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DURA REALIDADE

Atualizado: 28 de out.

Conto distópico que acontece na cidade de Macapá, do autor Guilherme Menezes




DURA REALIDADE


Ao atingir a idade de 6 anos, as crianças são chamadas a se apresentarem em diversas áreas governamentais. Por lá, os funcionários de serviço ao governo passam as instruções de aprendizagem, tais servirão como único mandamento até completarem 18 anos. O compilado de informações é passado de forma didática e ao mesmo tempo ameaçadora. As informações começam a ser passadas desde cedo pelo processo base de aprendizagem da vida, por isso, desde cedo, o governo impõe as regras/leis para um bom convívio com os outros membros da sociedade. Não são regras difíceis, mas essenciais para que não escapem do caminho certo. Ademais, as regras são: tudo é mutável menos a mudança, somos seres desiguais e maus em nossa essência. Tudo foi, segue e sempre será assim. Então, não problematizem o que acharem de errado na sociedade, nós governo, como sua instituição líder, vamos te guiar sempre pelo caminho mais adequado. Aceitem nossas regras sem questionamentos, sempre será o melhor para nós. Esses são os conceitos básicos que devem seguir até seus 18 anos.

Uma vez que, atingirão a maturidade suficiente para passarmos as próximas regras. Mas lembrem - se, durante esse primeiro processo suas dúvidas devem ser feitas exclusivamente com funcionários do governo, em vista do vasto conhecimento. Qualquer outra pessoa que for pega conversando sobre dúvidas com outras pessoas será punida severamente. Na saída, o clima das crianças era fúnebre. Rostos sérios, não pela complexidade e profundidade das regras que haviam recebido, mas para cumprir à risca as regras para não serem punidos. Vamos seguir com Maria Eduarda, menina negra, pobre e da periferia de Macapá, e uma das crianças presentes. Já era tarde da noite e Maria Eduarda e sua mãe Deusa seguiram para casa. Moradoras do bairro congos, localizado em Macapá, as duas viviam em uma casa de três cômodos pequenos. A casa humilde, sem saneamento básico, e em zona de risco de alagamento em dias de chuva.

No dia seguinte, já as 05:00 horas da manhã, mãe e filha se aprontavam rapidamente, comiam dois biscoitos e uma dose de café puro e partiam para o centro da cidade. Deusa era vendedora de biscoitos em sinais de trânsito e partia para o centro por conta de só por lá ter pessoas com tempo para passear de carro e terem dinheiro para comprar biscoitos sem comprometer o orçamento do final do mês. Enquanto Deusa vendia, Maria Eduarda se sentava na calçada e passava horas do dia analisando as coisas ao seu redor, via os comércios, shopping luxuoso, com áreas de diversão e crianças brincando. Maria Eduarda não os invejava, mas via com estranheza. No decorrer do dia de sol escaldante e asfalto fervendo, sua mãe dava algumas pausas para sua Maria Eduarda trabalhar junto. Não para aprender a como oferecer biscoitos, mas para Maria Eduarda se refrescar com o ar-condicionado dos poucos carros que abriam a janela para comprar biscoitos. Com o entardecer, Deusa se sentava na calçada e contava suas moedas, sempre tinha o otimismo que havia vendido bem, entretanto, nunca era o suficiente. Na volta para casa a pé pela rua Claudiomiro de Moraes, propagandas gigantes de um lado dizendo que as pessoas devem sempre ser otimista, do outro lado da rua dizendo para as pessoas nunca devem desistir e no prédio a frente dizendo que só depende de você para alcançar seus objetivos. No caminho todo até a entrada do bairro essas propagandas seguiam. Além disso, altos falantes espalhados por postes nas ruas, exaltavam o poder do governo pelo bem da sua população.

Todo ano, membros do governo mandavam funcionários distribuírem antenas televisivas e celulares para as crianças. A programação das televisões proporcionava canais de jogos e notícias. Nos canais de jogos, um dos mais famosos era o Amapá Cap. Antes do jogo começar era falado aos telespectadores da possibilidade de qualquer um ser sorteado a participar, bastava comprar uma cartela nos postos de venda informando, nome, número de contato e CEP. A partir disso, começa o programa, basicamente o sorteado da cartela teria diversas chances de ganhar vários prêmios, fossem em notas de 100, carros ou casas. Deusa e muitos dos seus amigos e conhecidos viviam achando que no próximo programa seria o dia de um deles ser chamado. Muitas vezes a motivação de vida deles era conseguir ter a cartela sorteada para participar do programa e ganhar para melhorar de vida. Em um dia de véspera do programa do Amapá Cap. todos haviam entregado suas cartelas cedo, pois sabiam que existia um terreno abandonado atrás dos prédios do correio, e nesse terreno sempre ocorria de alguém botar pneus para queimar, de acordo com o governo.

Seguidamente, no dia e hora do programa, começam o fogo, a fumaça aos poucos ia chegando no bairro e aflorando a tosse incessante de Maria Eduarda. O governo mandava todos os moradores próximo ao correio fecharem as janelas o mais cedo possível, evitarem sair de casa e não olhar as janelas. Mas especialmente nesse dia, Maria Eduarda fechou as janelas pouco depois da fumaça começar, e ao olhar para o céu rapidamente viu alguns papeis picados caindo e não sentira cheiro de borracha queimada. Enquanto isso todos estavam entretidos com o programa. Maria Eduarda não questionou, mas estranhou novamente. Novamente nem Deusa, conhecidos ou amigos foram chamados. Ao contrário do entretenimento da televisão, os celulares possuíam acesso exclusivo a rede social controlada pelo governo. Por lá, os usuários novos são obrigados a seguir pelo menos 10 perfis.

O padrão de perfil é sempre de pessoas brancas e bem-sucedidas. As legendas das fotos mantinham padrão '' Só depende de você para conquistar. Estou aqui pelo meu esforço e empenho.'' As fotos seguiam o padrão de iates, diversão e amores. Nas primeiras semanas, os novos usurários, normalmente crianças, poderiam só olhar as publicações, até que o sistema enfim era destravado para fazer postagens. As pessoas em geral, por mais problemas que tivessem, usavam a rede social somente para postar fotos chiques e de uma realidade que muitas vezes não viviam. Maria Eduarda ainda que trabalhasse com a mãe, tinha que reservar o tempo obrigatório para qualquer criança estudar. O governo oferecia educação pública, denominada Oi. O período anual de educação era de pelo menos 2 meses para qualquer criança ser aprovada. Nas unidades Oi, as propagandas diziam que a educação era um direito de todos e que tinham o mesmo nível para todos, independentemente de ser particular ou pública. Nas salas de aula, crianças quietas e ansiosas pelo começo das aulas. Todos tentam prestar atenção, mas nada entendem. As matérias se dividam em física e matemática avançada, e no campo de humanas sobre o respeito e aceitação a autoridade do governo. Não haviam provas, todos passavam com nota máxima. O importante das aulas são as chamadas de presença que podiam te fazer repetir. O governo dizia que notas são apenas números, conhecimento e capacidade são iguais para todos. Maria Eduarda seguia indo nas aulas, porém, só conseguia absorver um pouco a matéria de estudo ao governo e nada mais.

Maria Eduarda agora com 12 anos, deixa de seguir sua mãe diariamente e, consegue um emprego de doméstica em um dos apartamentos da zona sul de Macapá no condomínio Vila Tropical. Esse feito foi motivo de orgulho para sua mãe, que via sua filha sendo bem instruída e estaria num ambiente familiar e culto de muito aprendizado a ela. No Primeiro dia, Maria Eduarda estava nervosa, mas adentrou o condomínio de vidro, ia seguindo para o elevador, até o porteiro lhe impedir e dizer que o elevador estava em manutenção. De escada, ela subiu 3 andares e chegou até a porta do seu emprego, tocou a campainha, no entanto, só sentia um cachorro cheirar a portar sem parar. A seguir, senhora Lúcia sai do elevador e vê Maria Eduarda parada na porta. Lúcia foi quem contratou Maria Eduarda. As duas entram na casa e de cara, Lúcia já passa um turbilhão de afazeres, como lavar a louça acumulada, estender e catar as roupas largadas pela casa, limpar a caixa de coco e xixi da cadela Laila e por fim passar todas as peças de roupa acumuladas. Maria Eduarda faz o mais rápido que pode para demonstrar que é prestativa, porém aos poucos seu frágil corpo de pouca idade sente o cansaço. Sua coluna dói, suas mãos doem, tudo dói. Maria Eduarda termina tudo com esforço, sempre era otimista como sua mãe, achava que seria bem recompensada. Mas não. Maria Eduarda recebeu abaixo de sua diária e ainda recebeu críticas de Lúcia. Ela não tinha carteira assinada e só pode abaixar a cabeça e aceitar. Na volta para casa parou em um ponto de ônibus e chorou e chorou, vendo as pessoas passarem sem nem olharem para ela, mas ela engoliu o choro e seguiu. Ainda no caminho, se deparou com um menino saindo da escola particular chorando, logo após sua saída várias pessoas circularam o menino para acalmá-lo e perguntá-lo o que tinha acontecido. Maria Eduarda estranhou a atitude, mas seguiu. Nós posteriores dias de trabalho de Maria Eduarda, ela conhece Lucas, filho de Lúcia. A madame comentou que a demora para conhecê-lo teve por motivo dele sempre estar na escola. Lucas era de uma nobre escola particular e era somente isso que Maria Eduarda sabia, por conta de já ter passado o uniforme de Lucas.


Conforme ela ia cumprindo com seus afazeres, ouvia Lucas comentar sobre a escola, sobre as provas, e principalmente sobre o conteúdo que começa no básico e ia avançando, didática e com o carinho dos professores. Maria Eduarda percebeu que os problemas de Lucas eram sobre escolher qual brinquedo iria comprar ou qual vídeo game iria jogar. Lucas tem a mesma idade de Maria Eduarda. Mais um dia se passa, Maria Eduarda recebe reclamações de Lucia, mesmo que tenha feito tudo perfeito. No fim, sempre recebe menos que o combinado inicialmente. Assim como, recebe ameaças, obrigando-a aceitar qualquer pedido e o valor que for paga. Por conseguinte, se não aceitar será demitida. Pressionada a aceita sem reclamar ela vai embora cada vez mais triste. Sua tristeza só pode durar pelo caminho de casa. Em casa ela disfarça para a mãe que tem orgulho dela e acha que a filha está em um ótimo trabalho. Maria Eduarda não conta a verdade por saber que a mãe precisa do curto dinheiro do trabalho de doméstica. Maria Eduarda já não estranha as coisas, Maria Eduarda nem pensa mais ou repara nas coisas para não se deprimir. Maria Eduarda só passa os dias e não vive.

Nos dias, semanas e meses seguidos, a realidade se repete. Maria Eduarda fica repleta de dúvidas e como foi mandada e está acostumada a ouvir, decide ir a uma das sedes do governo para falar sobre suas dúvidas. Por lá, um funcionário a leva para uma sala. Ela nunca havia falado o que pensa, logo que começa a falar, imediatamente começa a soluçar de tanto chorar. Na sala parecia até previsível o choro. Na sala branca só havia uma mesa e uma cadeira de cada lado, em cima da mesa somente um maço de papel e uma lixeira ao lado repleta de papeis amassados e visivelmente molhados. O Funcionário só cruzava os braços e falava que isso era normal e que todos passam por isso, sem exceções. Continuamente, o funcionário falava que isso iria passar e era para Maria Eduarda esperar até os 18, com as novas regras do governo. Para finalizar, o funcionário disse que tudo iria mudar para melhor após os 18. Dessa forma a sessão acabou e o funcionário já foi retirando Maria Eduarda da sala e chamando o próximo. Maria Eduarda nem sequer falou duas palavras que sente. Já não parava de chorar e, estava atrasada para o trabalho. Estava tão acostumada a chorar que chorava andando e nem escondia por saber que ninguém se importava ou olhava. Com o tempo largou o emprego. Não contou para mãe. Maria Eduarda já tinha o primeiro certificado de escola pública, e como o governo falava que a escola era igual para todos, ela se viu esperançosa que conseguiria arrumar um emprego melhor. Foi no centro do Macapá, procurando trabalhos como atendente da claro, garçonete do bobs ou recepcionista de hotéis que estivessem contratando.

Ela mostrava o certificado, contudo, os donos olhavam com desdém e só falavam que a loja do lado poderia aceitá-la. De loja em loja, Maria Eduarda rodou quilômetros. Nada achou além de não. No desespero, voltava em algumas das lojas, agora sem autoestima nenhuma e dizia que aceitaria o que fosse, pelo valor mínimo que fosse, que só queria trabalhar. Na esperança de melhorar o emprego, teve que aceitar ser empregada geral no Shopping Macapá. O que quer que as lojas dentro do prédio pedissem, Maria Eduarda deveria fazer. No entanto, dessa vez era diferente do último emprego. Agora já sabia ao valor que iria receber e ao emprego em que havia se submetido. Lavar banheiros, lojas, limpeza geral do prédio, arrumar itens das lojas. Agora Maria Eduarda teria que aceitar fazer. Saia as 17 horas, cumpria seu trabalho exaustivo e seguia para explorar outras partes do Macapá em busca de um emprego mais descente. No caminho a pé de volta para casa tarde da noite Maria Eduarda agora não chorava pelo dia de trabalho. Maria Eduarda agora veio a conhecer o assédio. Andando por partes desconhecidas, de iluminação pública precária e ruas com poucas pessoas. Maria Eduarda agora sentia na pele o medo. Homens a chamando de forma sexual, homens passando ao lado dela e apertando a sua bunda. Maria Eduarda ainda era apenas uma criança. Mas ela não podia parar. A menina não tinha mais tempo para ir à escola por mais que fosse obrigatório, mas mesmo assim o governo nunca chegou a prender Maria Eduarda ou sua mãe. Ela sustentou o trabalho de empregada geral até seus 18 anos, sempre otimista com as palavras que o funcionário público havia dito anos atrás, que tudo iria melhorar.

Agora com 18 anos, mais vivida e otimista pelo momento que mais esperou na vida, é chegada a nova chamada de apresentação no governo. Por lá, funcionários chamam na sala de um a um. Maria Eduarda até esboçava um sorriso, tinha o pressentimento que iria conseguir algo bom. Enfim é chamada. Um funcionário pega uma ficha com o nome dela, bota na mesa e analisa. Na ficha há diversas reclamações de Lúcia, em que Maria Eduarda era uma péssima funcionária, se demitiu sem aviso prévio e que se aproveitava quando a dona não estava olhando para roubar. Na outra página há uma lista de faltas e reprovações na escola. Além de novas reclamações do último emprego, dizendo que Maria Eduarda se atrasava e não cumpria com o que era pedido. Esse dia era esperado, pois o funcionário disse que baseado na ficha de Maria Eduarda, ela teria uma identidade única para tudo, em que estaria a avaliação dela como cidadã. Mas com tantas reclamações, a identidade dela teria escrito em palavras vermelhas: nível péssimo de cidadã. Era isso, tudo que Maria Eduarda tanto esperou, desmoronou em alguns minutos. A esperança se foi. Após essa desilusão, Maria Eduarda não tem forças. A depressão a ganha e ela acaba passando dias e dias deitados chorando na cama. Para compensar a renda perdida, sua mãe Maria, agora mais idosa e devagar, acaba trabalhando mais tempo que o normal. Rodando de sinal em sinal em busca de mais uma moeda. Sempre voltando para casa otimista que a filha iria melhorar e ia conseguir mudar a situação de vida delas. Mas sempre a filha estava da mesma forma. Em mais um dia, enquanto dona Maria oferecia seus biscoitos, um motorista bêbado morador do Macapaba, passa voada e pega dona Deusa de raspão. Já frágil, ela agoniza no chão. Uma ambulância a teria salvado, mas todos passam no sinal de trânsito e nem sequer olham para a idosa. Estão apressados demais tentando ser um bom cidadão e cumprindo as metas de seus empregos. Agora mais do que nunca Maria Eduarda tem que agir. É nosso instinto querer viver por mais sofrível que seja. Maria Eduarda não tem tempo para sofrer. Volta a procurar empregos, mas todos pedem a identidade dela agora que possui 18 anos. Veem a avaliação dela e a ignoram. Na volta para casa, ela estranha ver pessoas correndo e gritando, assim que vira a esquina ela vê o morro.

O morro pegando fogo de cima abaixo. O governo ateou fogo nas pontes com o argumento que estaria atrapalhando a urbanização da cidade. As pessoas não foram realojadas nem mesmo avisadas sobre o fogo, e isso não virou manchete de jornais ou de comoção nos noticiários da televisão. Cada morador teve que construir suas casas novamente em outros bairros e pontes. Maria Eduarda agora sem mãe, sem força e sem dinheiro, é obrigada a morar na rua. As mesmas ruas em que ela era assediada. O desespero, a fome e o assédio eram tantos que Maria Eduarda viu como única alternativa se prostituir pelo mínimo que fosse. Já não se importava com sua marginalização. Percebeu a desigualdade do sistema, mas também percebeu que nada poderia fazer mesmo que soubesse antes. Sabia que teria que se submeter a se encaixar no sistema. Mas já era tarde. Maria Eduarda só passava dia após dia, gastando o dinheiro com bebidas alcoólicas que a fizessem esquecer a tristeza de sua vida enquanto espera a hora de sua morte. Maria Eduarda não se mata, pois nunca viveu. Sempre se submeteu a fazer coisas para os mais abastados viverem as custas dela.

Maria Eduarda morre na chacina da Veiga Cabral, em que um policial, atira a esmo contra várias crianças, e jovens moradores de rua que dormiam em frente à igreja de São José de Macapá. O único registro que as pessoas sabem de Maria Eduarda é o monumento de uma cruz em frente à igreja com o nome de cada um dos mortos. O autor dos disparos foi condenado a 10 anos de prisão, mas fica preso por pouco tempo e começa a viver em regime semiaberto. Isento e não julgado.


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