• Thales Lima

O quilombo que cria abelhas nativas e preserva o meio ambiente

Atualizado: 7 de ago. de 2021

A criação de abelhas nativas começou a mais de 15 anos e vem garantindo rentabilidade financeira para todos na comunidade.


Já chegaram a colher 750kg de mel, a procura pelo Mel do Quilombo é muito grande. Foto: Arquivo pessoal

A comunidade quilombola Mel da Pedreira, localizada a 40km de Macapá, capital do Amapá, leva esse nome em homenagem ao seu maior tesouro: as abelhas nativas. O quilombo possui, hoje, 23 criadores de abelhas, nove deles já trabalham com a meliponicultura de forma independente e, ao todo, a comunidade já conta com 450 colméias produtivas. A tendência é esse número crescer, com a contribuição de todos os moradores e a responsabilidade ambiental.

Diferente da apicultura, criação de abelhas africanizadas com ferrão introduzidas no Brasil durante o período colonial, a meliponicultura trabalha com abelhas brasileiras. Essas abelhas nativas têm uma produção diferente das criadas por apicultores, e seu mel tem um sabor característico.

Quem conta é Elizeu Cirilo, meliponicultor, que atua há mais de 15 anos com a criação de abelhas sem ferrão para extrair o mel. Ele gerencia o meliponário matriz na comunidade e diz que através da capacitação com o biólogo Richardson Frazão, pode aprender a trabalhar com a espécie de abelha sem ferrão.

“A espécie no qual a gente mais se identificou foi a uruçu cizenta e a uruçu amarela, também conhecidas popularmente como Tiuba e Jurupará” – respectivamente – “como nosso propósito era a produção de mel, a gente viu que tínhamos a possibilidade com essas duas espécies”, conta.

Elizeu fala que os primeiros moradores, seus pais e avós, chegaram na região com o propósito de criar porcos e trabalhar com a produção de farinha. Observaram que na mata tinha muito dessas espécies de abelhas, mas nunca foi uma realidade criá-las. Denominaram essa região de Ressaca do Mel, depois virou Comunidade Quilombola Mel da Pedreira.

Os primeiros moradores tinham a intenção de criar porcos. Foto: Divulgação redes sociais

“As pessoas chegavam aqui na nossa comunidade com o intuito de comprar mel pois viam a placa lá na estrada: Comunidade Mel da Pedreira. Entravam aqui e a gente não tinha o mel para oferecer. Hoje a gente tem para oferecer esse produto!”, diz Elizeu.

O meliponário que Elizeu cuida possui 260 colméias. Atualmente, o produtor possui treze pessoas trabalhando junto com ele e as abelhas, elas produzindo mel e eles observando os bioindicadores para ter uma colmeia forte e produtiva. Elizeu e as treze pessoas aprenderam a multiplicação de abelhas e colmeias que proporcionou um aumento na produção.

“As colméias não se multiplicam por elas sós. De uma colméia é possível você dividir em duas a cada quatro meses. Assim a gente multiplica o número de abelhas. Por ser uma espécie exótica, de pouca produção de mel. A gente tem que ter bastante coméias”, garante o produtor.

Para garantir a qualidade e a quantidade de mel produzido, Elizeu conta, também, com toda a comunidade na preservação do meio ambiente. Tenta controlar as queimadas e discute a manutenção das árvores em pé entre os vizinhos.

As abelhas sem ferrões não produzem favos e sim bolsas onde o mel é armazenado. Foto: Divulgação redes sociais

“Nós tentamos passar isso para as nossas crianças e para as pessoas da nossa comunidade. As árvores têm seu valor muito mais em pé. Tanto para nós como para as abelhas. As árvores fazem o trabalho da oxigenação para a humanidade e proporciona às abelhas néctar e pólen para terem o mel para no final do ano a gente ter o nosso décimo terceiro, como a gente fala aqui. São as abelhas que nos proporcionam!”, comenta entusiasmado.

A coleta do mel no quilombo é realizada sempre no final do verão, entre novembro e dezembro. Chegando a coletar 750 kg de mel. Elizeu vende a 100 reais o litro do mel, fazendo o engarrafamento e etiquetagem de forma manual.

A procura pelo produto é muito grande, faltando para quem quer. O mel pode ser encontrado diretamente na Cantina do Quilombo ou com os próprios produtores. Existem, ainda, aqueles que compram em grande quantidade para revender na cidade.

Os meliponicultores querem seu produto nos supermercados, farmácias e mercearias. Foto: Divulgação redes sociais

“Estamos lutando para ver se conseguimos a certificação do mel e a implantação da casa do mel para fazer o engarrafamento desse produto. Para poder colocarmos nas prateleiras das farmácias, supermercados e mercantis da cidade”, diz Elizeu.

Para contribuir na coleta do néctar e do pólen pelas abelhas, Elizeu e os moradores do quilombo criaram uma floresta frutífera especial, e o melhor, sem derrubar nenhuma árvore. Confira como é possível produzir e gerar renda preservando o meio ambiente no #06 episódio do Fala Amazônia - Podcast, disponível no seu streaming favorito.


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