Repórter Arilson Freires, da Rede Amazônica, fala sobre a cobertura da mídia em tempos de Covid-19

Por Maian Maciel


Foto: Arquivo pessoal


Desde que foi decretada a quarentena no Brasil e em diversos outros países, os profissionais da comunicação ocupam a linha de frente no combate ao novo Coronavírus, exercendo suas funções em colaborar diretamente com a difusão das notícias e atualidades sobre a pandemia. Com o isolamento social como medidas adotadas para conter o avanço do Covid-19, o trabalho da imprensa é de extrema importância em manter a população informada. O serviço de Comunicação é considerado essencial, e por isso, não está sujeito a fechamento das empresas.


O repórter Arilson Teixeira, da Rede Amazônica, formado pela Universidade Federal do Pará (UFPA), é repórter diário nas ruas de Macapá em busca de notícias e entrevistas com outros profissionais. Ele concedeu uma entrevista à Agência de Comunicação Experimental da Unifap respondendo sobre a velocidade da produção de notícias sobre o Covid-19, os desafios enfrentados pelos jornalistas durante as coberturas, os ataques presidenciais à Imprensa e o combate a Fake News.


Entrevista:


Agcom: Durante a cobertura da mídia sobre a COVID-19, o senhor presidente da República, Jair Bolsonaro, tem atacado veementemente os meios de comunicação e a categoria dos jornalistas. Que impactos desse ataque você percebe sobre a formação da Opinião Pública e a ação dos jornalistas durante a cobertura do fenômeno?


Arilson Freires: Acredito que essa divisão de informações entre a população, de um modo geral, não ocorre por influência de uma determinada pessoa, e sim por que a população tem se dividido realmente no entendimento sobre essa pandemia. Nós do jornalismo procuramos não nos afetarmos por questões políticas para que isso não interfira no nosso trabalho, já que a missão de informar nesse momento é maior. Procuramos nos apegar a questões do dia-a-dia, científicas, sociais e econômicas, sem imaginar que possa haver uma interferência política, tendo em vista que não é esse o objetivo.


Agcom: Segundo dados do Ibope, com essa crise de saúde, muitas pessoas voltaram a acompanhar mais a televisão, chegando a mais de 7h diárias de audiência. Como a gestão de comunicação televisiva pode aproveitar esse momento para atrair novamente mais espectadores, já que muitos têm migrado para a internet?


A.F: Nesse momento, a imprensa está aparecendo como fundamental na disseminação de informações, para que a população tenha mais conhecimento sobre o Coronavírus. Isso está sendo até natural, as pessoas buscarem informações por meio da imprensa, muito mais por meio da televisão. A gente, fazendo uma cobertura correta, mostrando os dramas que essa doença está causando e de que forma o poder público está atuando, é a maneira que eu imagino que temos para atrair espectadores, dando cada vez mais informação para as pessoas se protegerem contra a doença, saberem como agir e como procurar o sistema público de saúde, se adoecerem. Nós da imprensa precisamos mostrar a situação e não apenas mostrar números, ou seja, dar "rostos" a esses números. Temos que mostrar que essa situação é real, mas também sendo correto nessa amostragem, sem precisar criar pânico ou dizer que está tudo bem, sempre usando o equilíbrio como meio termo.


Agcom: Você tem medo de se contaminar durante o exercício da função?


A.F: O medo é normal para quem tem que trabalhar na rua, assim como médicos, bombeiros, policiais militares, garis, trabalhadores da construção civil, assim como todas as profissões que não pararam. Temos receio, mas tentamos nos proteger da melhor forma para que nada aconteça.


Agcom: De que maneira a pandemia alterou a rotina da redação?


A.F: Nós temos algumas pessoas trabalhando de home office, o teletrabalho. Temos também pessoas que, por garantia, ficaram um tempo afastadas do serviço, porque estavam voltando de locais como São Paulo, por exemplo, onde a pandemia era mais forte. Então, a emissora está tentando, apesar dessas alterações que estão sendo provocadas na rotina da redação, fazer com que os seus profissionais se protejam. Essas medidas também fizeram a gente ter que aparecer de máscara em algumas ocasiões, os próprios repórteres, inclusive, aparecerem de máscaras na televisão, e isso é uma coisa inédita em todo o Brasil. Além disso, estamos trabalhando com outros elementos que nunca precisamos usar, como o álcool, que está sempre espirrando na mão, um higienizador também que nós temos para os microfones e a higienização do ambiente interno da emissora, como teclado de computador. Eu acho que alterou da mesma forma que alterou para vários profissionais que também tiveram que continuar trabalhando. A gente tendo que adaptar à nossa rotina elementos que não existiam antes.


Agcom: O tratamento dado à informação por um canal jornalístico é sempre melhor apurado e mais aprofundado se comparado ao que é publicado por alguns usuários nas redes sociais. As informações publicadas nas redes sociais tornam-se muitas vezes duvidosas devido ao grande número de fakenews, que circulam por esses meios. Quais critérios a redação vem tomando para acabar com essas incertezas da população sobre as notícias relacionadas a COVID-19?


A.F: Na verdade, a gente tem um cuidado que já possuía com notícias relacionadas a outros assuntos, mesmo os que não envolvem o Coronavírus. Sempre a emissora agiu assim. Nós da imprensa, quando presenciamos notícias nas redes sociais, procuramos sempre, antes de tudo, fazer a checagem, principalmente, com a fonte original que tem a ver com aquela notícia. A gente pergunta para a fonte original se aquela informação partiu dela, se aquilo é dela. Outra coisa que a gente tem que entender também, quando recebe essas notícias, que elas podem nem sempre ser falsas, elas podem ser verdadeiras. A partir do momento que elas são verdadeiras, a gente precisa contextualizá-las para as pessoas entenderem o que significa aquilo. Sendo assim, não basta somente mostrar, de repente, uma briga entre várias pessoas numa esquina da cidade, a gente tem que entender porque que aquela briga aconteceu, qual foi o contexto que levou aquela situação toda ali. Então, nosso papel, às vezes, é explicar o que aconteceu, dar uma dimensão maior, produzir aquela história para a gente entender o fato, e, acima de tudo, funciona uma regra de ouro no jornalismo que é checagem. Nós precisamos checar tudo, antes dessas coisas sem levadas ao ar.


Agcom: Quais são os desafios enfrentados para não deixar de produzir notícia?


A.F: Nesse momento que muitas coisas pararam na cidade, a gente realmente fica, às vezes, sem aquelas fontes de notícias que rotineiramente já tinha, mas tem que sempre usar da criatividade. Estamos no momento de uma cobertura jornalística quase que monotemática, mas a gente descobriu tanta coisa que dá para fazer sobre esse assunto coronavírus, que nem imaginávamos. Isso fez a nossa imaginação trabalhar mais, a gente ter mais ideias que a gente não tinha antigamente, porque essa não era uma rotina nossa, era algo que não fazia parte da gente, a questão do coronavírus. Já saíram tantas pautas boas a partir dessa doença, tanta discussão interessante, a partir do Coronavírus, que enriqueceu o nosso noticiário. A gente já deu muita matéria que não imaginávamos de fazer a partir desse tema, coronavírus, como por exemplo, cuidado com o capacete na hora de usar motos; sobre a disparada da procura pelo seguro desemprego no INSS, com a economia parada; as diversas categorias de trabalho que foram afetadas por essa situação, com a pandemia.


Diante de toda essa situação, gente vai descobrindo ao longo da cobertura muita coisa interessante que pode ser feita. E também, eu acho que é um desafio tentar levar um pouco de lucidez, de calma também, a esse momento de pânico que as pessoas estão vivendo. A gente tem que dar uma balanceada também, encontrar assuntos mais leves para as pessoas digerirem, porque não é fácil a gente ter um noticiário 100% pesado, dramático, com cobertura total de coronavírus.

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