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Esse Texto é sobre Mulheres

Atualizado: 16 de abr. de 2021

Por Elane Albuquerque

Professora Ativista Social Feminista e Antiracista

Ekede de Xangô


Quando pensei em escrever um texto ou talvez um depoimento sobre a experiência do relacionamento que tive, nos últimos meses, com um homem, meu primeiro impulso foi de expor, denunciar e apontar culpados pelo vivido e experimentado. Culpar e denunciar a pessoa que eu julgava ser o personagem principal dessa minha história. Culpar os espaços que julgo acolhedores, mas que, de certa forma, abrigam a existência desse tipo de “criatura”. Culpar as mulheres que “se permitem” viver essa situação, como se essa decisão fosse simples... Enfim, queria achar culpados/as pela minha experiência ruim, pelos meus enganos, pelas minhas arranhaduras.

Guardei esse impulso inicial e consegui, com esse tempo a mais, revisitar essa experiência. E, como faço sempre, compreendê-la a partir da minha percepção de mulher e de mulher negra, das migalhas que nos oferecem neste “mercado afetivo” e, muitas vezes, a gente agarra e agradece. Por isso, esse texto agora emerge deste lugar do feminino e da identidade política, colocando-me na centralidade desta história. Eu sou a personagem principal da minha vida, como tem que ser.

Pouco depois que conheci esse outro personagem – coadjuvante -, algumas mulheres - vejam bem, estou falando de mulheres - me procuraram para contar suas experiências com esse personagem. Embora eu possa identificá-lo como vilão, ele é e sempre será um personagem secundário para mim, porque minha narrativa tem a centralidade nas mulheres.

Então, algumas dessas mulheres chegaram por meio de amigas mais próximas, que foram suas interlocutoras. As vidas dessas mulheres foram profundamente marcadas por suas experiências traumatizantes com esse coadjuvante, resultando em situações extremas: uma delas vendeu sua casa, por exemplo, e outra temia se identificar e ele saber... Era a presença do medo em todos os relatos.

Hoje, com poucas leituras de depoimentos e estudos superficiais sobre a psicologia, penso que junto com estas mulheres, experimentei os já conhecidos “relacionamentos abusivos”. Mesmo correndo o risco de uma classificação errônea, de uma leiga, identifico que nós todas conhecemos uma pessoa narcisista perversa e nos envolvemos com ele.

Uma dessas mulheres me marcou. Não veio por intermédio de ninguém, mas através de uma solicitação de amizade no Facebook. Aceitei essa “amizade” porque encontrei em seu perfil muita identificação comigo, arte, cultura, religiosidade... Era uma mulher linda e de largos sorrisos, nas fotos. Poderia ser, sem dúvida, uma das minhas amigas, se a circunstância fosse outra. Essa mulher - vou sempre destacar a identidade de gênero -, quase que imediatamente após a minha aceitação, entrou em contato comigo no chat, se identificando como esposa. Ela me bombardeou com fatos e fotos, que ilustravam seu dolorido e desesperado depoimento. Era uma mulher em estado de sofrimento, fazendo o papel que qualquer outra mulher como ela (ou como eu) desempenharia. Ela alertou, implorou, se expôs, colocou a nudez desse amor que lhe feria a alma e a dignidade.

E, o que eu fiz com isso? Minha escuta inicial foi de espanto. Eu estava assustada e perplexa com tudo que me veio de uma vez só em uma única hora. Acreditei em tudo. Mas, no final, fiz exatamente o que ela me implorou para não fazer e me encontrei com ele, que nesta altura estava enlouquecido ligando para se explicar. Fui ao seu encontro e ouvi a versão dele. Eu me confortei na versão que mexia com minha vaidade e autoestima. Silenciei a fala dessa mulher, suas dores e desconsiderei seu alerta, como fiz com as outras.

É “cancelamento” agora o nome que se dá para isso? Pois, “cancelei” essa mulher. Pior, usei-a como justificativa de minha decisão para continuar nesta relação - era uma mulher em sofrimento somente por estar perdendo seu amor. Ela realmente amava e acho que ainda ama. Compadeci-me dela, no sentido de pena, piedade. E, fiquei feliz. Sentia-me superior, por estar com pena dela. Porque foi assim que minha vaidade e autoestima incentivaram-me.

Ela? Logicamente, me acusou de não ser quem eu parecia ser nas minhas redes sociais, ou seja, uma ativista negra feminista. Xingou, me odiou, me desejou sofrimento e finalmente me bloqueou. Ela, de fato, esperava sensatez ou, pelo menos, a escuta sensível - o apoio de uma mulher como eu e ela.


Vivi os primeiros dias deste contato chorando copiosamente, com febre, pensando nesta mulher e no que ela me falava, mas me consolava com os carinhos e com o possível amor que se apresentava para mim - e que também me envaidecia. No final das contas, essa mulher foi sempre presente nesta história, que eu pensava ser “a dois” (risos). E, como ela disse que seria, foi o pivô de muitas brigas e desconfianças já que o contato entre os dois nunca foi interrompido. Ele jurava que faria o rompimento nas vezes em que eu descobria novos contatos entre eles.

Com o tempo, deixei para lá, como deixei outras mulheres. Afinal, ele estava comigo (risos quando escrevo isso... Precisa ser cômico para não ser mais trágico). Voltando a mim, personagem principal, essa relação foi relativamente breve. Durou pouco mais de 5 meses, mas tem sido profundamente marcante, na minha experiência como mulher que se julgava madura e com experiência, conhecimento e autoestima suficiente para não viver mais certas relações.

Resumo deste namoro: eu achava ser a legítima “namorada”, que frequentava a casa; dormia dias seguidos na casa onde ele mora com a família; participava das reuniões familiares e fui sempre muito bem recebida por todos/as, inclusive pela matriarca da família - outra mulher. Inclusive, depois descobri não ser a única a frequentar a casa e ser tratada desta forma... Os momentos bons eram breves e passageiros, desde o início. Ele “surtava” com tudo e com todas as minhas outras relações (amigas, família, amigos); acusou-me de ter relacionamentos sexuais com todas as minhas amigas (até com mulheres da minha família); enviou áudios e mensagens ofensivas e ameaçadoras. Eu apagava imediatamente com vergonha de mim mesma. Em público, ele me envergonhava e constrangia com as mesmas reações violentas. Tudo seguido de intermináveis desculpas chorosas, se vitimizando.

E eu? Desculpava e minimizava a gravidade da violência verbal e psicológica e me aconchegava novamente nos carinhos, elogios, nas falas com verbos no tempo futuro... Afinal, tinha tantas identidades comuns, afins... O cara era do candomblé como eu, capoeirista, percussionista, anti-Bolsonaro e adorava cozinhar para mim! Perfeição demais... O resto se conserta.

E as mulheres? Quando eu tinha novas informações sobre suas experiências anteriores, carregadas de violências, inclusive e, principalmente, física, me convencia que foi em outro tempo. Quando me contavam que o tinham visto com outra pessoa, em algum lugar, optava pela versão dele - não por acreditar nele, mas por ser mais confortante para mim. Ou seja, durante toda a relação eu minimizei ou cancelei ou invisibilizei as outras mulheres, personagens importantes sempre na minha vida e também nesta relação. Anulei a mim e anulei todas as outras. Tentei cuidar dessa relação a partir do outro, como sempre fazemos e somos ensinadas.

Entrei numa onda de querer entender como ele pensava, sentia e porque usava dispositivos violentos, como respostas a qualquer indício contrário às vontades ou expectativas dele, por menor que fosse. Li muito sobre o assunto e iniciei o diálogo com ele sobre o problema, ao mesmo tempo em que a relação para mim começou a ser sustentada apenas pela relação sexual. Nestas alturas, eu já apresentava desencanto pelo homem com quem eu havia criado expectativas não concretizadas. Ele era entediante para mim e, mesmo assim, “fui que fui ficando”. Eu estava conhecendo um outro homem, que em nada me interessava. Passou a ser um menino com necessidades e cuidados que eu, como mulher, precisava suprir. Meu empreendimento foi então pela “cura” desta pessoa (novamente rindo sozinha aqui. Quem eu seria para curar alguém desse nível?).

Procurei pessoas para nos ajudar e falamos sobre terapia. Já percebendo meu desinteresse por ele, passou a usar como estratégia justamente os problemas psicológicos e traumas da infância e, por isso, ele precisava de mim e estaria disposto a se tratar para ficar comigo. Neste momento, eu já não queria mais namorar ou ter compromisso como casal. Então, ele investia no meu sentimento de “salvadora”, “cuidadora”, “acolhedora”. Fui tudo isso com ele, mas não com as mulheres que ele havia se relacionado.

Ele fazia exibição de suas supostas mudanças nas redes sociais, postava fotos nossas, se matriculou para voltar aos estudos, se posicionava politicamente nas conversas ou me apoiava em debates do tipo, mas em troca queria e exigia sempre meu reconhecimento.

Então, veio a quarentena do Covid-19. Criei uma situação em que me tornei suspeita e não poderia mais encontrá-lo. Ele insistia em vir cuidar de mim e eu não aceitei. Nossos contatos foram se resumindo ao whatsapp, as redes sociais e os telefonemas. Sempre com as violências verbais. Até eu finalmente... Ufaaaaa! Claro que tinha que ter um final. Reconheci que o ciclo não se romperia sem a minha decisão e ação.

Incentivada pelas mulheres da minha vida, minhas amigas, filha, pelas leituras sobre a temática, pela fé e força na ancestralidade e pelo distanciamento físico, decidi conservar as mensagens e os áudios do último “surto” dele. Registrei um Boletim de Ocorrência e decidi por ter “contato zero”, conforme orientava minhas leituras sobre o assunto.

Passaram-se 3 ou 4 dias. Houve várias tentativas de contato até que ele acabou por me mandar uma foto junto a uma pessoa muito próxima de mim e com quem já vinha se relacionando há algum tempo. O susto foi grande. Como assim?! O cara estava chorando e fazendo declarações de amor, músicas, etc., etc., etc... Meu impulso foi exatamente o mesmo da personagem que apresentei no início deste texto. Entrei em contato com ela, a mulher próxima a mim, a quem também a bombardeei com minhas informações e experiência.

Agora, percebo. Mais que a minha história, essa é a história de mulheres. Não é a história dele, mas a minha história que se entrelaça com todas as outras mulheres que passaram e que, infelizmente, passarão. Não sei qual será a decisão da minha amiga, mas agora compreendi que me envolver nesta trama nefasta de agressões e violências psicológicas revelou minha posição contraditória, na qual anulei as histórias de outras mulheres para vivenciar minha vaidade, meu desejo e minha expectativa criada, minha verdade.

Mas, foram outras mulheres, as minhas mulheres, suas escutas, seus colos, apoios, avaliações e, quando necessário, silêncios, que me ajudaram a encurtar essa história e não adoecer totalmente, não me perder e a fazer o caminho de volta para esse reencontro comigo.

Alguns cuidados vieram de homens, amigos/irmãos. Na verdade, nunca, em nenhum momento, eu estive só. Nunca estive sem essa força do feminino, que vem das outras, dos outros e delas, minhas ancestrais, minhas yabás.

Então, esse texto, essa narrativa, não se trata de denunciar, culpar ou me vitimizar. Mas de destacar a minha mulher e as outras mulheres que fizeram e farão sempre parte desta história e de todas as histórias de minha vida. É a narrativa de uma mulher para outras mulheres, em agradecimento e também pedidos de desculpas. Também é um texto para me desculpar, me perdoar por ter me escondido de mim, por ter silenciado minha essência e por ter agido desta mesma forma com outras mulheres, mesmo as que estavam próximas de mim. Estou me perdoando. Estou perdoada.



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