“Por que não?”: mulheres transformam as arquibancadas no duelo entre Trem e Paysandu
- AGCom

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Presença feminina cresce, ganha voz e redefine o ambiente do Estádio Augusto Antunes.
Maria Cândida Ferreira / Fabiana Saraiva

Dentro do campo, o Paysandu venceu o Trem por 3 a 0, na noite de quarta-feira (29), no Estádio Augusto Antunes, pela Copa Norte. Fora de campo, o destaque foi outro movimento: a presença cada vez mais ativa das mulheres nas arquibancadas.
O cenário acompanha uma tendência nacional. Dados do estudo Women and Sports 2026 indicam que 64% das brasileiras se declaram fãs de esporte, enquanto levantamento da Kantar IBOPE Media aponta que elas já representam 44% do público do futebol no país.
Ao contrário de anos atrás, a participação feminina nas torcidas deixou de ser exceção. No jogo entre Trem e Paysandu, a presença das mulheres foi constante e visível, ocupando espaços e contribuindo diretamente para a atmosfera do estádio.
Durante a partida, elas cantaram, gritaram, se emocionaram e comemoraram em cada movimento dos jogadores e, claro, em cada gol. Elas mostraram que, assim como qualquer torcedor, sua voz é importante e fortalece o clima do jogo dentro do estádio, destacando todo o apoio ao time.

Não é apenas a presença, mas o significado de relevância, pertencimento e identidade que constrói uma torcida. E essa participação mostra as mudanças sociais e culturais no futebol e em demais esportes. O ato de torcer vai além dos 90 minutos de jogo, ele inclui diferentes experiências, vivências e expressões que se perpetuam durante toda a vida de um torcedor e uma torcedora.
Voz que cobra, apoia e participa
No estádio, essa mudança se traduz em participação. A técnica de enfermagem Soraia de Oliveira, 38 anos, resume esse avanço com uma provocação que já não soa como dúvida: “Por que não?”. A relação com o Trem Desportivo Clube começou por meio de amigos ligados à diretoria do clube, mas se transformou em presença constante. “A gente abraçou de coração mesmo”, afirma.
Para além de assistir, ela acompanha o jogo com atenção tática e se envolve diretamente com o desempenho da equipe. Segundo Soraia, torcer também é cobrar, seja na comemoração das vitórias ou nas críticas em momentos de falha.
“É uma experiência incrível ver a evolução deles em cada jogada, cada treino. A gente vê que eles estão mesmo de corpo e alma aqui, não estão aqui apenas pelo salário e vestindo a camisa. Só o fato de estar aqui, eu já estou contente, mas claro que eu quero a vitória. O nosso estado merece aparecer lá fora”, ressalta.
Ao lado dela, Leiliane Miranda reforça esse perfil. Integrante da torcida Bora Trem, ela passou a frequentar os jogos a partir do envolvimento do marido com o clube, mas construiu vínculo próprio com o time.

A torcedora defende que a presença feminina interfere diretamente no clima da partida e que a participação das mulheres é fundamental para o crescimento do futebol local. Presente em todas as partidas, Leiliane destaca que a energia da torcida é contagiante e que a participação feminina interfere no ambiente do jogo, inclusive sendo percebida pelos jogadores em campo.
“Todo jogo a gente está aqui, a emoção contagia todo mundo. Sabemos que nossa voz se destaca. Quando a gente grita, eles escutam lá de dentro do campo; isso dá mais emoção ao jogo. As mulheres precisam vir mais, trazer os filhos, ocupar esse espaço. Isso ajuda a fortalecer o nosso futebol”, destaca Leiliane.
Herança bicolor: de mãe para filha
Na arquibancada visitante, a relação com o futebol aparece por outro caminho, ligado à memória e à experiência familiar. Torcedora do Paysandu desde a infância, Marilene Mendes, 45 anos, associa o clube a uma referência afetiva construída ao longo da vida. Ao lado da filha Maria Clara, de 14 anos, viveu pela primeira vez a experiência de assistir ao time no estádio.

A expectativa começou antes da partida, com ansiedade compartilhada entre mãe e filha. Para a adolescente, a diferença entre acompanhar de casa e vivenciar o jogo no estádio foi imediata.
“Tanto minha mãe quanto meu pai me fizeram amar o Paysandu. A paixão só cresceu, tanto que meu último aniversário foi temático do clube. Sinto um aperto muito grande no coração de felicidade, de poder assistir a eles jogando pessoalmente. É um sentimento diferente e muito melhor do que pela televisão”, conta a estudante.
A ida ao estádio também representou um esforço para Marilene, que enfrenta uma alergia que dificulta o uso de roupas no calor. Ainda assim, decidiu participar do momento. Ela relata que a experiência foi marcada por emoção e sensação de realização pessoal.

Apesar do crescimento da presença feminina, o cenário ainda apresenta desafios. Levantamento do "Mulheres & Futebol", do W.LAb, aponta que 40% das mulheres não se sentem seguras para frequentar estádios sozinhas. Mesmo assim, no Augusto Antunes, o que se viu foi um ambiente em transformação, com mulheres presentes em grupos, em famílias e nas torcidas organizadas.
Dentro de campo, o Paysandu garantiu a classificação. Fora dele, o que ficou foi um retrato de mudança que vai além do resultado. Nas arquibancadas se revelou um movimento mais amplo: mulheres que não apenas ocupam o espaço, mas participam ativamente dele.
*Este conteúdo foi produzido na disciplina de Jornalismo Esportivo, ministrada pelo professor doutor Alan Milhomem.




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