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Professor desenvolve projeto de casas sustentáveis na Zona Norte de Macapá

 A iniciativa já foi destaque em eventos científicos fora do estado e beneficia mais de 30 famílias.

Lucas Oliveira


Pedro Aquino é formado em Ciências Sociais e professor do Instituto Federal do Amapá. Foto: Lucas Oliveira.

Casas sustentáveis são aquelas que buscam o controle ambiental entre o ser humano, a industrialização e a natureza. São revestidas e constituídas por recursos naturais e ambientais. Foi partindo deste princípio que o professor do Instituto Federal do Amapá Pedro Aquino de Santana, 57 anos, decidiu desenvolver e colocar em prática o projeto de casas sustentáveis na Zona Norte de Macapá. 


O professor encontrou alguns desafios para colocar sua ideia em prática, mas com insistência realizou seu objetivo e construiu uma casa totalmente revestida com materiais ecológicos e naturais. E para além disso, já ajudou cerca de 30 famílias na construção de equipamentos ecológicos em suas residências. 


Morando em uma kitnet, Pedro Aquino começou a desvendar bairros aos arredores e encontrou o bairro Morada das Palmeiras, localizado na Zona Norte de Macapá. Na localidade, ele percebeu que era uma área de ressaca e com pessoas em situação de vulnerabilidade. Não pensou duas vezes e decidiu estabelecer sua residência naquele lugar. Desde criança, o professor percebia que em áreas ribeirinhas, de ressaca e em pontes, as pessoas faziam suas necessidades fisiológicas e afazeres domésticos sem nenhum tratamento e cuidados necessários, o que resultava em proliferação de doenças.


A partir desta realidade, começou a estudar maneiras e formas de construir uma moradia que beneficiasse as pessoas em situação de vulnerabilidade, além de contribuir para o equilíbrio ecológico. “Já que estava na academia, fui estudando, pesquisando e experienciando na prática, mas além disso, com o advento da internet, me aprofundei mais no conhecimento, acessei materiais como vídeos e artigos de meio ambiente”, relata o professor. 

Pedro mostrando recursos da casa. Foto: Lucas Oliveira.

Em 2016, após estudos e práticas, iniciou a construção da casa pela superfície. Ao invés de jogar quantidades de terra em excesso, decidiu complementar com pneus de carros e caminhões, para sustentar a casa. Logo depois, utilizou esteios de madeiras para as colunas e bases da casa, juntamente de um contêiner vencido em 2013, que até hoje, se encontra em perfeito estado de uso, segundo o professor.


No verão amazônico em Macapá, os contêineres de metal passam por processo de aquecimento. Pensando em uma forma de deixar o ambiente da casa mais agradável, observou em um caroço de açaí a possibilidade de melhorar a cobertura da casa e diminuir a temperatura no ambiente. A camada de 5 centímetros de caroços de açaí no teto pode diminuir a temperatura dentro da casa em até 8 graus.


“O teto da casa era revestido por fibra de vidro e areia, mas como observador pensei em outra forma de deixar mais sustentável. Foi então que em um dia de sol, no caminho ao trabalho, vi um saco de caroço de açaí já utilizado, olhei e peguei, mas quando coloquei minha mão dentro do saco, estava totalmente frio, logo coloquei em prática e deu certo, utilizo como telhado”, explica Pedro Aquino. 


Na eletricidade, testou três energias sustentáveis para a casa: a eólica, a hídrica e a solar, todas sucedidas e utilizáveis para qualquer equipamento da casa, incluindo central de ar e as geladeiras. A solar foi a de melhor resultado e adotada na residência. 


Para os usos dos banheiros, foram criadas as fossas ecológicas, que são diretamente ligadas aos vasos sanitários da casa e constituídas por pneus e canos de pvc. As fossas ficam ao fundo da casa e as necessidades fisiológicas passam por um sistema de tratamento e são descartadas ao solo, que podem servir de adubo ou fertilizantes posteriormente. Os móveis da casa também seguem a linha sustentável: camas de madeira, armários, bancos feitos de barril de ferro, cadeiras de garrafas PETs e outros utensílios domésticos. 


A iniciativa despertou o interesse de outros moradores a construírem suas casas sustentáveis, foi o caso do auxiliar de serviços gerais Cesar Ferreira, 38 anos, que com ajuda do professor, levantou e construiu sua casa sustentável. “Inicialmente, levantei ela com madeira e tijolos, logo depois, com ajuda do meu amigo Pedro, auxiliou a construir a fossa ecológica da minha casa, foi muito prático e fácil de entender. Outros vizinhos adotaram a ideia, pois não gasta muito e ajuda o meio ambiente”, relata Cesar.


No bairro Morada das Palmeiras, cerca de 30 famílias em situação de vulnerabilidade contam com recursos sustentáveis em suas moradias. “Eu vejo o mundo de ponta a cabeça, enquanto muitas pessoas veem o problema por cima, eu vejo por baixo. Eu espero que no futuro, as pessoas tenham consciência do controle ambiental, pois se elas soubessem o quão a sustentabilidade tem uma potência para o meio ambiente e uso próprio, elas dariam mais valor”, afirma Pedro.


Sistema de tratamento de rejeitos dos banheiros. Foto: Lucas Oliveira.

Perfil e repercussão 

Pedro Aquino de Santana, 57 anos, nascido no Amazonas, trabalhava de várias formas, como marceneiro, pedreiro, eletricista e qualquer trabalho que pudesse contribuir financeiramente para sua família e ajudando nas despesas de casa. “Eu fazia de tudo para sustentar meus filhos, trabalhava em qualquer coisa, pois como não tinha grau de especialização, tinha que conseguir algo financeiro para ajudar em casa”, conta.  


Aos 42 anos, decidiu cursar Ciências Sociais na Universidade Luterana do Brasil. Trabalhou como professor no estado do Pará por três anos e, em 2011, foi aprovado no concurso do IFAP, onde atua até hoje como professor de Sociologia. Com a visão ambiental, Pedro aproveitou os conhecimentos e a vivência acadêmica para colocar em prática a ideia de montar uma casa sustentável.


Além de beneficiar as pessoas em vulnerabilidade, Pedro Aquino levou a ideia do projeto para outros cantos do Amapá e para fora do estado. O projeto foi apresentado no Congresso Norte Nordeste de Pesquisa e Inovação (Connepi), em 2016, realizado no Instituto Federal de Alagoas. Também foi apresentado no Instituto Federal de Fluminense no Rio de Janeiro, em 2018. 


Professor Pedro apresentando o projeto em Alagoas. Foto: Gildo Júnior

“Eles olhavam e achavam estranho alguém morar em uma casa assim, me perguntavam tudo, desde a eletricidade, temperatura e filtração. Perguntavam e eu sanava as dúvidas, porque o que mais me questionavam era do contêiner, um material básico mas com um potencial grande, foi uma experiência ótima”, comenta Pedro.


Não somente essa aventura em congressos serviu de destaque para a casa, mas também em estudos e projetos acadêmicos de estudantes do ensino superior. “A casa sustentável já foi usada para muitos estudos, desde pesquisa científica até trabalho de conclusão do curso. Recentemente, alunas de Tecnologia em Alimentos do IFAP vieram com uma ideia de água filtrada, fizemos juntos e deu certo”, ressalta o professor.


A professora doutora em Ciências Ambientais Julieta Bramorski, 41 anos, frisa a importância da prática da sustentabilidade em projetos como o de Pedro Aquino. “A ideia da sustentabilidade é a utilização racional dos recursos naturais. Na forma prática, é usar recursos reutilizáveis e utilizar o menos possíveis recursos industriais, para que esses recursos naturais estejam disponíveis para as próximas gerações”, explica a especialista.


Relacionando a casa, Julieta detalha como uma casa sustentável funciona. “Por princípio básico, uma casa sustentável é revestida pela economia da energia, ela é pensada para aproveitar o máximo possível da luminosidade do sol, da energia do sol e, claro, usar o menos possível de resíduos maléficos ao meio ambiente. Seus benefícios vão desde o meio ambiente até o benefício econômico”, complementa a doutora em Ciências Ambientais.


Julieta Bramorski destaca a importância de projetos como esses em Macapá e salienta a necessidade de outras pessoas também seguirem atividades semelhantes. “Nunca tinha visto uma casa assim em Macapá, achei essa ideia bem interessante, uma ideia de baixo custo e espero que viabilizem outras pessoas se inspirarem nesse exemplo, pois o mundo ambiental agradeceria muito”, finaliza.



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