A maioria das pessoas achavam que era um hobbie meu e para mim é um negócio, larguei o emprego para focar nisso. Eu vivo da Zwanga, minha casa é paga com a Zwanga, é um negócio. A falta de investimento local, porque poucas pessoas querem investir, poucas pessoas entender que é necessário investir em pequenos negócios, mas infelizmente a gente não tem isso aqui e eu passei a entender que eu poderia buscar fora, tanto que a Zwanga buscou fora, fundo Baobá, lojas Renner, Reafro, tivemos contato com muitas instituições nacionais que hoje são nossas parceiras, mandamos um projeto e vamos articulando. Raramente usamos recursos do Estado do Amapá, sempre é capital de fora, a própria Zwanga cria uma forma de se autossustentar. Então, as maiores dificuldades de empreender na moda no Amapá para qualquer pessoa preta, é justamente as pessoas entenderem que negócio de preto, é negócio.


O desfile rendeu muitos comentários nas redes sociais. Foto: Reprodução Facebook Zwanga African Fashion

Qual a importância da integração de homens e mulheres nos desfiles?

A ideia da Zwanga é justamente integrar mais, nós estávamos apenas com mulheres, passamos a ter mulher trans, não sei se perceberam, mas na passarela tina mulher trans, mulher com deficiência, lésbica, mãe de santo, pai de santo, padre. Estamos conseguindo fazer um trabalho de integração, tem um impacto muito grande nessas pessoas e cada vez queremos ampliar mais. Nosso foco agora vai ser dos dois: já tem mulheres e homens negros, queremos incluir as mulheres mais velhas e as crianças.


Sabemos que o desfile foi pensado para todos, principalmente na inclusão. Qual o impacto desse momento?

Para mim foi muito rico, porque eu descobri um mundo que eu tive que entrar, porque eu tive um AVC (Acidente Vascular Cerebral) trabalhando, costurando. Fui para cadeira de roda, vi quanto que é difícil andar de cadeira de roda, hoje preciso usar muleta e eu não tinha percebido isso antes do meu desfile, perceber a mulher gorda, a mulher mais magra, baixa, alta, velha, eu não conseguia perceber esse universo. Nessa coleção, eu consegui fazer isso, foi uma satisfação pessoal, ver que outras mulheres que dependem de um apoio pra andar, pra viver na sociedade, nós conseguimos com a passarela. A inclusão ela precisa ser natural, é uma coisa que as pessoas não entendem. Me perguntaram por que eu coloquei “aleijado” na passarela, não entendem que fazem parte da sociedade, que o gay faz parte da sociedade, que o trans faz parte da sociedade e as mulheres que fazem parte, as mulheres pobres, nós fazemos, nós construímos a sociedade, não dá para excluir.


Qual foi a importância dessa representatividade?

Mostrar para as crianças, para as pessoas, que preto não é só para lavar, limpar, cozinhar ou aceitar qualquer emprego, aceitar qualquer relação, qualquer coisa ruim. Que podemos podemos ter direito as coisas boas, um bom emprego, fazer uma boa faculdade, escolher a faculdade, conseguir concluir essa faculdade que ele começou, porque entramos, mas tem o processo de sobreviver e resistir até o final da formatura. As pessoas imaginam que o preto é feio, que o preto é sujo, que o preto é arrepiado, fedido, mas não é!


*Entrevista produzida na disciplina de Redação e Reportagem II, ministrada pelo professor Alan Milhomem.

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