• Lorena Lima

“Ele não me bate, só me xinga, maltrata e faz chantagem emocional”: entenda a violência psicológica

Especialistas afirmam que tabus acerca de doenças psíquicas e sociedade machista dificultam mulheres a denunciar crime

(Foto: Lorena Lima)

No dia 28 de julho deste ano, na data de aniversário de 15 anos da Lei Maria da Penha, o Diário da União sancionou a LEI Nº 14.188 criminalizando a violência psicológica contra as mulheres. Segundo lei “ § 13. Se a lesão for praticada contra a mulher, por razões da condição do sexo feminino, nos termos do § 2º-A do art. 121 deste Código: Pena - reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro anos)." (NR) "Violência psicológica contra a mulher significa:

Art. 147-B. Causar dano emocional à mulher que a prejudique e perturbe seu pleno desenvolvimento ou que vise a degradar ou a controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, chantagem, ridicularização, limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que cause prejuízo à sua saúde psicológica e autodeterminação.

(lei n° 14.188 que criminaliza violência psicológica, imagem do site Diário da União)

A violência psicológica teve uma crescente significativa em comparação a violência física, porque é invisível para algumas pessoas. Para Patrícia Palheta, que trabalha como assistente social no Centro de Atendimento a Mulher e a Família (CAMUF) e é ativista feminista na Liga de Mulheres, é uma das piores formas de violência contra mulher, até mais que a violência física. “Algumas pessoas categorizam como “frescura”, “chatice” e vai ficando camuflado, há intenções perversas e as pessoas acham que não é grave. Se tornam menos visíveis pelos tabus que norteiam a violência psicológica, da mesma forma a depressão é taxada como frescura”.

“Quando vamos analisar esses itens na prática são coisas que passam despercebidas, por exemplo quando a mulher quer ir a algum lugar e o homem fala de forma ‘romantizada’ que é melhor ficar com ele vai passando despercebido. Até chegar no ponto de esse controle estar muito além de não poder sair com um amigo, pode ser proibir de visitar um familiar, impedir de estudar, trabalhar, não achar necessário que a mulher tenha momentos só seus, tem que estar só em momentos com ele”, exemplifica a assistente social.

(Ilustração: Lorena Lima)

Para Patrícia só a lei não basta para combater, a gente não pode só punir, só a lei não basta, caso sim não haveria tantos índices altos de feminicídio e tantos casos de violência contra a mulher. “É preciso que a gente tenha conscientização e educação. Ela começa dentro de casa, eu crio homens e mulheres e faço essa educação de forma igual, não criando mulheres para casar e serem donas de casa e homens para serem ‘garanhões’, não vou tá tendo educação de gênero. Educando os filhos para respeitarem as mulheres, e elas para estudar e trabalhar. Até na escola há professores com mentalidade machista, e educação é um dos caminhos para mudar o quadro crítico de violência contra mulher, todos devemos nos responsabilizar e não fechar os olhos quando presenciamos algum tipo de violência contra a mulher”.

Algumas mulheres não têm conhecimento do que significa as formas de violência psicológica previstas por lei, mas na prática existem várias. Uma delas é o tratamento de silêncio, que é quando a mulher faz algo que na cabeça do homem não é adequado e ele passa a tratá-la com frieza, não conversa, e isso faz com que ela se sinta mais culpada ainda e vai assumir a culpa de que ela ‘tem que apanhar e sofrer e tá naquela relação porque a culpa é dela’.

(Foto: Lorena Lima)

Há também o isolamento, que a mulher não pode sair, não pode ter amizade nem ter contato com os familiares dela. Isso acontece para que ela se sinta enfraquecida e não tenha apoio de ninguém, e quando ela não tem apoio de ninguém dificilmente consegue sair do cenário de abuso psicológico. A rede de apoio precisa existir, mesmo que a vítima permaneça com seu abusador, para que ela se sinta segura em sair do ciclo de violência quando se sentir pronta

A assistente social exemplifica algumas das diversas formas de violência psicológica:

  • Há uma em que o agressor faz com que a vítima se comporte como ‘louca’, ele tenta distorcer as conversas e ela se questiona se estava mesmo certa, porque ele distorce a mente e a realidade. Chega até a omitir algumas informações para que ela perceba que ela não está bem e no atendimento com juiz ele diga que ela está exagerando e é coisa da cabeça dela, por exemplo. Essas frases ditas pelos agressores que querem confundir a mente da mulher e desencadear outras patologias que possam prejudicar mais ainda elas: como a depressão, síndrome do pânico, crises de ansiedade, confusão mental;

  • As pessoas vão ver o comportamento do homem e culpar a mulher, porque ela vai estar desequilibrada, sendo que foi ele que fez o cenário para que ela se sinta dessa forma.

  • Controle do whatsapp pedindo foto de onde ela tá, pede print das conversas, liga em chamada de vídeo para saber se ela realmente tá no lugar que disse; isso é uma violência psicológica gravíssima.

  • Ridicularizar com palavras ofensivas que para eles é normal, enquanto a elas anos e anos ouvindo desencadeia doenças mentais, problemas psíquicos físicos. A mulher desenvolve dor de cabeça, estresse, manchas na pele, queda de cabelo, emagrecimento, gastrite, tudo por conta do reflexo de violências psicológicas.

(Ilustração: Lorena Lima)

As mulheres podem provar através de laudos psicológicos, prints de conversas por aplicativos de mensagem, áudios e com testemunhas diretas e indiretas. Só a palavra da mulher é válida, mas é importante ter provas.

Uma mulher nos concedeu entrevista sobre seu sofrimento, e para a segurança dela vamos preservar sua identidade e utilizar um nome falso. Maria vive um relacionamento há alguns anos e relatou precisar lidar com muitas coisas para encaixar no ideal de seu companheiro. “Meus amigos, sinto tanto por deixar eles, mas é difícil, difícil ter tudo. Eu sou uma pessoa que ama pessoas e ama conversar, só que nesse meu relacionamento é realmente difícil. Eu sei que não é normal e eu não sou completamente feliz”.

Maria vive um relacionamento no qual não é permitido ter contato com seus amigos, e sempre precisa contar tudo que falou com a mãe ao companheiro. “Ele não vê necessidade de eu ficar falando com outra pessoa, ele tem os amigos dele pra jogar mas eu não posso ficar uma tarde ou noite conversando com os meus amigos porque é como se eu tivesse fazendo alguma coisa errada. Eu não posso ir na casa do meu melhor amigo, que conheço há muitos anos e é como parte da família, mas o namorado não deixa eu sair com ele”, relata Maria.

“Tem muitas outras coisas além disso, como a falta de atenção em algumas questões, eu me sinto bem só lidando com tudo isso. Eu não fico pedindo nada, acho que as coisas devem ser feitas se a pessoa quiser fazer. Já havia conversado com ele e vi que não muda isso. Então acabei deixando de lado”, desabafa Maria.

“Eu sei que passo por algumas coisas desagradáveis, mas sabe, acho que isso já não me afeta tanto quanto antes. Olha, não pense que eu sou um ideal também, eu faço coisas que não deveria e é muito ridículo eu querer justificar com as situações que eu passo. Eu realmente não sei como seria isso. Na verdade, quando eu era mais nova, eu passei por situações piores, e eu sofria muito, e eu acreditava que precisava de uma ajuda ‘especial’. Mas minha família nunca me apoiou nisso, e com o tempo eu fui ‘lidando’ com todos os meus problemas sozinha, posso tá aqui falando isso pra você, mas eu não falo sobre com a minha família. Não compartilho nada com ninguém que é tão próximo”.

(Ilustração: Lorena Lima)

A psicóloga Cirlene Maciel dos Santos, que trabalha dentro da abordagem lacaniana e como psicopedagoga com curso de saúde mental em andamento, configura a violência psicológica como qualquer ato que venha causar dano à conduta emocional. Quando se trata da mulher ela se apresenta de várias maneiras, principalmente no consultório. “Ela traz o problema da violência não diretamente, fica encoberto, não explícito e só aos poucos vem à tona a violência dentro dentro de casa”.

A psicóloga e psicopedagoga Cirlene Maciel. (Foto: Lorena Lima)

Segundo Cirlene o medo faz a mulher inibir a fala, a questão econômica, o medo do abandono das pessoas, do julgamento dos amigos, família, as ameaças que eles fazem com elas. O número de mulheres violentadas é muito grande, e são diversas as causas para que elas não se manifestem. “Uma paciente trouxe um sintoma da relação da filha ela trouxe que o que a incomodava de fato era a violência psicológica que sofreu do ex marido. Por trás dos problemas, o maior era a violência psicológica que a impedia de se relacionar com outros parceiros, impedia de confiar em si mesma e em outros porque o ex parceiro não a estava deixando viver a vida do jeito que ela gostaria. Ela não conseguia expressar para ninguém que ele era uma pessoa perigosa que a ameaçava e ameaçava os filhos”.

(Ilustração: Lorena Lima)

Além do atendimento psicológico, para que o paciente entenda o que é o melhor no momento para ele, outra forma de se ajudar é realizar a denúncia, pois através dela há um fortalecimento e uma rede de apoio. Mesmo tendo maturidade e considerável grau de escolaridade não implica na sua fragilidade emocional. “A questão do homem machista, homofóbico, que acha ter propriedade de nós mulheres é uma questão cultural. O índice maior de vítimas é entre as mulheres negras, durante a pandemia as coisas ficaram camufladas mas a gente percebe que o índice continua aumentando, as pessoas acham normal mulher ser vítima de violência psicológica, e isso não é normal, é crime” ressalta a psicóloga Cirlene.

Para a psicopedagoga algumas pessoas conseguem identificar, as que conseguem verbalizar para alguém de confiança ela pede sigilo em função do medo. Sempre que alguém consegue perceber a mudança de comportamento, sabe-se quando não está bem emocionalmente e ela demonstra na forma de agir, no comportamento em si. Por exemplo: quando uma mulher é sorridente e teve uma mudança repentina. A maior dificuldade da mulher é chegar à delegacia. Elas choram e se isolam, é preciso um apoio psicológico para lidar com as dores, e precisamos de alguém para nos encorajar a enfrentar o problema e sair dessa situação.

“Cada caso é particular, como amiga há uma conduta particular para agir nessas situações, mas enquanto psicóloga devo construir um vínculo de confiança para que essa mulher se expresse. Caso eu observe que existe além dos sintomas tem a ver com crime contra a pessoa, a gente tem que encaminhar a paciente para uma delegacia e ser mais assistida, por questão da justiça e dos direitos para entrar com medida protetiva e ela se sentir mais segura”, comenta Cirlene Maciel.

“Continuamos atendendo até que elas se sintam seguras para continuar lidando com os problemas, os sintomas, pois o que aconteceu continua e ela precisa cuidar dessas feridas para evitar doenças como a depressão, ter novas relações saudáveis e encontrar alternativas como encontrar um parceiro/a que a compreenda”.

Há a Lei Maria da Penha que assegura a integridade da mulher, há a possibilidade de fazer denúncia anônima, e é importante se aproximar da vítima. “Uma mulher ajudando a outra a gente se fortalece cada vez mais, nos ajudando as coisas podem ser diferentes, consequentemente a vítima pode no futuro ajudar outra, criando uma corrente. Ela quer alguém que segure na mão e esteja com ela. Às vezes nem a família sabe. O esposo se apresenta como boa pessoa e por trás daquilo só a mulher sabe quem ele realmente é”, afirma a psicóloga.

É importante entender que há razões de dependências pelas quais a mulher não sai do contexto de violência, além da dependência financeira existe a vulnerabilidade emocional, que afeta a autoestima das vítimas, levando-as a acreditar não ser possível uma outra realidade melhor que aquela que se vive, que não merece ter um marido melhor que o que tem, tampouco se imagina vivendo sozinha.

Logo da Liga das Mulheres. (Foto: Reprodução/Instagram)

Para a estudante de psicologia e integrante da liga de mulheres, Daniela Azevedo, é uma violência que muitas vezes não deixa marcas físicas, a mulher passa por esse processo de vitimização sutil no qual não percebe estar passando, mas sim da forma romantizada com ‘eu estou cuidando de você, você não vai sair com essa roupa porque outro homem vai ficar olhando’ e isso afeta a autoestima e o psicológico dela. “Esse problema não é considerado por conta dos tabus acerca dos transtornos psicológicos. É muito importante que a gente tenha uma lei que consiga definir o que é violência psicológica para que futuramente tenhamos projetos e políticas públicas com o intuito de combater e dizer para a sociedade o que é violência doméstica”, comenta

“A violência doméstica vai muito além de apanhar do companheiro. Por ser invisível e não considerada, há muitas mulheres sofrendo violência psicológica e não sabem como denunciar porque ‘ele não me bate, ele só me maltrata, só me xinga, ele só está fazendo chantagem emocional’, é muito importante que tenhamos uma lei que fale. “A gente vê a autoestima baixa, começa a namorar e se afasta dos amigos, isolamento. Precisamos desse processo de educação da sociedade para que as pessoas consigam identificar os sinais. Uma mulher não vai falar que está sofrendo violência, mas ela adoece fisicamente, queda de cabelo, crises de ansiedade, feridas pelo corpo e gastrite.”, contextualiza a estudante Daniela

Muitas mulheres hoje acabam ficando no contexto de violência porque não conseguem ter autoestima forte para viver sozinhas na sociedade, sem ter que estar ao lado do provedor. Esses pensamentos prevalecem na cabeça delas e elas não são culpadas disso, mesmo que dê abertura para violência. Ela pode viver, ter a casa dela e o trabalho dela sozinha sem precisar de um homem. A grande problemática é que a sociedade acredita que a mulher precisa de um homem para prover. A mulher pode sim viver sozinha, não ter filhos, trabalhar pois ela é completa.

Se você está sofrendo violência psicológica ou conhece alguém que esteja pode entrar em contato com o instagram da Liga de Mulheres @ligademulheres. Acesse mais informações no instagram @defensoriaamapa.

Denuncie ao 180, 190 ou em uma delegacia especializada em atendimento à mulher.



0 comentário