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Religião: mãe de santo Joana Silva compartilha fundamentos do Candomblé e Umbanda

Umbanda e Candomblé são religiões afro-brasileiras que têm como base a conexão com a natureza, o culto aos orixás e a comunicação com entidades espirituais.


Por Rafael Carneiro

Joana Silva, mãe de santo, a direita na foto. Foto: Reprodução/Facebook.

Adentrar em um terreiro é uma oportunidade única de compreender e respeitar a religião do próximo. Assim como visitar diferentes centros religiosos, a vivência em um terreiro proporciona a sensação da energia espiritual e permite uma visão mais ampla sobre as crenças e fundamentos que regem essas práticas religiosas.


Com 16 anos de desenvolvimento na Umbanda, Joana Kelly Chagas da Silva, 36 anos, é responsável pelo Terreiro da Cabocla Jurema (Yle Ase Omin Odo), localizado no bairro do Muca, em Macapá. Iniciada no Candomblé em 2013 e na Umbanda aos 15 anos, Joana compartilha valiosos ensinamentos adquiridos ao longo de sua jornada como Iyalorixá (mãe de santo), o cargo mais alto dentro da religião.


Qual a diferença entre o Candomblé e Umbanda?

O Candomblé cultua os elementos da natureza. Então assim, tem o orixá que controla o vento, que controla as folhas, o orixá que governa as águas, cada elemento da natureza tem o seu orixá. Tanto que a gente tem mais de 1.600 orixás desconhecidos, porque até a pedra que está no chão tem um orixá que governa ela. A gente trabalha a personificação dos elementos da natureza do Candomblé. Já a Umbanda, ela cultua mais as entidades, os encantados, os índios. Tem que ter essa noção de que no Candomblé você não cultua o espírito, você cultua a energia, a energia do sol, a energia das folhas, a energia do vento, das águas. E na Umbanda, você cultua as entidades em si, tanto que ela fala, ela bebe, ela conversa. Por exemplo, a lenda do boto para as pessoas de fora é uma lenda, mas pra gente o boto é uma entidade, é uma entidade que se manifesta, que dá o seu nome, que dá a sua palavra, que canta, que dá a sua folha. Então, é essa diferença, que o Candomblé cultua as energias, os elementos da natureza e a Umbanda é um culto a energia das entidades, aos encantados.


Quais são as entidades mais conhecidas?

O exemplo mais clássico que tem é o da Cabocla Mariana, que é a cabocla que praticamente todo mundo tem, todo mundo desenvolve a cabocla Mariana. Ela é uma cabocla muito conhecida pelo fato de ter muitos filhos, exatamente porque é uma cabocla mais acessível, digamos assim. É uma cabocla que tem muita força, então, por conta do tempo dela, da história dela, que cada entidade tem sua história. Então, uma cabocla que já é mais conhecida, que as pessoas têm mais esse conhecimento dela.


Como é realizado os rituais de iniciação?

Na Umbanda, tem um ritual que se chama “Camarinha” para ser preparado para você ser zelador de Umbanda. São processos iniciáticos parecidos, você fica recolhido uma quantidade de dias. A Camarinha é o quartinho de recolhimento para passar por todos os processos e tudo mais. Quando você sai da sala, é apresentado para a sociedade. O Candomblé já é outro processo, por exemplo, você recolhe 21 dias de primeira, passa por todo um processo de limpeza de corpo, todo um processo de limpezas espirituais. Todo esse processo é dentro do Roncó, que é o quarto que você vai passar por todo o ensinamento, onde vai aprender a ter educação, a ter humbê, a que orixá vai ser vai ser doutrinado, para que energia seja fortalecida na pessoa. Então, passa por vários processos, vários estudos e vários ensinamentos para que você possa sair na sala como iniciado.


Em relação aos cargos, como fica dividido para o que homens e mulheres possam ser?

Na realidade, o que divide é o processo de incorporação, se você incorpora ou se você não incorpora. Eu sou mãe de santo porque eu incorporo, então passo por todo o processo de incorporação, eu passo por todo o processo de cuidado. Na realidade, quando a gente não incorpora e quando a gente incorpora, o processo é diferente, porque quando você não incorpora, você passa por todo o processo acordado, digamos assim, e quando você incorpora, você passa pelo processo dormindo, em transe. Em relação à hierarquia, a hierarquia do Candomblé acaba sendo absorvida pela Umbanda, por exemplo, pai de santo, mãe pequeno, pai pequeno, os cargos, os ogãs, as ekedi. Existem cargos no Candomblé exatamente para ser distribuídas funções, exatamente para que a pessoa não fique sobrecarregada, porque querendo ou não ser mãe de santo, ser pai de santo já é uma sobrecarga muito grande, porque você tem que dar conta de todas as pessoas, de todos os clientes, você tem que dar conta de todo o serviço dentro do barracão. E é por isso que são delegados cargos, para que você fique mais folgado, digamos assim.


Quais são os princípios do Candomblé?

São vários, o principal de todos é o respeito. Se não houver respeito por nada, nem por ninguém, você não tá fazendo nada dentro do terreiro. Eu acho que toda e qualquer religião você pratica a caridade, de tomar conta, de cuidar. Eu acho que o Candomblé tem vários princípios, porém, eu acho que o maior é você ter fé, porque se não tiver fé, não funciona. Ter respeito, ter fé, ter caráter. Os orixás têm um princípio: a fé, ela tem que ser acima de qualquer coisa. Então, pra mim, o principal princípio aqui é a fé. Aí tem respeito, como os princípios da Umbanda, tratar todo mundo com igualdade, buscar abraçar quem chega com carinho, com força, dar força para aquela pessoa porque às vezes você chega tão para baixo dentro de um terreiro. Então, eu acho que acolhimento, respeito, força, têm vários princípios, mas assim, o principal é ter fé.


Como a Umbanda muda a vida de alguém?

Minha avó tinha um ditado que dizia assim: "ou tu vem pelo amor ou tu vem pela dor". Quando a gente vem pelo amor, somos agraciados em realmente reconhecer o que as entidades estão fazendo na nossa vida é muito maior do que a gente pensou que poderia acontecer. Mas quando a pessoa vem pela dor é complicado. Eu tenho filhos de santo aqui que passaram por processos muito ruins de depressão, de tentar se matar várias vezes, mas quando chegaram no terreiro começaram a desenvolver. E hoje, quando você vê a pessoa que entrou aqui pra hoje, já é outra pessoa. Porque você vê que as entidades trabalharam de uma forma bastante positiva para crescer a pessoa, para modificar, para amadurecer.


Quais os desafios enfrentados pelos candomblecistas no Amapá?

Somos uma religião que sofre muito preconceito. A gente vai na loja de tecido, aí tem um evangélico perto da gente, ele sai de perto. E assim, eles não sabem o que a gente faz. A gente é estereotipado: "ah, tem macumbeiro, macumbeiro faz maldade pros outros e tudo mais". E a bondade? Como eu sempre falo, todas as religiões têm o seu lado bom e o seu lado difícil, o seu céu e o seu inferno. O inferno é uma invenção cristã, pra gente não cabe. Como meu pai sempre falava, somos um braço social também, a gente faz o Cosme e Damião, a gente pega todas essas pessoas do entorno da comunidade. Eu sou assistente social, então hoje eu consigo ver isso daí com muito mais clareza, as pessoas nunca vieram no terreiro, falam: "macumba é mau, então é uma coisa ruim". Mas assim, a gente é denominado uma coisa que a gente não é. Eu não cultuo o demônio aqui, eu cultuo o Exu, que pra mim é caminho, então isso daí é uma polêmica muito grande. A importância de um terreiro é a importância de qualquer casa de apoio, a importância de um terreiro é uma casa de acolhimento, onde quando você não tem comida, você vem e come, porque todo o tempo tem comida aqui, todo o tempo tem café na mesa. Aqui é onde as pessoas chegam buscando alguma coisa, um conforto, uma conversa, nem que seja passar a tarde inteira batendo papo aqui.


Qual conselho você daria a pessoas de fora da religião?

Eu acho muito importante que as pessoas, além delas lerem, elas entenderem e procurarem saber. Porque assim como eu já fui no centro espírita, numa igreja evangélica, numa igreja católica, assim como eu já fui em várias religiões, porque preciso compreender a religião do próximo para que eu possa discutir a minha. Então, eu acho que as pessoas deveriam uma vez na vida entrar num terreiro, participar de um terreiro, sentir a energia para que elas possam realmente dizer "eu já fui num terreiro, e eu vi que é isso…". Uma vez indo no terreiro, você vai conseguir entender, assim como todas as religiões. Ela também tem os seus fundamentos que são fechados. É como se eu fosse uma igreja, eu coloco meu nome na oração e aí aquela pessoa vai orar por mim. Aqui é a mesma coisa, eu coloco as pessoas pra desenvolver, para que aquela entidade trabalhe por ela, mas ela vai trabalhar em cima dela, por ela.


Qual é o papel da alimentação no Candomblé?

Eu sempre falo que o Candomblé é uma religião de alimentação porque ela fortalece o teu corpo e a tua alma. Aquelas comidas que foram oradas, foram rezadas, vão ser comidas no final por todo mundo que está ali dentro. Então, é uma religião baseada na alimentação, tanto que se você ver que as pessoas de Salvador são pessoas que comem muito, que gostam de se alimentar. É por isso que eu falo, quando chega numa casa de santo, a primeira coisa que você tem que saber é que lá tem comida pra comer, tem bebida pra tomar. São oferecidas comidas nas festas exatamente por isso, porque aquela comida foi rezada, foi orada e vai ser distribuída exatamente para que possam pegar aquele axé através da alimentação, que é o que a gente faz. Somos uma religião onde se come bem, onde se bebe bem, onde se tem alegria. É uma religião que você não vai ver as pessoas tristes, muito pelo contrário.


Como faz para visitar o terreiro ou adentrar na religião?

A gente faz a primeira segunda-feira do mês que é para abrir caminho, a pessoa pode vir, é aberta ao público a partir de 20h. Já na primeira quarta-feira do mês, a gente não tem isso porque a gente faz uma obrigação para Xangô interno que não é aberto ao público. Porém, na próxima quarta-feira (do mês) já tem nossas sessões, são às quartas-feiras, a partir de 20h, e abertas ao público. Quem quiser vir, conhecer e sentir energia, a gente faz banho dia de quarta-feira. Quem quiser pode vir cedo para tomar um banho aqui de descarga atrativa e já fica pra acompanhar o tambor. Quem quiser conhecer, esses são os horários, principalmente para vir para o tambor. A gente tem nossos processos de obrigação, mas só quem participa são os iniciados que já têm todo um conhecimento, uma doutrina em relação a isso.


*Entrevista produzida na disciplina de Redação e Reportagem II, ministrada pelo professor Alan Milhomem.




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