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Juventude negra e o esperançar na luta coletiva | Fala, Preta!

Por Elane Albuquerque

Professora Ativista Social e Antirracista

Algum tempo atrás, me deparei com essa postagem na rede social. Mais uma das inúmeras críticas sobre o movimento social, especialmente sobre o movimento negro, que enchem o “novo ativismo virtual”.

A postagem foi de um homem negro, que conheci no movimento de juventude negra e provocou comentários também de outros/as jovens negros/as, pares, concordando com a ideia da postagem. Na minha compreensão, a postagem potencializa o governo atual enquanto poder regulador sobre nossas vidas; ao mesmo tempo em que torna fatalidade a ação do movimento negro como sujeito político coletivo. Portanto, não vislumbra qualquer alternativa de enfrentamento organizado e coletivo, no atual contexto da política brasileira, contra as desigualdades e violências que atravessam a população negra.

Os últimos episódios raciais, que tomaram conta das manchetes de notícias e das redes sociais, mostram para “bom/a entendedor/a” como o racismo se materializa nas nossas relações cotidianas. Mas, o que me provocou nesta postagem não foi mencionar o governo, mas a aparente desesperança desses/as jovens negros/as na luta coletiva.

Essa percepção fatalista de que nada podemos fazer para elaborarmos - como irmãs e irmãos - estratégias para construção de um mundo melhor para os/as nossos/as, me incomoda muito quando proclamada por mim e meus e minhas contemporâneos/as. Mas, perceber esse sentimento de impotência, falta de fé e cansaço, expressados por jovens negros/as, me traz a sensação de que algo eu fiz de muito errado na minha trajetória como ativista (crente da aposentadoria deste).

Realmente, não tenho mais o vigor de antes e muitas vezes me peço desculpas por estes mesmos sentimentos - cansaço, derrota – da sensação que nada adianta, que nada muda e nem mudou e que estamos cada vez nos afundando mais em uma (des)humanidade perversa. Mas, aí, me desculpando (o que tenho feito muito ultimamente), recobro a consciência e compreendo que o fatalismo sobre o “movimento negro” tem sido também minha grande desculpa para minha “preguiça política”. E, digo a mim, que a revolução negra e feminista não se faz individualmente, através das redes sociais, com meus “textões” que reclamam, denunciam, criticam... porque a minha a atuação morre exatamente neste mesmo palco, no qual atuo o papel de revolucionária justiceira. Ou seja, nada se concretiza em ação política libertadora junto ao/a outro/a ou com o/a outro/a. É o oposto do Ubuntu, do sentido de axé. Resistência, luta e vida negra não se fazem a partir do indivíduo; não se faz só, porque a cura de nossas dores, do que nos adoece e nos mata, não se realiza sem o estar junto, se realiza somente e unicamente a partir do amor (quero falar sobre esse amor entre nós em breve).

Pausa para um pensamento que me chegou ao meio deste texto. Mas, que justifica a necessidade diante da urgência do contexto. Lendo o livro “Memórias de Plantação”, de Grada Kilomba, quando esta destaca os cinco mecanismos de defesa do ego pelos quais o sujeito branco passa para ter a capacidade de "ouvir" o sujeito negro (negação; culpa; vergonha; reconhecimento; reparação), me decepcionei ao constatar que na nossa sociedade brasileira ainda estamos, duravelmente, na primeira fase - a de “negação”. Enquanto países da Europa, como a Alemanha, estão trabalhando para superação da última fase, a fase da “reparação”. Então, como podemos ter o direito de se desesperançar?

O movimento social, especialmente o movimento social negro, nos adoece. Viver o racismo e lutar contra o racismo é adoecedor. Ser mulher preta é adoecedor. Ser jovem preto/a também deve ser, logicamente. Então, reconhecer a necessidade de se recolher, às vezes, é importante e compreensível. Mas, é preciso entender que este recolhimento não pode significar que estou me priorizando diante dos/as outros/as. Esta é uma lógica ocidentalizada, em que o indivíduo e a subjetividade sobrepõem à coletividade, no sentido egoísta do ser. Não é isso.

Compreendo que muitas vezes, como neste momento que agora vivencio, me priorizar tem sido também uma estratégia para me refazer, no sentido ancestral do Ubuntu, lembra? Sendo mulher negra, não existe espaço para individual pelo individual, sem esse encontro com o coletivo, porque eu carrego muitos/as em mim, toda a minha ancestralidade, todos/as/es aqueles/as com os/as quais compartilho a existência no presente e todos/as/es que ainda virão de mim. Nada é mais certo do que “eu não ando só”. E esse diálogo constante entre eu e o coletivo faz parte do meu processo de cura, da minha compreensão de ser mulher negra, de ser preta, e esse sentido de axé que me sustenta. Afinal, existe saúde individual se os/as teus e tuas estão doentes? Sou mulher de axé e acredito que ninguém se cura sozinho. Eu me fortaleço e me curo no coletivo, incluindo aí a natureza como santuário curador e potencializador.

Então, na prática, colocar o fatalismo e a incapacidade de ação política em cima do "movimento", formado justamente pelos diversos indivíduos com um propósito comum, me parece mais uma forma de me convencer a continuar na minha própria zona de conforto, que é acreditar que bravejar minhas impressões na telinha de celular ou notebook seja o suficiente. Não é.

Ser ativista requer esforço, trabalho, disposição para o diálogo com o diverso, com a divergência, construir possibilidades mesmo no conflito, se decepcionar, se fragmentar, se destruir e se reconstruir tantas vezes quantas se fizer necessário. O movimento negro não é uma massa homogênea. Ser ativista negra/o consiste em entender que não precisamos ser iguais, termos as mesmas opiniões. Porém, acima de tudo, ter amor por quem veio antes e quem virá depois. É para estes/as que precisamos deixar um mundo melhor. Fizeram o mesmo por nós e precisamos continuar fazendo, de maneira circular mesmo. Isso é duro, é desgastante, mas é também a única forma que conheço de expressar meu amor por quem eu sou, pelos/as/es meus e minhas e pelos/as/es que também não são, mas fazem parte dessa existência. Os/as/es que vieram antes de nós passaram por contextos históricos não menos perversos, pelo contrário. Mas, nos deixaram o resultado de muitas lutas vencidas das quais eu desfruto. Como diz a canção, “somos herdeiros de um grande amor”. Então, preciso perguntar o que eu fiz com essa herança e o que estou deixando de herança para quem estar por vir?

Talvez o que me desestabilizou nesta postagem foi que ela me coloca em dúvida. Coloca em dúvida a ativista orgulhosa da trajetória e tranquila certeza que já fez o suficiente e pode se aposentar (afinal, já plantei árvores, tive filhas, escrevi livros e lutei pela justiça social...). Talvez, o incômodo vem porque dentro de mim, o fatalismo - em cima do movimento negro, feminista - também tem sido a desculpa perfeita para o meu comodismo diante da necessidade de trabalhar para a transformação social. Me recolher no meu mundinho virtual e culpar outros/as ou outro/a pela minha inoperância tem sido o cúmulo do egoísmo das necessidades urgentes que me chamam!

O Exu em mim é movimento.

Foto: Tandem X Visuals/Unsplash




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