• Brunna Silva

BARCA ARTÍSTICA NAS ILHAS QUE BAILAM

A V Residência Artística Tecno Barca aconteceu no Arquipélago de Bailique nos primeiros quinze dias de novembro


Por Brunna Silva


Fim da residência artística na Vila Progresso. Foto: Guto Costa


São dez anos do mesmo percurso. Doze horas de viagem na expectativa de conectar-se com uma comunidade muitas vezes esquecida. O quebrar da maré nessas longas horas só aumenta a vontade de construir relações e levar o seu olhar com diversas possibilidades para o Arquipélago de Bailique. E em mais uma edição, foi o que fez a Tecno Barca nesses primeiros quinze dias de novembro, levando a residência artística para as comunidades daquele lugar.


A Tecno Barca, projeto idealizado por Wellington Dias, em parceria com a Associação Gira Mundo, nasceu em 2011, mas a sua primeira edição aconteceu em 2012. A vontade de fazer a Tecno acontecer veio do desejo de se reconectar com as raízes maternas da família bailiquense de sua mãe, quando o idealizador foi conhecer o arquipélago. Wellington também queria romper a imagem sobre o Bailique e enxergar esse local de outra perspectiva. " Eu queria romper com o preconceito que existia, queria fortalecer conexões com as pessoas de lá. O retorno foi através de uma ação efetiva, assim surgiu a Tecno Barca”, ele comenta.


Idealizador da Tecno Barca com as crianças do Bailique. Foto: Brunna Silva


A vontade do artista fundador do projeto hoje é realidade. Atravessam o maior rio do mundo artistas, arteiros, ativistas e se encontram com a população que vive às margens do rio para conversar sobre as mazelas, as particularidades e as necessidades de viver e ser amazônida.


TRAVESSIA


Artistas e Produção indo para o Bailique. Foto: Raul Zito.


No dia 1º de novembro, corpos itinerantes, rostos diferentes, São Paulo, Ceará, Rio, Minas, Pará e Amapá reúnem-se em Macapá para o primeiro desafio da residência: conectar olhares, fazeres e saberes diversos para fazer acontecer arte em território amazônico.


Na barca de madeira, sobre o Rio Amazonas, uma primeira impressão do que virá se anunciar com o dançar do barco e dos corpos ao sabor da maresia rumo à Vila Progresso, no arquipélago de Bailique. Os artistas, convidados ou residentes, experimentam uma expectativa curiosa do que a mistura de culturas pode fazer dessa vez em terras bailiquenses.


Após longas horas de viagens e a expectativa do que se encontraria, a Tecno Barca inicia o seu trabalho conhecendo as comunidades e entendendo a profundidade da urgência de enxergar as camadas que fazem o Bailique.


Rafael Silva, 25, escritor nordestino e artista residente desta edição, percorreu 66 horas de viagem até o local que jamais imaginaria conhecer e se impactou com o senso comunitário do distrito das palafitas, que por vezes é esquecida no meio de tantos descasos governamentais. "Um senso de comunidade, um bem viver coletivo que a urbanização, a modernidade e o capitalismo tentam destruir e corromper, lá vemos resistir e sobreviver”, responde o artista após ser perguntado sobre o que mais causa impacto num lugar com tanto potencial, mas tanta precariedade.


Rafael Silva, artista residente, na oficina literária com as crianças da comunidade de Carneiros. Foto: Dayane Oliveira.


A barca de artistas percorre as comunidades do arquipélago ouvindo sonhos, histórias e súplicas que se repetem em um ecoar de vozes solícitas de um olhar carinhoso para o lugar em que vivem. Napoleão Guedes, 27, artista, performer santanense, que já participou de outras edições do projeto, observa ao voltar àquelas terras a continuidade da violência no distrito suspenso. "A permanência da violência que veio antes de mim e continua acontecendo aqui, isso me causa impacto”, conclui.


Artistas conversam com a comunidade. A Tecno Barca propõe perceber a Amazônia convidando a população a participar dos trabalhos em desenvolvimento. Neste momento, trocam conhecimentos e surgem fotografias, oficinas, escritas e performances envolvendo a percepção ribeirinha. Assim, descobrem-se os artistas que moram sobre as pontes.


VIVER EM COMUNIDADE


Trabalho feito pelo artista Rafael Silva. Foto: Brunna Silva.


Os arteiros, ao chegar no arquipélago, experienciaram o viver daquela comunidade, como é estar nesse lugar de bem-viver, onde se tem tão pouco e consegue ser tão hospitaleiro com quem chega. Assim, construíram juntos novas histórias que compõem a barca de madeira.


O Bailique, a ilha esquecida pelos gestores do Amapá, que dança com a maré e vive em função das águas do Amazonas, conta para os artistas como é viver com os pés sobre esse rio e toma a atenção de quem vem de terras distantes e com perspectivas diferentes. A artista residente sudestina, Anali Dupré, 33, ficou encantada com a cultura forte que as mulheres bailiquenses tem com o futebol e como ele é um dos poucos espaços de lazer de quem vive por lá.


A partir do diálogo com essas mulheres, a artista e educadora fez seu trabalho com o desejo de fazê-las enxergar a força que carregam em uma comunidade patriarcal, onde, por vezes, naturaliza-se a violência com filhas, mães e avós que sustentam as pontes daquele lugar. "As mulheres do Bailique resistem dentro de uma realidade que é muito desigual para elas, que é muito violenta e ainda assim, encontram um espaço para se reconectar entre si e recuperar uma pulsão de vida muito forte. E trocar com elas me fez recuperar essa pulsão em mim", observou a artista.


A partir do olhar cuidadoso com quem pede para ser lembrada e reconhecida, Anali fez fotografias das jogadoras bailiquenses para entenderem a potência dentro e fora do campo de futebol. Na barca, estava exposta as fotos como um santuário lindo de admirar a garra das mulheres daquele lugar, que ao adentrar no barco se viam nas fotografias e reconheciam umas nas outras o papel que elas têm na comunidade.


Artista Anali Dupré com as jogadoras da comunidade de Carneiros. Foto: Dayane Oliveira.


Entrar no íntimo das moradoras das palafitas. Foi o que fez a Tecno Barca com trabalhos pensados com o povo daquele lugar, seja para se enxergar como grandes jogadoras, seja para entender que aquelas pontes são passarelas para as crianças, para cantar alto sobre o que vivem ou até mesmo para se descobrirem como grandes contadores de histórias, para gritar mundo afora que o Bailique existe e que lá tem muito para aprender e compartilhar.


Ao abrir os corações para estranhos com o desejo de modificar a visão daquela realidade; as crianças, jovens e adultos ribeirinhos sorriem ao ver a barca chegar com a construção que foi feita a partir dos laços estabelecidos entre artistas e moradores. Lara Cristina, 25, bailiquense, moradora da comunidade de Carneiro, e estudante diz que o trabalho que a Tecno Barca faz é muito importante por ser um lugar de inclusão. "Ajuda abrir a nossa mente sobre o local onde a gente vive e sobre a grandeza da nossa natureza", diz a jovem.


Lara Cristina, bailiquense. Foto: Dayane Oliveira.


O lugar onde as terras caem, onde não há energia elétrica e o silêncio da noite é rompido por barulhos de geradores, onde a saúde é escassa, onde a água por vezes é salubre e as mazelas são inúmeras, também é lugar de reconhecimento pela educação. Os moradores do arquipélago reconhecem que esse é o caminho para mudar a realidade de quem vive por lá.


Sereia Caranguejo, 27, artiste convidade desta edição, pontua o zelo pelas escolas. "A educação dentro do Bailique é muito bem recebida, há um respeito muito grande pelos professores", Sereia afirma que os caminhos traçados pela Associação Gira Mundo, abrem discussões para esses espaços, e as campanhas feitas naquelas terras plantam e colhem frutos vindouros.


Os educadores a quem se deve respeito, enxergam nos artistas a esperança de semear bons frutos naquela região e acreditam em um futuro promissor para as crianças bailiquenses. O professor da comunidade do Livramento, Merlim Marques, 47, disse que o projeto conduzido pela Associação Gira Mundo vai enriquecer a vida dessa população. “Muitos deles nem têm noção do quanto isso vai agregar culturalmente conhecimentos para o lugar em que eles vivem”, comenta emocionado o professor.


Essa troca de conhecimento com a comunidade foi muito bem recebida pelo idealizador do projeto, que sorri ao lembrar do fortalecimento de laços com a comunidade escolar. “Em todos os lugares que levamos a exposição, tivemos a comunidade escolar muito presente e isso fortalece o trabalho desses profissionais, dá um novo fôlego”, comenta Wellington.


A maré que leva educação em forma de arte, também traz consigo leveza e brincadeiras que fazem os olhinhos ficarem pequenos e se perderem nos retratos de quem fica feliz descobrindo as múltiplas artes que moram dentro de si. O barco da felicidade atraca nas pontes e se transforma em lindas memórias nos dias ensolarados no distrito das terras que caem. A menina da pele retinta, Paula Miranda, 18, que conheceu o projeto em 2013, conversa com essa jornalista em formação sobre a felicidade que é ver a barca chegar em Franco Grande. “A Tecno Barca é diversão pra uma criança, porque elas ficam muito tempo sem nada aqui, a nossa comunidade é esquecida, as pessoas passam direto e não param, mas quando vocês chegam, já é uma animação, sabe?”, desabafa com os olhos marejados a jovem moradora.


Crianças pulando da barca artística no Bailique. Fto: Dayane Oliveira.


Os rios, que nos levou a esse encontro, nos contou e encantou com as vivências partilhadas em alto rio, que conta histórias que não se esvaem no tempo. O barco, repleto de arteiros, empurra águas barrentas e abre caminhos. Esses caminhos encontram os gritos que pedem escuta; a escuta que chega com a barca; a barca que o rio trouxe e navega as águas do Amazonas levando esperança em tom de arte, fortalecendo o viver em comunidade. O rio que envolve os artistas bailiquenses e dos outros lugares, não é apenas um rio. É laço.


Foto: Dayane Oliveira.



O CINEMA NAVEGANTE


Sessão de filme na comunidade Franco Grande. Foto: Brunna Silva.


Nas noites estreladas, sentados sobre a ponte, artistas e moradores reuniam-se para assistir filmes, e nos quais a comunidade pudesse se reconhecer. O cinema fluvial chegou ao Bailique para iluminar o breu que se instala com a ida da luz solar. Filmes como Utopia, Memórias da Terra, Um Escola no Marajó, Essa Terra é Meu Quilombo, Açaí e outros foram exibidos para os bailiquenses, que sempre se mostravam muito contentes com a iniciativa do Cine Catraia.


O Cine Catraia foi idealizado por Rayane Penha, Wellington Dias e Renato Vallone, no ano de 2014. Atualmente, a jornalista em formação e cineasta Rayane produz o Cine Catraia, um projeto das águas que banham os solos amapaenses. É um cinema itinerante que percorre o maior rio do mundo para conectar raízes desse solo amazônico, através de filmes que contam histórias de quem vive às margens desse rio. “Os filmes dialogam temáticas que estão sendo vivenciadas dentro do território e que tem conexões, porque priorizamos muito a regionalidade”, comenta Rayane Penha, 26, sobre o trabalho do cinema itinerante.


Nesta edição da Tecno Barca, o Cine Catraia também embarcou para as ilhas que bailam. Kssiddy Weslley, 28, professor, produtor cultural e cineclubista, ficou responsável por transformar as noites da garotada que chamavam seus pais para prestigiar o grande evento que se formou. O cineclubista diz que a iniciativa foi muito satisfatória, “foi muito bom, principalmente porque eles não têm acesso ao cinema, e quando esse cinema chega, são com produções do nosso estado, que eles não conhecem, mas passam a admirar as produções locais”, o produtor comenta feliz ao relembrar a ponte feita pelo projeto entre a cultura local e os moradores.


Cine Catraia nas noites estreladas da Vila Progresso. Foto: Brunna Silva.


O cinema montado na Agência Distrital da Prefeitura, sempre chamava atenção das crianças que passavam por lá. João Souza, 10, estudante, que já conhecia a Tecno Barca porque participou de filme produzido pelo projeto em 2019, comenta que fica muito feliz com o cineminha na Vila Progresso, “é muito bacana para as crianças se divertirem esses dias, porque a gente não tinha nada para fazer”, comenta o menino.


A ESCOLA QUE RESISTE


Entrega da obra feita pela artista Sereia Caranguejo para a Escola Bosque. Foto: Brunna Silva.


A Associação Gira Mundo também foi até as terras que bailam para firmar compromissos com a educação, que é tão importante naquele lugar. A Escola Bosque, que deve ser vista como o maior patrimônio histórico por ser esteio para os moradores do arquipélago, foi atingida pelo fenômeno das terras caídas - provocado pela erosão - que comprometeu a sua estrutura.


Preocupados com a educação dos bailiquenses, a Associação Gira Mundo, em conjunto com Marina Beckman e Rayane Penha, idealizaram a campanha “Bosque Firme no Bailique” com o objetivo de ajudar a reconstruir um lugar de orgulho para os moradores da ilha. Para que o projeto tenha êxito em ver comunidades felizes novamente com uma escola firme, a Associação elaborou uma carta compromisso que foi assinada pelo governador eleito, que se comprometeu a reestruturar a escola que é símbolo da educação do Bailique.


A idealizadora da campanha, Marina Beckman, 36, produtora cultural e educadora, lembra do compromisso com a educação. “Construir essa campanha foi firmar uma bandeira de luta em prol da educação e da população do Arquipélago do Bailique”, afirma Marina e complementa, “construir essa campanha é fazer trilhar esse rio, é a imensidão da água em forma de luta e de força para ouvir cada pessoa que por essa escola passou. E a campanha “bosque firme'' veio para isso”, finaliza.


Entrevista com a idealizadora Marina Beckman. Foto: Sereia Caranguejo.


Todos que falam sobre a escola, conversam com essa jornalista em formação com brilhos nos olhos. Nas palavras soltas, percebe-se o orgulho e a devoção pela instituição que formou muitos filhos deste distrito. Estudantes, professores e colaboradores esperam e confiam em um futuro grandioso para o colégio.


A professora de filosofia, Gabriela Almeida, desabafa para mim, seus sonhos para a escola, ao ser perguntada como imagina a instituição em cinco anos. “Eu imagino uma escola firme, de pé, que tenha estrutura para receber todos os estudantes, porque eles merecem uma educação de qualidade”, fala com esperança a professora.


O QUE RESTA DEPOIS DA BARCA?


Exposição na comunidade de Freguesia. Foto: Brunna silva.


Quando a exposição acaba e os artistas começam o desmontar de suas obras, o sentimento de gratidão invade quem residiu naquelas terras por quinze dias. As crianças das comunidades balançam as mãos agitadas como quem diz “espero vocês logo”. E os integrantes da barca retribuem o carinho com o olhar marejado.


Durante toda a exposição, fiz a mesma pergunta para cada integrante deste projeto: O que você leva dessa experiência? O que te mudou? Apesar das diversas respostas, todos saem da residência com vontade de voltar para continuar projetos intensivos, naquele lugar de tanta gente que merece atenção e cuidado. Sebastião Alberto, 29, artista residente, multi artista, falou sobre como sai dessa residência “eu colhi e vou levar muita água, eu deixei muito de mim lá mas também trouxe muito de lá e agora crio possibilidades para retornar. Mas neste momento levo o sorriso e a força daquelas pessoas”, comenta.


Viver o Bailique é avassalador, com o intuito de ir ensinar, quem passa por lá, aprende. A vida é uma troca. Sereia Caranguejo leva dessa experiência olhares e afetos que atravessaram seu ser, “levo comigo a felicidade de ter tocado tantas crianças que para mim são o futuro do planeta, porque elas realmente são”.


Sereia caranguejo compartilhando sua arte com as crianças de Freguesia. Foto: Dayane Oliveira.


O que resta depois da barca é ter a certeza de que toda vez que a barca passar, novas memórias serão construídas. Como disse o escritor residente Rafael Silva, o Bailique é um universo que nos ensina silenciar para aprender. E, a partir disso, como pontuou Napoleão Guedes, nos dá a possibilidade de viver um outro modo de vida depois que se passa por lá, sempre pensando em um bom-viver.


Para esta jornalista em formação, o que restou depois da barca foi a vontade de conhecer mais histórias dos moradores daquele lugar e se dedicar em escrever memórias para que jamais esqueçam que o Bailique existe, bem ali, há 12 horas de Macapá. E que nunca é tarde para olhar com carinho, escutar com atenção os sonhos que entraram na barca. A jovem jornalista, que escreve essa reportagem, conta a vivência com brilho nos olhos e contagiou o seu pai, quem presentei a ela, aos artistas e à comunidade com o poema:


Ôh minha querida Bailique

Arquipélago do Amapá

São 12 horas de muitas maresias

Para poder chegar lá


Nesta estrada de águas barrentas

Que fazem o barco balançar

Com o farol da lua que orienta

O caminho pro lugar


Conhecer as comunidades

É o desafio de quem vai lá

Para garantir oportunidade

Com o seu dom de ensinar


Pra ensinar são tantas as formas

Do conhecimento repassar

Seja na arte, na dança e escritura

Seja no amor de educar


E é com essa missão

Que a barca vem sempre pra cá

São 10 anos de dedicação

E de transformar a vida de lá


Venho aqui agradecer ao Raul Zito

E Anali Dupré que foram lá

Fany Magalhães e Rafa Silva

Égua foi show lhes encontrar


Com Rodrigo Abreu e Sebastião

O projeto também pode contar

Com quatro artistas de expressão

Que não mediram esforços pra chegar lá


Débora, Napoleão, Sereia e Mapi

Fizeram ressignificar

A vida daquela gente

De terras caídas do Amapá


Mas não podemos esquecer

De também homenagear

A todos que fazem este projeto

Com o brilho no olhar


Hilton Martins.

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