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O CONTO DE FADAS DE MARIA

A trajetória de vida da mulher, guerreira, mãe e cabocla marajoara.


Por Ilana Moraes

Nossa protagonista Maria durante uma viagem pelo Marajó. | Foto: Arquivo Pessoal

No dia 12 de setembro de 1966 vinha ao mundo mais uma filha do casal de ribeirinhos Virgílio Pereira e dona Maria Sá, a criança nasceu saudável e com os pulmões a todo vapor já que era possível ouvir os seus berros por quilômetros. A menina nasceu em um dos distritos do município de Curralinho, localizado no arquipélago do Marajó, interior do Estado do Pará.


A criança foi registrada como Raimunda Sá e viveu parte da sua infância no lugar em que nasceu, a família se perpetuou na região e aparentava ser feliz e com indicativos que viveriam ali até a velhice, mas o que ninguém imaginava estava prestes a acontecer e esse fato mudaria completamente a vida de todos daquela família.


Após o nascimento da filha caçula do casal de ribeirinhos, dona Maria resolveu se separar do marido e sair de casa, viver a vida na “cidade grande”, aproveitando a chance que o destino estava lhe proporcionando. E assim foi, ela deixou para trás os seus 5 filhos e agora o seu ex -companheiro de vida, seu Virgílio.


Foram tempos caóticos para o pai solteiro que além de se preocupar com o sustento do lar, agora tinha que cuidar sozinho de 5 crianças menores de 10 anos em um lugar de difícil acesso como são as comunidades ribeirinhas. Ele conseguiu conciliar essas suas obrigações por cerca de uns 3 anos, as crianças estavam crescendo e precisavam estudar e as suas filhas uma hora ou outra iriam precisar de uma figura feminina. Foi com essa ideia em mente que ele resolveu dar as meninas para uns casais de amigos seus que moravam na pequena cidade de Breves, ficando apenas com os 2 filhos homens, que futuramente o ajudariam na lida do trabalho.


A partir deste ponto, caro leitor, embarcarmos pela na história de vida da nossa personagem principal, a jovem menina Raimunda. Aos 7 anos ela se mudou para a cidade de Breves, para morar com o casal de empresários Dora e Jessé Gaia, muito conhecidos na pequena cidade por pertencerem a uma família de renome da região.


A vida da menina ia bem na nova cidade, ela acabou ganhando novos irmãos, tios, tias e avós e até mesmo uma nova identidade, agora ela se chamava Maria, ninguém sabe ao certo com esse apelido surgiu, mas o que todos sabem é que ele pegou muito e assim a Raimunda que morava no interior deu lugar a Maria a menina que morava em Breves.


Maria trabalhava nos afazeres da casa durante o dia, a tarde ela se dedicava aos trabalhos do empreendimento do casal que lhe adotou e a noite ela ia para escola, devido a essa rotina corrida e cansativa para uma criança que estava preste a entrar na adolescência, Maria não conseguia se dedicar aos estudos e o seu desempenho vinha caindo muito até que a jovem menina decidiu abandonar a escola e se dedicar somente ao trabalho, infelizmente essa era uma prática bastante frequente naquela época.


Maria viveu o resto da sua infância se dedicando ao trabalho e os afazeres religiosos na paróquia da cidade, ela afirmou que uma das melhores épocas do ano era o período da festividade da santa padroeira da cidade, era o período em que ela e os seus irmãos e primos afetivos podiam ir se divertir nos brinquedos, quermesses, bingos, etc.


A fase jovem de Maria não foi muito diferente, ela continuava trabalhando no lar da família Gaia e frequentando todos os anos a festa da padroeira, o diferencial era que agora ela e seus amigos podiam frequentar as festas no famoso Guanabara, a sede de um clube muito famoso na cidade. Aos 19 anos, o destino de Maria muda mais uma vez, a jovem agora se muda para a capital Belém e se aventura pela cidade na companhia da sua irmã de sangue Orquídea e dos seus primos do coração pertencentes a família Gaia.

A jovem Maria tinha agora cerca de 20 anos e estava ficando cada vez mais bela, ela possuía cabelos longos, alta, magra, era uma mulata de parar o trânsito, segundo ela mesma destacou em seu relato.


Maria viveu boa parte da sua juventude em Belém, mas sempre que possível retornava para Breves e para a comunidade onde nasceu, local onde seu pai e seus dois irmãos ainda residiam. A vida de Maria nunca foi fácil, mas a jovem não se permitia abater pelas adversidades da vida, e olha, eram muitas. Uma jovem sem estudo e sem experiência de trabalho que não fosse o de casa, numa cidade como Belém, poderia esperar o que? Ela lamentava por não continuar os estudos, e reforçava sempre, que quando tivesse os seus filhos a prioridade seria incentivar os estudos, pois agora ela sabia que o conhecimento abre infinitas possibilidades.


Após 5 anos morando na capital, Maria retorna para Breves com o seu bebê, fruto de um breve relacionamento que a jovem teve enquanto morava em Belém. A jovem retornou para a casa da família que lhe adotou ainda criança.


O destino resolveu agora ser gentil com a jovem mãe e seu bebê, Maria se mudou para sua casa própria localizada num novo bairro que estava surgindo na pequena cidade em desenvolvimento. A jovem mãe se dedicava ao filho e ao trabalho na casa da família que havia lhe acolhido na infância. Lá ela viu a nova geração dos Gaia nascer, os filhos dos seus irmãos e primos do coração.


Quando o seu herdeiro completou 7 anos, Maria resolveu se aventurar novamente no amor, segundo ela era o período em seu filho já possuía uma certa independência e não necessitava dos seus cuidados de mãe zelosa. E assim foi, ela conheceu um jovem rapaz que aparentava ser mais novo, e esse foi um dos motivos que impedia Maria de se relacionar. Mas o jovem era insistente e conseguiu quebrar as barreiras que Maria vinha levantando ao longo dos meses.


Maria se casou novamente e a família ganhou mais um integrante, os três passaram a morar na casa de Maria, aquela que ela conseguiu após voltar de Belém. Parecia que Maria enfim estava conseguindo viver a vida que tinha sonhado quando criança e agora ela não se sentiria tão sozinha. Devido à separação dos seus pais ainda criança e a tudo o que isso ocasionou depois, Maria tinha em mente que quando construísse a sua própria família a prioridade seria sempre manter eles juntos, por ser filha de pais separados, ela não desejava que os seus filhos passassem pela mesma situação. E assim foi por um tempo, após alguns anos de casada Maria teve uma filha, fruto do seu casamento com o jovem persistente. Dois anos depois eles tiveram mais um filho e dessa vez foi um garoto para alegria do pai.


A família agora era composta por cinco integrantes e Maria acreditava que tinha realizado o seu sonho de infância e que agora, sim, teria o seu tão sonhado, felizes para sempre, ela tinha filhos saudáveis e obedientes, um marido trabalhador que lhe amava e o apoio da sua família adotiva e de sangue. Uma bonita história não é mesmo?


Acredito que não para o destino de Maria, pois ele resolveu mudar novamente e dessa vez a nossa protagonista teria o seu belo conto de fadas quebrado. Após mais de dez anos casada, Maria se separou do marido, e o que ela tão temia aconteceu, a história dos seus se repetiu com ela. Maria ficou com três filhos em idades diferentes, o seu herdeiro já era considerado um adulto e os outros dois estavam entrando na fase da adolescência. Ela se sentia perdida, mas sabia que deveria encontrar logo o seu caminho, pois os seus filhos dependiam dela. E foi isso que aconteceu após um mês da separação, Maria voltou a trabalhar na casa dos Gaia e desta vez se dedicaria aos filhos e ao trabalho, esse era o mantra da nossa protagonista.


Diferente da história dos seus pais, Maria queria que os seus filhos se dedicassem exclusivamente aos estudos, essa era a oportunidade de proporcionar a eles algo que ela não teve quando criança.


Maria e os seus filhos assim seguiram a vida na pacata Breves, e quando algum curioso lhe perguntava sobre um novo amor, ela sempre dizia que o momento certo um dia chegaria se assim fosse a vontade de Deus, mas que no momento o seu objetivo era criar os filhos da melhor maneira possível e que somente após o encaminhamento das suas crias, ela teria tempo para pensar em si. Essa é a realidade de grande parte das mães solteiras brasileiras, elas abdicam das suas próprias vidas, dos seus sonhos, da sua vaidade feminina em prol dos filhos. A história da nossa Maria é a história de tantas outras Marias, Beneditas, Antônias, entre outras, nessa imensidão de país.


Maria envelheceu e os seus filhos se tornaram os adultos que ela tanto sonhou, o caçula se formou em Educação Física e trabalha nas academias de Breves, a sua única filha daqui a alguns meses se formar em Jornalismo, já o seu herdeiro segue trabalhando e se aperfeiçoando na área de epidemiologia da sua cidade. Maria conseguiu realizar o sonho da Maria jovem, que era proporcionar um estudo de qualidade para os seus filhos, tenho certeza que a sua versão jovem está muito orgulhosa da sua versão de hoje em dia.


Maria e Manoel após o casamento no civil. | Foto: Arquivo Pessoal

Após esses longos anos, Maria encontrou o seu verdadeiro amor, segundo os relatos da mesma. Em julho de 2022, durante o casamento de uma amiga, Maria conheceu um jovem viúvo chamado Manoel Tavares, eles trocaram os números de telefone e aí se iniciou um breve namoro de adolescentes, Manoel reside em uma cidade vizinha a de Maria, o que era para ser um grande empecilho para os novos pombinhos, acabou se tornando uma “prova” para saber se de fato os namorados estavam dispostos a fazer essa história ganhar novos capítulos.


Após onze meses de namoro, em maio de 2023, Maria e Manoel se casaram no cartório municipal de Oeiras do Pará. Era uma terça-feira linda de verão, onde o sol resolveu nascer com todo o seu esplendor e glória, os preparativos estavam a mil por hora durante a manhã já que o casamento estava marcado para acontecer pela parte da tarde, os acompanhantes da noiva foram os seus filhos mais novos, já o do noivo foram um casal de amigos. Apesar de ser um casamento no civil, a cerimônia foi muito bonita, o amor e companheirismo dos noivos era perceptível para todos os presentes naquele pequeno cartório. A noiva se casou com um vestido social verde na altura dos joelhos, todos os detalhes foram planejados com meses de antecedência. O noivo optou por uma camisa social azul-marinho e uma calça verde musgo que combinava com a cor do vestido da sua amada.


Após a cerimônia, a mais nova família se reuniu na nova casa do casal, com os filhos, noras e netos de Manoel, agora eles eram uma mega família, um verdadeiro remake marajoara do famoso filme de comédia Os Seus, Os Meus e os Nossos de 2005. O casal segue aproveitando a lua de mel juntos, realizando viagens e passeios ao ar livre. Agora, sim, a nossa protagonista teve o seu verdadeiro conto de fadas realizado.


*Perfil produzido na disciplina de Jornalismo Literário, ministrada pela professora Laiza Mangas.


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