"Daqui, nós só vamos pra frente"

A frase dita por Gustavo aos 15 anos resume uma trajetória construída entre renúncias, recomeços e conquistas no handebol.
Por Juliana Leite*

Luís Gustavo da Silva Garcia, 25 anos, ou simplesmente "Macapá", como é conhecido nas quadras de handebol, começou a acompanhar jogos do esporte aos 7 anos. Mas foi aos 11 que decidiu começar a treinar. Decisão essa que marcou o início de uma trajetória que o levou a conquistar títulos, ganhar reconhecimento nacional e representar o Brasil em competições internacionais. Sua história no esporte teve início no projeto "Vida Cidadão, Faça a Sua Parte", do qual sua família já participava.
Segundo ele, a escolha pelo handebol foi muito mais uma questão de identificação do que de influência familiar. "Se fosse pela família mesmo, era mais fácil eu ir para o basquete", brinca. Ainda assim, foi o handebol que chamou sua atenção. "Tinha alguma coisa no handebol. Não era só o espírito de equipe. Ter ali o contato físico, a defesa, que eu gosto muito, e essa transição rápida para o ataque. Isso me encantava muito", relembra.
A mãe do atleta, Amanda Silva, 44 anos, acompanhou de perto esse início. Ex-jogadora de handebol e basquete, ela lembra que o começo da trajetória do filho coincidiu com o encerramento da sua própria história dentro da quadra de handebol. "Quando ele tinha 11 anos, disse que queria treinar handebol. Foi justamente quando eu parei de jogar. O meu último tênis de handebol foi o primeiro tênis dele", conta.
Aos 12 anos, Gustavo disputou sua primeira competição, jogando em uma categoria sub-16. Mesmo sendo mais novo que a maioria dos atletas, o seu desempenho chamou atenção e ele foi eleito atleta revelação. Curiosamente, essa foi a única competição que disputou em Macapá. Seu último jogo na cidade aconteceu quando tinha 13 anos, apenas cinco dias depois de completar aniversário.
A partir dali, sua trajetória no handebol seguiria por novos caminhos, agora fora do Amapá. Amanda conta que deixou ele livre para escolher o esporte que queria seguir. Antes de optar pelo handebol, ele também praticava basquete, futsal e futebol, modalidades que ele igualmente se destacava graças ao seu físico e desempenho dentro de quadra e do campo.
“Quando ele participou dessa competição e ele se destacou, eu já fiquei muito atenta, porque desde muito criança, muito criança mesmo, ele sempre teve um físico favorável, uma aptidão para todos os esportes. Ele jogava basquete muito bem, futsal muito bem, futebol de campo muito bem. [...] E quando ele escolheu o handebol, eu disse para ele que eu estava com ele, que eu iria apoiar”, conta.
Depois que o filho disse que queria seguir no handebol e transformar o esporte em algo mais do que um hobby, surgiu a primeira grande oportunidade. Em 2014, Gustavo foi convocado para a Seleção Amapaense sub-21 e, com apenas 13 anos, viajaria para disputar uma competição na Guiana Francesa.
Mas nem tudo aconteceu como o planejado. Por ser menor de idade, ele precisava de uma autorização assinada pelos pais para viajar. Como morava apenas com a mãe, Amanda precisou montar um dossiê, reunindo documentos e declarações que comprovavam a importância da viagem, e conseguiu a autorização no dia. O problema é que o passaporte ficou pronto apenas um dia depois da viagem.
Ela conta que, mesmo sabendo que não era culpa dela, se sentiu impotente, pois sabia que aquela era uma grande oportunidade para o filho. Quando o treinador voltou da competição, procurou Amanda para conversar sobre Gustavo. “No retorno de lá o professor Gleison me chamou e disse, eu acho que se o Gustavo tivesse ido, eu não sei se ele teria voltado. E aí eu disse: ‘É, então realmente, tem alguma coisa aí que eu preciso fazer'".

Fora do estado, a jornada de Gustavo começou em Guarujá, município localizado na Ilha de Santo Amaro, no litoral do estado de São Paulo. A ida não foi por acaso. Depois da oportunidade perdida de disputar a competição na Guiana Francesa e da conversa com o professor Gleison, Amanda decidiu que precisava buscar novos caminhos para ajudar o filho a realizar o sonho de viver do handebol. Então passou a procurar peneiras, testes realizados por clubes para selecionar novos atletas por todo o Brasil e, em maio de 2015, conseguiu uma oportunidade para a equipe do Guarujá, em São Paulo.
Ao fim do terceiro dia de teste, Gustavo conta que o professor Fábio, técnico do Guarujá, foi conversar com sua mãe e disse: “aqui a gente não tem muita coisa pra oferecer pra ele, mas se você conseguir levar ele na Praia Grande, eu consigo um teste pra ele”. Com a indicação, Gustavo foi até a cidade indicada e participou de uma nova avaliação em busca de uma vaga na equipe.
Depois do teste, o então técnico da equipe, Evandro Luiz, perguntou a Amanda se Gustavo já poderia permanecer na cidade para treinar. Ela respondeu que não, porque ele ainda estava em período de aula e precisava voltar a Macapá para concluir o bimestre na escola. Mas garantiu que, se tudo estivesse certo, retornariam no segundo semestre do ano e ele seria, "o seu atleta".
De volta a Macapá, a decisão já estava tomada: se Gustavo quisesse mesmo seguir a carreira no handebol, a família precisaria recomeçar a vida em outra cidade. Antes de vender tudo o que tinham e deixar para trás amigos, família e a rotina construída no Amapá, Amanda quis ter certeza de que aquele também era o sonho do filho. Na época com 14 anos, ela fez a mesma pergunta três vezes, para que não restasse nenhuma dúvida sobre a escolha.
“Eu vou lhe perguntar de novo, porque não é sobre a minha vida. Você tem certeza de que você quer ir? Você vai deixar a sua escola, seus amigos, a nossa família, vai deixar tudo isso? Aí ele disse, eu quero ser um profissional do handebol, eu quero ganhar dinheiro jogando handebol”, relembra a mãe.
Uma nova vida

No dia 25 de julho de 2015, Amanda e Gustavo deixaram Macapá para recomeçar a vida em Praia Grande. A oportunidade de ingressar em uma equipe mais estruturada trouxe alegria, mas a mudança de cidade também trouxe desafios. “Eu trabalhava 12 horas para ganhar 50 reais [...] Nós não comíamos pão, porque pão era caro. A gente só comia torrada. A gente só tinha um luxo uma vez por mês, que era comer esfirra, porque cada um era um real. Então 20 reais dava 20 esfirras. Esse era o nosso luxo”. A mãe do atleta relembra emocionada os problemas financeiros enfrentados no início.
Nove meses depois da mudança, Amanda conta que viveu um momento bem difícil, um momento de incertezas. Sem saber se conseguiria continuar, pensou em voltar para casa. Foi então que ouviu do filho uma frase que ficaria marcada, literalmente, na história dos dois. "Com nove meses que nós estávamos lá. Eu balancei. Eu virei para ele e eu disse, você quer voltar para Macapá? Eu estava chorando muito. Ele virou para mim e disse: 'Não! Daqui nós só vamos para frente'". A frase acompanhou mãe e filho desde então. Quando Gustavo completou 20 anos, os dois decidiram eternizá-la em uma tatuagem.
Apesar das dificuldades financeiras, eles encontraram em Praia Grande uma rede de apoio. Ambos ganharam uma família dentro do handebol. O técnico, os companheiros de equipe e as pessoas envolvidas no clube foram fundamentais para que os dois conseguissem enfrentar o período de adaptação longe de casa.
Gustavo permaneceu na Praia Grande por um ano e meio. Em 2017 uma mudança se fez necessária. Amanda havia conseguido um emprego na capital paulista e os dois precisaram deixar o litoral para recomeçar mais uma vez.
Na nova cidade, ela já conhecia a reputação do Colégio Amorim, uma das maiores potências do handebol escolar brasileiro, que costumava recrutar atletas. Mesmo ouvindo de muitas pessoas que conseguir uma vaga seria praticamente impossível, decidiu entrar em contato com o professor Vinícius, técnico da equipe.
Durante a conversa, explicou que o filho havia defendido a equipe de Praia Grande. A resposta do treinador veio antes mesmo que terminasse a apresentação. “Aí ele disse, por um acaso, o seu filho é um atleta, que a Praia Grande não conseguiu escrever para a competição [...] Todo mundo falou que o Amorim só ganhou porque o Macapá não tinha jogado. O seu filho é esse menino? Eu disse: ‘É’, então ele disse: ‘a partir de hoje o seu filho é meu atleta’”.

A passagem pelo Colégio Amorim abriu novas oportunidades. Gustavo participou de uma peneira no Esporte Clube Pinheiros, um dos principais clubes do país. Entre cerca de 140 atletas avaliados, apenas 8 foram selecionados, e ele estava entre eles. Apesar do bom desempenho, o clube não deu uma resposta imediata. A ligação que definiria o futuro demorava a chegar, e o atleta precisava encontrar uma equipe para dar sequência à carreira.
Foi então que Amanda voltou a procurar um antigo conhecido: o professor Maurício, da equipe de São Bernardo do Campo. No ano anterior, Gustavo havia participado de uma clínica promovida pelo clube, e o treinador já demonstrava interesse em tê-lo de forma definitiva. Na época, Amanda recusou o convite porque havia dado sua palavra de que o filho concluiria o ciclo em Praia Grande. Antes de encerrar a conversa, fez apenas um pedido: "Mas se o senhor quiser deixar a porta aberta, eu lhe agradeço". E a porta realmente permaneceu aberta.
Quando entrou em contato novamente, já morando em São Paulo e precisando de um clube para o filho, a resposta veio imediatamente. Maurício informou o dia em que Gustavo poderia se apresentar para treinar. Em 2017, ele passou a jogar pelo São Bernardo e também pelo Colégio Amorim.
Foi durante uma dessas competições que surgiu mais uma oportunidade. Gustavo chamou a atenção de Francisco, treinador do Nacional, de Santa Catarina. No ano seguinte, em 2018, ele se mudou sozinho para defender a equipe catarinense, onde permaneceu pelos sete anos seguintes. "Eu joguei sete anos da minha vida lá, foi praticamente a minha vida toda no handebol", diz.

A rotina em Santa Catarina ia muito além dos treinos. Ao mesmo tempo em que construía a carreira dentro das quadras, Gustavo também iniciou a graduação em Fisioterapia na UniSul (Universidade do Sul de Santa Catarina) . A universidade era parceira do clube e oferecia bolsa integral aos atletas, o que tornou possível conciliar os estudos com o handebol.
Os anos em Santa Catarina renderam alguns dos principais títulos da carreira. Em 2021, conquistou o Campeonato Brasileiro Júnior. Dois anos depois, foi eleito o Melhor Jogador da Liga Nacional de Handebol. Em 2024, recebeu o prêmio de MVP do Campeonato Sul-Centro-Americano de Clubes, considerado a "Libertadores do Handebol".
O desempenho dentro das quadras também abriu espaço para realizar outro sonho, vestir a camisa da Seleção Brasileira. A primeira convocação veio em 2019, quando conquistou o Campeonato Sul-Americano Juvenil. Dois anos depois, voltou a defender o Brasil e levantou mais um título, desta vez o Pan-Americano Sub-23. Para Gustavo, representar o país sempre teve um significado especial. "Vestir a camisa da seleção é uma sensação incrível."
Depois de sete anos defendendo o Nacional e acumulando títulos individuais e coletivos, a carreira de Gustavo deu mais um salto. Em 2024, ele chamou a atenção do Blendio Sinfín, da Espanha. O contrato marcou a primeira experiência internacional do atleta e a realização de mais um objetivo construído ao longo dos anos. "Quando eu cheguei aqui na Espanha, no começo foi um pouco complicado por causa do idioma. Você pode tentar estudar um pouco, mas acaba passando por dificuldades. Nos primeiros dois meses só. Depois eu já estava falando bem, entendendo tudo".
Além da língua, a adaptação também aconteceu dentro das quadras. O ritmo de jogo era mais intenso e, diferente da rotina no Brasil, onde conciliava treinos, estudos e estágio, na Espanha passou a dedicar-se exclusivamente ao handebol e à preparação física.
Para Amanda, a ida do filho para a Europa representou mais uma confirmação de que a decisão tomada anos antes havia valido a pena. Na verdade, como ela mesma diz, aquele sonho já não pertencia apenas ao filho.
Atualmente, Gustavo segue construindo a carreira no handebol espanhol. Nesta temporada, o atleta inicia um novo capítulo ao defender o O.A.R. Coruña, na carreira europeia.

De volta às origens
Mesmo morando fora do país, Gustavo ainda volta ao Amapá sempre que pode para visitar amigos e familiares. Em 2023, participou da primeira edição do Festival Arremesso para a Vida, promovido pelo projeto de mesmo nome. Apesar de não acompanhar de perto o handebol amapaense, o atleta diz que, pelas conversas com amigos e pessoas próximas ao esporte, percebe que a modalidade continua enfrentando dificuldades no estado.
A percepção também é compartilhada por quem acompanha o handebol amapaense desde o início da carreira de Gustavo. Primeiro treinador do atleta é conhecido nas quadras como Macarrão, o professor Gleison afirma que a modalidade ainda enfrenta dificuldades, principalmente na formação de novos atletas. "Hoje a gente se resume a duas, três, às vezes quatro equipes quando tem. E o que eu vejo é que a base no Estado não está sendo trabalhada...".
Ainda assim, ele acredita que histórias como a de Gustavo ajudam a manter vivo o sonho de quem está começando. Sempre que o atleta volta ao Amapá e participa de atividades com crianças e adolescentes, o impacto é imediato.

"As crianças, quando veem ele, que ele chega, que ele conversa, que ele fala, eles ficam maravilhados. Isso é muito importante. Eu sempre digo para ele: quando você estiver aqui, fale da sua vida, fale o que você passou, o que você sentiu, o que é o esporte para ti, porque isso está plantando uma semente”.
Aos 25 anos, Gustavo segue construindo a carreira no handebol europeu. O menino que começou em um projeto social de Macapá transformou o sonho de viver do esporte em realidade. Mas essa história começou muito antes dos títulos, quando uma mãe decidiu que esperaria menos pelas oportunidades e passaria a construí-las. "Ninguém me deu oportunidade, eu criei a oportunidade", finaliza.
*Reportagem produzida na disciplina de Jornalismo Esportivo, ministrada pelo professor Dr. Alan Milhomem.




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