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O caos na saúde pública do AP é investigado na série de reportagens “o inimigo invisível"

Confira na nossa reportagem as principais denúncias feitas no décimo episódio da série produzida pelo programa Conexão Repórter do SBT e os resultados na política pública.


Por Luiz Felype


Programa jornalístico exibido no último dia 25 de maio mostrou a realidade da saúde no AP – Foto: Reprodução/SBT

O jornalista Roberto Cabrini esteve em Macapá no último final de semana e documentou com exclusividade o caos que enfrenta a saúde pública no Amapá. A reportagem foi exibida na noite da segunda-feira (25), em uma edição ao vivo do programa Conexão Repórter, no SBT. O documentário faz parte da série “o inimigo invisível”, que mostra a situação de caos vivida em alguns estados em decorrência da pandemia do Coronavírus.


“Um retrato visceral como nunca se viu, no primeiro estado brasileiro a decretar lockdown em todo seu território. O Amapá grita por socorro”, inicia Cabrini durante o programa. O programa também abordou a situação das ruas durante lockdown e o isolamento controlado. Ruas desertas e barreiras em pontos estratégicos para fiscalizar a ação e multar quem descumprir o confinamento.


Roberto Cabrini durante exibição do Conexão Repórter ao vivo: “Às margens do colossal Rio Amazonas, em um Brasil isolado. Seres humanos muitas das vezes esquecidos, enfrentam o pior momento de sua história” – Foto: Reprodução/SBT


O documentário descreveu a situação do Hospital de Emergências, no Centro de Macapá, que tem sido a porta de entrada para os pacientes em estado grave da doença. A situação é crítica: O local está sobrecarregado, com pacientes internados em estado grave e aguardando respiradores serem desocupados. Muitos estão nos corredores, deitados em macas emprestadas pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Isso impossibilita que as ambulâncias supram a necessidade dos outros pacientes que precisam dos primeiros socorros.


Enfermeiro andando entre pacientes internados em cima de macas improvisadas nos corredores do HE – Foto: Reprodução/SBT


Pessoas saudáveis que acompanham pacientes infectados estão sendo expostas, com risco de serem contaminadas. Pessoas saudáveis que acompanham outros pacientes que não estão contaminados também correm risco de voltar pra casa e espalhar o vírus. A estrutura é precária, faltam lajotas no chão, inúmeras infiltrações nas paredes, goteiras em cima dos pacientes, além da falta de leitos, poucos respiradores e a ausência de medicamentos básicos como soro fisiológico e sedativos.


Os próprios acompanhantes se responsabilizam pela compra dos medicamentos, que deveriam ser distribuídos obrigatoriamente pelo estado. Infelizmente, a situação em que se encontra o H.E. não é de agora. Durante visita ao HE, a equipe do SBT registrou médicos preparando o corpo de uma mulher em óbito. Eles utilizaram elásticos das próprias máscaras para amarrar os braços e a embrulharam numa capa, pronta para ser velada. Cenas como essa são comuns na rotina dos médicos e enfermeiros que estão na linha de frente para o combate à doença.


Outro problema é a falta de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs). Enfermeiras relataram que 15 profissionais da saúdem entre médicos e enfermeiros, já morreram salvando vidas e sendo expostos ao vírus por falta de proteção adequada. O enfermeiro que acompanha o repórter na investigação relata que a maior parte do seu equipamento foi aquisição particular. No dia em que Cabrini gravou as entrevistas, enfermeiros receberam os equipamentos depois de semanas sem usar aventais e luvas de procedimentos, itens básicos para os profissionais.


Não é somente os médicos e os enfermeiros que passam por situações difíceis. Mais grave é a atuação profissional em local de risco sem recebimento de salários. Vigilantes que trabalham no hospital estão trabalhando normalmente e não recebem há oito meses. “É muito triste”, diz um vigilante que não quis ser identificado.


Cabrini também visitou o Pronto Atendimento Infantil (PAI) e a UBS Lélio Silva, localizada no novo Buritizal, zona Sul da capital. Locais superlotados e precários.


Enfermeiro mostra uma ala do HE lotada de pessoas. Acompanhantes saudáveis ao lado dos pacientes infectados – Foto: Reprodução/SBT


Professor e enfermeiro, Jackson Gualberto, é o profissional que acompanhou a reportagem e colaborou com as investigações, motivado por uma prestação de um melhor serviço público. O servidor denominou a saúde pública do Amapá como “caos” e confirmou que pacientes morrem todos os dias por falta de medicamentos. “O verdadeiro caos. Guerra, batalha. É um cenário de guerra. Profissionais da saúde tentando salvar vidas, mas infelizmente nós não temos as armas necessárias para o bom combate”, disse.


O professor e enfermeiro Jackson Gualberto – Foto: Reprodução/SBT


“Chegamos a não conseguir dormir, algumas noites choramos pelas vidas que se foram porque cada paciente não é apenas um número. São vidas que não terão mais a oportunidade de retornar aos seus familiares. São pais que não poderão mais voltar para casa. Mães, filhos que perdem sua vida por conta do descaso. Total impotência. De mãos atadas, de mãos amarradas”, lamenta.


Ele relatou emocionado que foi marcado por um paciente que olhou nos seus olhos e pediu para não morrer. Logo após, o enfermeiro teve que fazer seu pacote (envelopar o paciente morto). “Todo profissional sabe, diariamente nós trabalhamos com a morte, mas é duro você lidar certamente com isso, sem suporte”. Cabrini acompanhou-o em um plantão, no sábado (23), dia em que o jornalista chegou à Macapá.


Faltam antibióticos como Azitromicina, Aminofilina e sedativos diversos. Foram confirmados pelo menos 30 pacientes internados em estado grave que deveriam ser entubados e não estão porque não tem respiradores. “Muitas dessas pessoas precisam urgentemente de um respirador, mas não tem respirador para todo mundo. E os médicos constantemente são obrigados a fazerem escolhas”, narra Cabrini.


O sargento reformado José Paulo faleceu no momento em que Cabrini gravava imagens do hospital. Ele serviu a sociedade por 30 anos.


O Sargento da PM, José Paulo em uma foto mostrada no celular pela filha dele. Ele deu entrada na sexta-feira, dia 22 e morreu no dia seguinte – Foto: Reprodução/SBT


“Era para ele estar na UTI, o problema dele estava muito grave. A médica veio aqui, mal olhou em cima dele e passou uma medicação. Nem trouxe nada para examinar nada, nada”, disse a filha dele, identificada como Keila. Ela estava acompanhando o pai no hospital e relatou que ele chegou a ser internado no corredor. Horas depois, ele foi transferido para uma ala de infectados, somente com o oxigênio. Ele precisava de um respirador.


O prefeito da capital, Clécio Luis – Foto: Reprodução/SBT


O prefeito descreveu a situação de Macapá como uma “tragédia”. Em uma ação combinada, Prefeitura e Governo do Estado decretaram o lockdown em Macapá e todos os outros municípios do Amapá. Clécio disse que as lojas estão fechadas por causa do isolamento social e sabe que representam pais e mães de família desempregados. Entretanto, acredita que o lockdown diminuirá a maior taxa de contaminação do país, lugar que nosso estado ocupa hoje no cenário brasileiro.


“Nós estamos em uma contaminação descontrolada - acelerada. Isso dá tempo também ao Estado e ao Poder Público de se organizar mais. Nós estamos com essa deficiência tremenda de infraestrutura”, afirma. Clécio revelou que tem conhecimento sobre a revolta da população frente ao descaso na saúde pública. Reforçou que as UBS servem para atendimentos primários e todos os pacientes internados no Lélio Silva deveriam ser transferidos aos hospitais estaduais para receberem leitos de UTI.


Sobre o tema de desvio do dinheiro público, o prefeito da capital afirmou que a Prefeitura recebeu R$ 1 milhão e 600 mil reais, no final de março, e essa quantia representa dois reais por habitante. “É ridículo”, reclama Clécio sobre valores e garante que esse dinheiro está sendo usado de forma transparente e não existe indício de superfaturamento. “Nós estamos vivendo uma loucura do mercado. Todos preços dispararam. Tem uma carência gigantesca de matéria prima, portanto tem desabastecimento”. Além disso, “estamos em desvantagem porque somos pequenos, porque compramos pouco em relação ao resto do Brasil” e a Prefeitura pagou mais caro por medicamentos como azitromicina e ivermectina.


Em seu perfil oficial no Instagram, Clécio divulgou a doação de duas unidades móveis para entrega de medicamentos aos suspeitos de covid-19. Uma fica em frente à UBS Lélio Silva e a outra em frente à unidade Álvaro Corrêa. É necessário apresentar receita médica e documento com foto para retirada de remédios como xaropes, azitromicina, ivermectina, cloroquina, entre outros.


Foto: Reprodução/Instagram


O Governador do Amapá, Waldez Góes, disse que está acompanhando tudo o que passa no Amapá e tem tomado decisões muito fortes, nesse sentido. “Isso para gente choca, porque a pandemia agrava ainda mais o problema frágil do sistema de saúde no Brasil. É um problema que o mundo não estava preparado”, destaca. Ele afirmou que 80% dos R$ 51 milhões de reais que chegaram semana passada foram transformados em leito e medicamentos, mas “não é fácil”.


Ressaltou, ainda, que são “fake news” a chegada de um bilhão de reais e a existência de três leitos de UTI, escondidos na casa do governador. Góes disse que tudo isso “é uma mentira bem contada”, que não existe nenhum leito na casa dele e que notícias como essa geram pânico à sociedade. “A responsabilidade é minha ou é da pessoa que cria isso e das pessoas que espalham? De quem é a responsabilidade? ”, pergunta. Waldez não faz ideia de onde surgiram esses boatos e que já processou três pessoas por isso.


O governador do estado, Waldez Góes – Foto: Reprodução/SBT


A visita do Jornalista Roberto Cabrini ao Amapá foi uma luz no fim do túnel para os amapaenses. “Muito obrigada, porque Deus usou você para vir aqui. É onde o Amapá te agradece. O Amapá pede socorro”, diz uma moça com a respiração ofegante e infectada pelo vírus. Ela entrou com uma liminar na justiça para conseguir um leito de UTI para o pai, que passou mal, teve convulsões e ficou horas sentado em uma cadeira com oxigênio, aguardando um leito. Ela venceu a liminar, mas foi tarde demais. O pai dela não resistiu.


Foto: Reprodução/SBT


Por onde Cabrini passava, várias pessoas o procuravam para reclamar sobre o descaso da saúde pública e relatar a condição em que parentes estavam internados. Durante a reportagem, Roberto falou que sentiu uma sensação de impotência por não conseguir falar com todos. “Cabrini, o povo do Amapá te agradece de coração”, disse um rapaz. No Twitter, as palavras “Cabrini”, “Macapá” e “Conexão Repórter” se tornaram os assuntos mais comentados no Brasil. “Obrigada Cabrini por dar voz ao meu estado que parece que está esquecido #ConexaoReporter”, diz uma internauta.


Na rede social, o jornalista escreveu. “Jornalismo apartidário e crítico, mas construtivo sempre. Qualquer um que atente contra democracia terá sempre minha oposição”. Em outro post, ele escreve “um abraço carinhoso ao incrível povo do Amapá”. Nossa cidade e nosso estado ganharam repercussão nacional, não por suas atrações de beleza natural ou gente alegre, mas, infelizmente, pelo cenário da sua pobreza e falta de estrutura básica no serviço da saúde pública.

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