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Palestina do Rio Gurijuba: a vila prestes a sumir do mapa

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    AGCom
  • há 15 horas
  • 9 min de leitura

No distrito de Santa Luzia do Pacuí, uma vila costeira luta contra o processo de erosão acelerada, agravado por mudanças ambientais e pela ação humana.


Por Fernanda Bezerra*

Registros fotográficos da situação da Pelestina do Rio Gurijub em 2025. Fotos: Fernanda Bezerra.


Depois de duas horas de estrada pavimentada, passando por obras de ponte na comunidade de São Joaquim do Pacuí, chegamos ao ramal que conduz ao chamado “aterro”, ponto onde descem os barcos com destino às comunidades do Rio Gurijuba. O trajeto de meia hora por estrada de terra batida é de difícil acesso, com buracos profundos e búfalos durante todo o percurso. A paisagem, marcada por valas abertas pela água nas cheias da maré, já demonstra, mesmo antes da chegada, os graves sinais das mudanças ambientais. Mais 40 minutos de voadeira depois, em meio a valas e pastos delimitados por grandes fazendas, finalmente avistamos a Vila Palestina.


A vila é inteiramente construída em madeira. Algumas casas permanecem de pé, enquanto outras já exibem estruturas completamente abandonadas, como se continuar a construir um futuro frente a devastação já fizesse parte de um sonho distante. Ainda assim, a vegetação se mostra persistente. Somos quase que imediatamente abatidos pelo calor úmido vindo da floresta atrás das casas.


Desembarcamos em pontes de madeira improvisadas pelos próprios moradores. Estão há tanto tempo sem manutenção que ninguém seria capaz de transitar por ali se já não fosse acostumado com aquela rotina. Adriel Reis, auxiliar de serviços gerais da escola da vila e neto de um dos moradores mais antigos (falecido neste ano), caminha sobre as palafitas com a rapidez de quem faz esse percurso dezenas de vezes por dia. Sua esposa, Renilde Reis, grávida de oito meses, é mais cautelosa ao atravessar.


Casa do Adriel em 2025. Foto: Fernanda Bezerra.
Casa do Adriel em 2025. Foto: Fernanda Bezerra.

A primeira visão da erosão assusta. Com a maré baixa, cerca de cinco metros separam o assoalho das casas da margem do rio. Há doze anos, a Palestina possuía um trapiche, campo de futebol e pontes que se estendiam por muitos metros em frente às casas. Hoje, tudo está submerso. Os moradores relatam que as mudanças são rápidas. O nível do Rio Gurijuba não baixava tanto como atualmente, fenômeno que se tornou recorrente devido ao regime de marés.


Everaldo Costa dos Reis, “Beto”, de 53 anos, vive em uma das áreas mais afetadas pela erosão. Assim como Adriel, ele trabalha na escola da vila. Beto conta que cerca de 14 famílias, totalizando aproximadamente 110 pessoas, moram atualmente na Palestina. Nascido na região do Pacuí, ele se mudou para a vila aos cinco anos, quando os pais decidiram tentar a vida na localidade. A família delimitou um terreno e passou a sobreviver da pesca e do cultivo de mandioca, banana e melancia, muitas vezes trocando os produtos por mantimentos. A farinha produzida também era vendida.


Beto relata vivências na Vila Palestina. Foto: Fernanda Bezerra.
Beto relata vivências na Vila Palestina. Foto: Fernanda Bezerra.

Beto diz que quando chegou à Palestina a erosão ainda não afetava diretamente suas vidas. “Furou um igarapé aqui no rio, que veio do Amazonas. Depois disso nossa vila veio caindo”. Os moradores não parecem entender por que o processo erosivo foi agravado. Quando pergunto sobre os fazendeiros e a criação de búfalos, o auxiliar conta que conhece todos eles e que são solícitos quando a comunidade precisa. Dr. Amilton, ele cita, comprou terrenos da área pertencente à família de Beto na Palestina e pagou com gados. “Depois que começamos a comprar o gado, abandonamos a roça”, afirma.


Apesar das perdas, nem todas as mudanças ambientais foram percebidas como negativas. “Antes, em janeiro e fevereiro, não tinha comida, os peixes arribavam. Quando o igarapé furou, as coisas melhoraram. Veio camarão, veio peixes de pele”, conta Beto. O morador relata que não teria intenção de deixar a vila se o avanço das “terras caídas” não o preocupasse. Segundo ele, restam cerca de 100 metros até o limite de seu terreno, que faz divisa com terras de fazendeiros. Diante disso, ele não vê alternativa senão abandonar tudo o que construiu.


O que antes eram dezenas de metros de pontes da frente da escola até o trapiche foram reduzidas à pouco mais de oito metros até a caída. Fotos: Marco Bezerra e Fernanda Bezerra, 2013/2025.
O que antes eram dezenas de metros de pontes da frente da escola até o trapiche foram reduzidas à pouco mais de oito metros até a caída. Fotos: Marco Bezerra e Fernanda Bezerra, 2013/2025.

Território em transformação


O espaço geográfico naturalmente sofre os efeitos da dinâmica conjugada dos rios e das marés. O pesquisador do Instituto de Estudos e Pesquisas do Estado do Amapá (IEPA) e diretor do Programa Estadual de Gerenciamento Costeiro (Gerco), Dr. Orleno Marques, explica: “é uma região muito recente. Tem cerca de 10 mil anos. São sedimentos argilosos, que absorvem muita água e uma região que também sofre influência de maré. Então, em determinadas épocas do ano, essa região fica sazonalmente ou periodicamente debaixo da água. E toda vez que o solo fica encharcado, ele fica fraco, fragilizado e tende a cair mais rapidamente”.


Segundo o pesquisador, o termo cientificamente mais adequado para o fenômeno é erosão flúvio-marinha, causada por processos fluviais e oceânicos, como correntes, ventos e ondas. A expressão “terras caídas”, embora amplamente utilizada, é informal e, muitas vezes, empregada de forma alarmista.


Visão da erosão sob maré baixa. Foto: Fernanda Bezerra, 2025.
Visão da erosão sob maré baixa. Foto: Fernanda Bezerra, 2025.

Os pesquisadores do Programa de Gerenciamento Costeiro monitoram a região através de retrospectivas de imagens de satélites entre 1985 e 1990 para entender como estão ocorrendo as mudanças. Além disso, eles fazem visitas a campo periodicamente para estabelecer marcos físicos para medir o recuo do solo ao longo do tempo, geralmente em frente a escolas e igrejas dessas comunidades. Em algumas comunidades, as perdas ultrapassam 30 metros em um intervalo de até cinco anos. As pesquisas de campo, no entanto, não alcançam todas as comunidades devido ao alto custo para manter os estudos, em maioria realizados por iniciativa das instituições, não por iniciativas governamentais.


Orleno ressalta que, embora o processo erosivo seja natural, também é fortemente influenciado pela ação antrópica. O ponto-chave da questão concentra-se no fato de que a região é altamente marcada pela bubalinocultura: “É uma atividade de extrema importância para o estado. O processo de abertura de drenagem pela bubalinocultura é secular. No entanto, entendemos com nossos trabalhos que os fenômenos construídos também alteram a dinâmica da paisagem”, ressalta o pesquisador.


O pisoteio dos búfalos é responsável pela criação de valas que alteraram drasticamente o solo do espaço, fazendo os rios perderem a vazão e favorecendo a abertura de outros canais, permitindo a intrusão salina nos rios. Os cursos d'água do norte amazônico são muito sedimentados e de grande velocidade. Com a influência das marés, o nível da água sobe, o que acentua a inundação de planícies e a erosão do solo.


A insegurança estrutural ameaça o funcionamento da E. E. Manoel dos Reis. Foto: Fernanda Bezerra, 2025.
A insegurança estrutural ameaça o funcionamento da E. E. Manoel dos Reis. Foto: Fernanda Bezerra, 2025.

A escola das marés


Às quatro da tarde, a campa anuncia o fim do dia letivo na Escola Estadual Manoel dos Reis. A unidade de ensino modular atende o ensino fundamental I e II e funciona de acordo com o horário da maré desde 2021, devido às rotas fluviais que os alunos precisam percorrer. Além da Palestina, a escola atende mais dez comunidades da região.


Formada em Pedagogia, Educação Física e Educação Especial, a professora e diretora, Darlicleia Tavares, diz que chegou à escola em 2020 e desde então enfrenta as dificuldades constantes de administrar uma escola que não recebe a atenção devida das autoridades. “É muita sobrecarga. Colocam situações que fogem do nosso controle como culpa dos gestores”, lamenta.


Além da influência das marés no horário das aulas, a escola também enfrenta problemas estruturais. O terreno da escola está cedendo em partes e a estrutura da unidade já demonstra sinais de alerta, com rachaduras nas partes de alvenaria e risco de desabamento. A última grande obra ocorreu em 2008. “Em outubro, a rede física veio até a escola para fazer levantamento, tanto para reforma quanto para ampliação do alojamento e para construção de um novo refeitório”, informa a diretora.



Diretora Darlicleia Tavares após fim do dia letivo na E.E. Manoel dos Reis. Foto: Fernanda Bezerra.
Diretora Darlicleia Tavares após fim do dia letivo na E.E. Manoel dos Reis. Foto: Fernanda Bezerra.

Darlicleia explica que a equipe do governo não esclareceu como seria feita a reforma e ampliação da escola, diante do relato dos moradores de que outro curso d'água rio foi aberto na parte de trás da vila, praticamente transformando o lugar em uma ilha. “Se der tudo certo, no ano que vem teremos uma escola nova”, diz a diretora esperançosa.


Uma escola que já foi referência de ensino na região com 100 alunos, atualmente mantém apenas 40, com perspectiva para perderem mais alunos com o passar do tempo. Durante a visita, apenas quatro professores, incluindo a diretora, estavam lecionando na escola. Poucos deles têm capacitação para lidar com alunos com necessidades especiais e a instituição não conta com nenhum professor de Atendimento Educacional Especializado (AEE), apesar da demanda.


A comunidade escolar também sofre com a ausência de um conselho tutelar atuante, frente às diversas denúncias de abuso de menores. “Durante minha estadia aqui, nunca vi um conselheiro tutelar chegar à comunidade. Nós professores aconselhamos, mas não temos como ser rígidos, porque tem crianças com 10 e 11 anos que engravidam. Isso para eles é normal”. Darcicleia garante que o dever de ensinar e trabalhar a educação sexual na escola acontece, mas que é necessário ações conjuntas com o poder público para conscientizar a população.


Vidas em risco


Os problemas da Vila Palestina vão além das questões ambientais. A casa de Adriel, por exemplo, estava sem gás de cozinha quando chegamos. A família cozinhava na lenha, já que o fornecimento de gás ocorre apenas no início de cada mês.


As quedas de energia são constantes. Em 27 horas que passamos na comunidade, apenas quatro delas foram com energia. Em certo momento, Adriel precisou ir até o transformador, localizado distante da comunidade, para ativar a chave de energia que havia disparado. Apenas com botas de borracha, sem nenhum outro tipo de equipamento ou treinamento. Se dependessem dos serviços da companhia de energia, ficariam facilmente um mês inteiro sem energia. A vila é abastecida pelo linhão do Bailique, cuja estrutura está comprometida pela erosão, oferecendo riscos físicos e elétricos às famílias. A CEA Equatorial não respondeu aos questionamentos sobre providências para a situação.


O solo das redondezas também é degradado pela criação de porcos e poucas casas possuem sistema de esgoto sanitário. Os dejetos são despejados diretamente no rio. A água para consumo é retirada do Gurijuba e tratada com produtos químicos, como cloro, sulfato e hipoclorito. Segundo a diretora da escola, a salinização ainda não chegou à Palestina, mas a situação assusta pois já atinge comunidades próximas.


Fezes de animais favorecem a contaminação do solo. Foto: Fernanda Bezerra.
Fezes de animais favorecem a contaminação do solo. Foto: Fernanda Bezerra.

A assistência à saúde é praticamente inexistente. De acordo com os moradores, a vila recebe serviços apenas uma vez por ano, quando agentes se deslocam do distrito de Santa Luzia. Quando precisam de atendimento, os moradores têm que custear do próprio bolso. Renilde, esposa de Adriel, precisará custear seu deslocamento até a cidade de Macapá para o parto, já que o único benefício governamental recebido é o Bolsa Família.


Em casos de emergência, os moradores precisam se deslocar até Santa Luzia por conta própria. “Quem tiver rabeta tá bom. No aterro, quem tiver carro e moto pega, quem não tiver vai pagando até chegar em Santa Luzia. E é caro. Por 12km estão cobrando 100 reais”, diz Beto.


Futuro Ameaçado


“Professora, e depois que cair a escola?”, questionam os alunos da Escola Manoel dos Reis. Infelizmente, a resposta da diretora não é positiva. “Depois que cair, vamos ter que ir embora. Daqui uns anos a Palestina vai sumir e vamos ter que buscar outros lugares para viver”, responde Darlicleia.


A Secretaria de Estado da Educação não deu explicações sobre o estado estrutural da escola e a ausência de profissionais do Atendimento Educacional Especializado. Já o Conselho Tutelar da Zona Norte de Macapá informou, por nota, que não tem conhecimento acerca da denúncia feita pela diretora da escola.


O desamparo da comunidade se agrava com a falta de projetos de lei voltados para a assistência de populações ribeirinhas em casos de eventos naturais. O Projeto de Lei nº 2.916, de 2021, que cria o Estatuto do Ribeirinho, de autoria do senador Jader Barbalho, segue em tramitação no Senado e aguarda análise da Comissão de Meio Ambiente. Não há previsão de quando o projeto poderá ser votado e virar lei de fato. Nessa morosidade das autoridades públicas, comunidades como a Vila Palestina permanecem expostas ao avanço da erosão, sem políticas públicas efetivas de adaptação e sem auxílio.


Sem um plano de ação e adaptação governamental, os pesquisadores também ficam limitados nos estudos e na busca por solução para o problema. No momento, eles investigam como a própria população se adapta às mudanças no espaço geográfico, diante também da falta de incentivo ao trabalho de instituições como o IEPA. “Temos que ser vistos como aliados para a geração de dados sobre as mudanças ambientais. A pesquisa aplicada não é um custo sem volta, é um investimento”, defende o pesquisador Orleno Marques.


A própria Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), que recebeu a certificação de ouro em gestão pública e transparência, não disponibiliza informações sobre as comunidades do Rio Gurijuba. Até o fim da produção desta reportagem, as secretarias estadual e municipal de Meio Ambiente não prestaram esclarecimentos sobre fiscalizações ou políticas públicas para a região.


Aos 56 anos, a esposa de Beto, Maria do Livramento, resume o sentimento coletivo: “está cada dia mais difícil. Todo ano penso em ir embora daqui”. Ela abraça os dois netos que correm alegres pela casa, alheios ao pranto silencioso da avó.


*Reportagem produzida na disciplina de Redação e Reportagem III, ministrada pelo professor Dr. Alan Milhomem

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