top of page

O que não se discute sobre o desmatamento no Amapá?

  • Foto do escritor: AGCom
    AGCom
  • 10 de out. de 2023
  • 6 min de leitura

Atualizado: 24 de out. de 2023

A maior ameaça ocorre nos territórios de Savana. Faltam investimento, monitoramento e combate para preservação do ecossistema no estado.


Anália Barreto e Giovane Brito


A pluralidade da Amazônia amapaense se expressa na sociobiodiversidade do seu território que, em 142.815 km², abriga diferentes ecossistemas e comunidades singulares. No entanto, essa riqueza é ameaçada por empreendimentos hidrelétricos, extração de madeira, mineração, o crescente rebanho bubalino em campos alagados e a monocultura do grão da soja, na savana amapaense.

ree
Savana Amapaense Foto: Orleno Marques da Silva Júnior (2023)

O Amapá está inserido completamente no bioma Amazônia e 72% de suas terras são áreas protegidas, segundo o Atlas das Unidades de Conservação do Estado do Amapá. O território é composto pelos ecossistemas de florestas tropicais, terra firme e várzea, manguezais no litoral e a savana amazônica, que se caracteriza pela formação de vegetação semelhante à do Cerrado.


ree
Mapa dos ecossistemas do Amapá Fonte: Macrodiagnóstico do Estado do Amapá/Primeira Aproximação do ZEE (2008)

O monitoramento e a proteção em áreas de florestas freiam a destruição. Diagnósticos anuais do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), operado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), apontam que o Amapá tem a menor taxa de desmatamento da região amazônica. Porém, quando se olha para além das florestas amazônicas, não se tem informações concretas sobre a exploração que atinge os outros ecossistemas do Amapá.


De acordo com o pesquisador Marcelo Carim, do Zoneamento Ecológico Econômico (ZEE), é necessário pesquisar para quantificar a utilização desses territórios. “No Amapá, não se tem uma visão clara dessa exploração. Você sabe que tem ocupação, você sabe que tem a intenção de produzir grãos, você sabe que precisa transformar campos, mas o que está sendo explorado de fato!? A ideia ainda é uma incógnita. Você tem que conhecer o ambiente, é necessário estruturar estudos sobre”, explica o pesquisador.


Monitoramento no Amapá e seus desafios


O Prodes gera dados de desmatamento por corte raso na Amazônia Legal, desde 1988, tornando-se referência no combate ao desmatamento. Essas informações são fundamentais para formulação de políticas públicas de combate à derrubada da floresta. Entre 1988 e 2020, o Amapá registrou 1.696 km² de área desmatada, o que corresponde a menos de 0,40% do índice total de desmatamento da Amazônia Legal para este mesmo período, conforme o Prodes.


Quando falamos em desmatamento e monitoramento no Amapá, é imprescindível considerar a posição geográfica do estado, localizado na região costeira, próxima ao Oceano Atlântico, que dá condições específicas e únicas ao território no país. Esse é um primeiro desafio para o monitoramento. O Amapá está situado na faixa equatorial sob forte influência da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) que caracteriza o céu da Amazônia amapaense com alta incidência de nuvens o ano inteiro. Segundo Cláudia Funi, especialista em geoprocessamento e ordenamento territorial do Núcleo de Pesquisas Aquáticas do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Amapá (Iepa), a presença desse fenômeno na região dificulta o mapeamento das alterações nas coberturas da terra pelo monitoramento Prodes.


“O Amapá é um dos estados com maior incidência de nuvens do planeta. Então, nessa metodologia, é necessária a luz do sol. Com as nuvens não é possível ver o que está embaixo. A gente sai perdendo em relação aos outros estados que não têm essa dificuldade porque, às vezes, o Amapá fica até 90% encoberto, e isso reflete nos dados que apontam uma baixa no desmatamento”, defende Cláudia.

ree
Floresta aluvial, de várzea no Bailique (Macapá) Foto Orleno Marques da Silva Júnior (2023)

No Plano de Prevenção e Controle de Desmatamento, Queimadas e Incêndios Florestais do Estado do Amapá (PPCDAP) também consta a observação sobre a ZCIT e sua influente cobertura, havendo a necessidade de separação das imagens de satélite com 20% de nuvens a menos e da utilização da metodologia visual e manual para alcançar menor interferência na construção do Boletim de Desmatamento no estado. Lúbia Vinhas, pesquisadora da Divisão da Terra e Geoinformática no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), explica que a construção da metodologia do monitoramento Prodes considerou o contexto da Amazônia e suas características particulares “como padrões de chuva e cobertura de nuvens a depender da latitude para definir quais as melhores janelas de observação nas imagens por satélite”, explica.


Segundo a pesquisadora, a própria análise garante que a taxa seja uma estimativa que considera os anos anteriores como parâmetro. “A gente vem utilizando o Prodes porque a série é importante, você consegue saber se o desmatamento aumentou ou diminuiu. O Prodes tem uma metodologia clara e aberta e o que ele entrega é baseado nessa metodologia”, complementa Lúbia.

ree
Floresta em Ferreira Gomes próximo ao barramento de Coaracy Nunes, AP Foto: Orleno Marques da Silva Júnior (2023)

Um segundo desafio é a característica do desmatamento amapaense, geralmente realizado em ramais e espacialmente menores que a imagem capturada pelo sistema nacional. Entretanto, fragmentos menores conseguem ser vistos por meio da metodologia utilizada pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema). O diretor de desenvolvimento regional da Sema, Marcelo Almeida, afirma que a metodologia utilizada pela Sema para monitorar o desmatamento no Amapá também é baseada em sensores ópticos, mas diferente do Prodes, cuja resolução espacial é de 30m². A Sema analisa imagens que podem chegar até 5m² de resolução espacial. “A taxa Prodes é para comparação, a nossa metodologia consegue enxergar muito mais desmatamento que o Prodes. Usamos uma tecnologia bastante rudimentar, você vai fazendo manualmente e temos 3 ou 4 técnicos analisando as imagens por ano”, explica.


Utilizando-se de metodologia manual, o desmatamento contabilizado pelo Boletim do Desmatamento no Estado do Amapá, entre 2002 e 2020, foi de 3.104,79 km². O Relatório Anual de Desmatamento no Brasil 2022 mostra, respectivamente, Pará, Amazonas e Mato Grosso como os líderes do ranking de alertas de desmatamento, enquanto o Amapá ocupa a 23º posição. O que poderia trazer ao Amapá a certeza do estado mais preservado da Amazônia. Mas, um porém: no Amapá, a savana amazônica não é monitorada nem pelo Inpe, nem pela Sema.


O que acontece na savana, fica na savana

ree
Savana Amapaense Foto: William Douglas Carvalho

No contexto amapaense, a savana amazônica corresponde a 889.714,6945 km², localizados em 11 dos 16 municípios do estado. Esse ecossistema para os instrumentos de monitoramento, tanto na esfera federal quanto na estadual, é caracterizado como área de não-floresta e não possui nenhum instrumento de fiscalização do uso, ocupação ou conservação.


Na pesquisa Padrões espaciais e temporais do desmatamento na Reserva Extrativista do Rio Cajari, de Cláudia Funi, a savana amapaense é de uma condição única em toda a Amazônia. Somente na nossa região há contato da savana com o Atlântico e com a floresta de terra firme. Funi acredita que muito do desmatamento que ocorre no Amapá acontece no encontro entre a floresta e a savana, correspondente à área sem monitoramento. “Nas imagens ópticas de monitoramento por satélite do Prodes, esse encontro entre a savana e a floresta também é considerado não-floresta e todo o desmatamento que acontece nessa faixa deixa de ser avaliado para a taxa”, complementa Cláudia.

ree
Área de Transição para o campo, em Itaubal Foto: Orleno Marques da Silva Júnior (2023)

O instrumento público mais recente que se tem sobre a savana amapaense é o Zoneamento Socioambiental do Cerrado do Amapá (ZSC), que indica o ecossistema com “grande potencial para a produção de grãos, silvicultura e pecuária”, ressaltando a proximidade com os mercados importadores a fim de tornar a savana amapaense “um ecossistema competitivo no mercado internacional”.


No entanto, um estudo realizado pela Embrapa, em 2007, já apontava que o aumento das emissões de gases do efeito estufa - entre eles o CO² - também são atribuídos às práticas agrícolas como a aplicação de fertilizantes, revolvimento do solo ou incorporação de resíduos. A instalação do cultivo de soja se mostra uma ação contrária ao enfrentamento à crise climática.


Além disso, a única lei que versa sobre áreas de savana é o Código Florestal Brasileiro, Lei Nº 12.651 de maio de 2012, no Cap IV. Estabelece que somente 35% desse ambiente deve ser preservado dentro da Amazônia legal e os outros 65% podem sofrer exploração. Para subsidiar a criação de um Código Florestal Estadual, que direcione o uso da savana aqui no Amapá, são necessários estudos de impacto ambiental, reconhecimento de fauna e flora bem como dos recursos naturais.


Para Marcelo Carim, atuante na pesquisa de não-florestas no ZEE do Amapá, o monitoramento só será possível nesse ecossistema quando houver a criação de uma métrica. “Precisa ser funcional, ela tem que entender um ambiente como um todo, com suas complexidades e talvez essa condição da Amazônia que é muito mais da nossa Amazônia”, afirma.


A Coordenadora para Clima e Serviços Ambientais da Sema, Mariane Nardi, ressalta a importância de uma estrutura governamental para o monitoramento do ecossistema de Savana e conta como a falta de verba dificulta na ampliação e manutenção da preservação do meio ambiente no estado do Amapá. "Devido a taxa de desmatamento do estado constar nos monitoramentos como uma das menores do Brasil, cria-se uma dificuldade de investimento para preservação do estado, afetando o combate à destruição dos nossos ecossistemas e a criação de políticas públicas ambientais", explica Nardi.


Mesmo com as dificuldades de investimento para proteção e desenvolvimento de políticas de preservação ambiental no estado, algumas ações vêm sendo realizadas como o Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento e Queimadas no Amapá (PPCDAP) e o Programa de REDD+ Jurisdicional e Voluntário. O primeiro busca a redução do desmatamento e das queimadas no Amapá enquanto o segundo incentiva, por meio de recursos financeiros, atividades florestais sustentáveis que contribuam para o cuidado e controle dos serviços derivados das florestas.


Para este ano, a Sema-AP prevê o lançamento do Zoneamento Ecológico Econômico (ZEE), até o final de 2023. Esse será o diagnóstico com maior dimensão da savana, revelando relação sistêmica e conectividade com os demais ecossistemas. Com a divulgação dessa pesquisa, ainda sem data de lançamento, será possível delimitar medidas de preservação das biodiversidades presentes no estado e incentivar alternativas de uso sustentável dos recursos naturais e utilização econômicas e sociais adequadas a realidade cultural e regional da área pesquisada. Os monitoramentos são indispensáveis na criação de políticas públicas voltadas para a proteção ambiental, através de mapeamento para apoiar o planejamento territorial da localidade em algumas vertentes, mas principalmente auxiliar no entendimento da realidade dos locais que ainda passam pelo processo de descobertas científicas.

Comentários


WhatsApp Image 2022-05-15 at 14.41.58 (1).jpeg
  • Branca ícone do YouTube
  • Branco Facebook Ícone
  • Branco Twitter Ícone
  • Branca Ícone Instagram
bottom of page