Mais que medalhas: o legado de Luís Silva dentro e fora da piscina
- AGCom

- 2 de nov. de 2025
- 6 min de leitura
Atualizado: 14 de nov. de 2025
Ex-atleta paralímpico e nono maior medalhista da história do Brasil, Luís Silva, 43 anos, transformou limitações físicas em potência esportiva e inspiração social.
Por Bruno Ribeiro*

O hino nacional ecoa pelo ginásio aquático. Luís Silva mantém o queixo erguido e o olhar preso na bandeira que sobe lentamente. Há brilho nos olhos e um leve tremor nos lábios, como se tentasse conter as lágrimas. Quem observa de fora talvez não saiba, mas ali, sobre aquele pódio paralímpico, cabem madrugadas geladas, ombros doloridos, quilômetros de braçadas e a certeza de que representar o Brasil é uma honra que vale cada sacrifício.
Hoje, sentado na mesa da coordenação de esportes da Escola Barão do Rio Branco, em Macapá, Luís, atualmente com 43 anos, fala das competições como quem revisita um lugar sagrado. As palavras saem com cadência, quase como se ainda estivesse dentro da piscina. “Eu lembrava de cada dia de treino, cada dificuldade, cada vez que pensei em parar… e de repente estava ali, com o hino tocando. Era a minha vitória, mas também de quem acreditou em mim”, relembra.
A leveza com que encara a vida talvez tenha nascido junto com ele. Luís veio ao mundo em Bagé (RS) com amputação congênita nas duas pernas — direita até o tornozelo, esquerda até o joelho — e ausência da mão direita. Naquele tempo, não havia ultrassom, e a notícia pegou todos de surpresa. Ele conta rindo que os médicos enrolaram o recém-nascido numa manta, mostrando apenas o rosto para a mãe, que insistiu em ver o corpo todo. “Quando ela me pegou no colo e viu que faltava um braço e as pernas, só disse: ‘Mas o nariz dele é muito bonito’. Desde o primeiro minuto, minha mãe me ensinou a rir junto da vida”, conta com leveza.

Quem convive com o paratetla logo percebe o bom humor com que ele leva a vida. Ele é do tipo que transforma imprevistos em piada, que encara tropeços — literais e figurados — com uma boa história para contar. No trabalho, não perde a chance de soltar um “dá uma mãozinha aí pra mim” em tom de brincadeira, arrancando sorrisos até nos dias mais corridos. Em casa, diverte a esposa dizendo que “não está sentindo os pés”, para depois completar com um olhar maroto. Para ele, rir não é apenas uma reação, mas um jeito de viver e de mostrar que a vida, apesar de séria, fica muito mais leve quando a gente se permite se divertir com ela.
Essa forma de ver a vida é uma defesa. Ainda pequeno, viveu o que hoje reconhece como preconceito e capacitismo. Na escola, muitas vezes foi afastado das aulas de educação física, colocado para apitar jogos ou “ficar olhando” enquanto os colegas participavam. Sofreu bullying, ouviu apelidos cruéis, e sentiu na pele olhares de estranhamento ou pena. “Me chamavam de robocop, diziam que eu era de outro planeta”, relembra. Com as meninas, a situação era ainda mais delicada — algumas se afastavam por medo da reação dos outros.
Com o tempo ele compreendeu que as pessoas precisam aceitá-lo como é. “As pessoas vão ter que gostar de mim da forma que eu sou”, desabafa. O esporte foi muito importante para que Luís também se aceitasse. Apesar de ter nascido com deficiência, ele admite que também tinha barreiras internas. Evitava usar bermuda para não mostrar as próteses, até que, em uma primeira competição, viu outros atletas amputados se movimentando com naturalidade. Naquele dia percebeu e disse para si mesmo: “É besteira, é besteira (esconder as próteses). Aqui é o meu lugar! Hoje é difícil me ver de calça, eu prefiro estar de bermuda, mais à vontade. E me aceitar assim”, afirma.
Foi em Recife, sua “segunda casa”, que mergulhou de vez no esporte. Tinha 11 anos quando um amigo, meio em tom de desafio, disse que seria engraçado vê-lo nadar. “Entrei na piscina para provar que podia. Saí com um novo propósito”, explica. O episódio, quase banal, abriu caminho para treinos no Clube Náutico Capibaribe e na AABB Recife, onde nadava lado a lado com atletas olímpicos, completando até 10 quilômetros por dia.
O ritmo exigia disciplina — e isso ele tinha de sobra. Filho de militar, adotou cedo a lógica de quartel: horário, foco e persistência. “Meu pai dizia que, se eu não fosse atleta, seria um excelente militar. Ele estava certo. De certa forma sou um guerreiro. Quando a gente está nas competições, a gente está defendendo a nossa pátria”, diz o paratleta.

Quatro anos depois do primeiro mergulho sério, Luís estava em Sydney (2000) para a sua estreia paralímpica. Voltou com três medalhas de pratas e uma de bronze. Em Atenas (2004), ele conquistou o ouro no revezamento 4x50m medley, e em Pequim (2008) encerrou a carreira internacional. Foram sete medalhas paralímpicas, cerca de 20 em Jogos Parapan-Americanos, recordes mundiais e mais 300 medalhas no total. No currículo, ainda ostenta a condecoração como Cavaleiro da Ordem de Rio Branco, concedida pelo Itamaraty.
Em 2016, mudou-se para Macapá (AP). Cidade que escolheu para ficar próximo da filha, macapaense. Na cidade chegou a competir, mas por conta de lesões no ombro teve que parar aos 41 anos. “Hoje a minha saúde não deixa, um ombro não aguenta, é muita dor para nadar, o meu ouvido é estourado por nadar, de tantas vezes que me inflamou, mas se não fosse isso, ainda estaria competindo pelo Amapá. Eu cheguei competir pelo estado, ganhei medalha. Acho que eu poderia não estar no nível internacional, mas entre os três (melhores) ainda poderia indo”, conta em uma mistura de pesar e orgulho.
Aposentar-se do esporte foi um processo difícil. Entre dores crônicas, a falta de patrocínio e o vazio deixado pela rotina intensa, enfrentou momentos de incerteza. Seguindo o conselho do irmão, cursou Educação Física — uma graduação que, entre treinos e competições, levou dez anos para concluir, mas que lhe proporcionou um novo caminho após deixar as competições.
Começou a dar aulas. No início, enfrentou curiosidade e até dúvidas por parte dos alunos: “Professor, o senhor vai dar aula mesmo?”. Com paciência e bom humor, foi quebrando barreiras. Conta que, quando perguntam sobre a ausência das pernas ou do braço, prefere responder de forma leve, para ensinar que a deficiência existe, mas não impede ninguém de ensinar, competir ou liderar. O vínculo foi tão forte que, quando assumiu a coordenação de esportes e deixou a sala de aula, muitos choraram e pediram sua volta.

Hoje, na coordenação de esportes da Escola Barão do Rio Branco, Luís organiza jogos internos, treina atletas para competições estaduais e nacionais e atua em projetos sociais como o “Amigos da Água”, em parceria com o Exército Brasileiro. Integra o Conselho Administrativo do Comitê Brasileiro de Clubes Paralímpicos e colabora com núcleos de paradesporto, buscando reduzir o “degrau” que separa a prática escolar da profissional. “Eu gosto muito de dessa parte social que o esporte tem, que o esporte traz. Sempre falo que eu quero retribuir tudo que o esporte me deu”, explica.
Fora do esporte, é pastor evangélico e palestrante motivacional, compartilhando sua história para inspirar outros paratletas ao relembrar sua infância, quando sonhava em ser astronauta ou caminhoneiro. "Queria conhecer os cinco continentes", dizia. E conheceu — como atleta de elite, representando o Brasil nas mais diversas partes do mundo. Um sonho realizado. Mesmo com as limitações físicas, Luís sempre acreditou que poderia ser alguém, mesmo quando muitos duvidavam disso. Hoje, sua vida é a prova de que não há barreiras maiores que a determinação.
“Sempre trabalhei, sempre me esforcei, mesmo com as pessoas dizendo que não, muitas vezes dizendo que eu não poderia alcançar nada. E sempre estudei, sempre trabalhei bem e aí Deus me abriu um caminho através do esporte. A minha carreira me levou a ser atleta de nível internacional e hoje me orgulho muito de ter ido nos cinco continentes e ter realizado o meu sonho de infância”, afirma.
Com humor afiado, Luís costuma dizer que “o impossível é apenas um ponto de vista” e que até piadas sobre sua deficiência podem virar ferramenta de educação. Sua mensagem final resume o que viveu: “Quero deixar o legado de fazer as pessoas lutarem pelo seu espaço, acreditarem no seu potencial e se desenvolverem onde quiserem, na vida ou no esporte. Todos temos limitações, visíveis ou não. Mas cada um tem também um potencial — e é nele que devemos focar.”
E, quando termina a frase, o sorriso volta. O mesmo sorriso de quem já viu a bandeira subir e ouviu o hino ecoar, sabendo que ali, diante de milhões, estava um brasileiro que venceu — dentro e fora da água. Luís Silva não é apenas um nome na história dos esportes paralímpicos. É a prova viva de que determinação, coragem, fé e até umas boas risadas podem vencer qualquer barreira e conquistar seus objetivos.
*Perfil produzido na disciplina de Redação e Reportagem II, ministrada pelo professor Dr. Alan Milhomem.



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