top of page
  • Foto do escritorAGCom

Espaços teatrais no Meio do Mundo: a resistência das artes cênicas em Macapá

Com as portas do Teatro das Bacabeiras fechadas há quase quatro anos, a prática teatral mostra o potencial de sua existência em diferentes lugares de Macapá.


Por Mickael Marques

O Centro de Experimentação Artística e Cultural Encanto dos Alagados fica localizado no bairro do Muca. | Foto: Reprodução Facebook / Encanto dos Alagados

O teatro faz parte da identidade local e é um dos principais elementos que promovem a arte e cultura amapaense. Em Macapá, para que essa prática seja encontrada é necessário buscar por espaços espalhados pela cidade, visto que o maior palco teatral do estado do Amapá, o Teatro das Bacabeiras, está fechado em função de uma obra que já ultrapassou seu prazo de finalização, previsto para o dia 20 de março deste ano. As motivações partiram de uma modernização milionária da área interna do teatro.


Por mais que o Teatro das Bacabeiras, prédio inaugurado em 1990 e localizado no centro de Macapá, seja uma das principais referências da cidade, outros espaços, espalhados pela capital, são responsáveis por receber arte durante o ano. Esses lugares podem ser encontrados da zona norte à zona sul, com o potencial de subsistir sobre as circunstâncias e manter viva a prática teatral do meio do mundo.


Foi a partir desse princípio que o Centro de Experimentação Artística e Cultural Encanto dos Alagados construiu a sua própria história em uma área de ponte no bairro do Muca. O lugar tem 13 anos e surgiu a partir das motivações de trazer a arte para dentro da comunidade.


O idealizador foi Wenner George, conhecido também como Romário, que já morou em cidades como Santana e Porto Grande antes de encontrar, no bairro do Muca, não só a sua nova casa como também a possibilidade de transformá-la em um ambiente artístico. “Quando eu comprei essa casa aqui e eu vi que tinha um espaço grande na frente, foi quando eu construí o primeiro tablado, esse aqui é o terceiro, foi quando começamos a fazer as apresentações, teve grande aceitação da comunidade, grande aceitação dos vizinhos”, conta.


No decorrer dos anos, Romário menciona já ter recebido estudantes do curso de Licenciatura em Teatro da Universidade Federal do Amapá (Unifap) e grupos de fora do estado, como os Dandes de Mato Grosso do Sul, Maria Cutias de Minas Gerais e Manjericão do Rio Grande do Sul. Além disso, o lugar também realiza suas programações, a exemplo do Carnaval dos Encantados e o auto de Natal.

O Grupo Cangapé trabalha com as artes cênicas e circenses. | Foto: Reprodução Facebook / Grupo Cangapé. um

No Araxá, o Grupo Cangapé passou a realizar suas atividades em um galpão alugado, capaz de comportar mais de 70 pessoas. O grupo, que já passou por prédios abandonados, centros comunitários e igrejas, escolheu o espaço a partir de sua amplitude e boa localização. O galpão, onde antes era uma oficina de carros, passou a receber os alunos para ensaios semanais que resultam em grandes apresentações testemunhadas pela comunidade.


Desde março deste ano, o ponto tem se estabelecido como um novo lar artístico da cidade. “Em si, ter mudado pra cá, tem uma qualidade melhor nos nossos treinos e uma qualidade melhor para o nosso público aqui do bairro, além de dar uma visibilidade maior para o público de fora que ainda não conhece nosso trabalho. Na maioria das apresentações, a gente sempre consegue um público novo”, comenta José, um dos artistas que faz parte do grupo.


Assim como o Encanto dos Alagados, Cangapé construiu sua identidade a partir do ideal de acesso à cultura para a comunidade. O grupo surgiu em 2006, no bairro do Araxá, e hoje é reconhecido como uma das principais referências do meio artístico amapaense. A companhia realiza apresentações que dialogam com o universo do teatro e a arte circense. O espetáculo mais conhecido é Se Deixar Ela Canta, prestigiado em diferentes estados brasileiros.


À frente do grupo estão Alice Araújo e Emerson Rodrigues. Os artistas levantam questionamentos sobre o acesso ao Teatro das Bacabeiras e a relação do espaço com os moradores do bairro. “A gente constrói a nossa história dentro da comunidade, em uma área periférica, como a gente leva esse público pro Teatro das Bacabeiras? Aqui só passa um ônibus. [...] Para um pai de família que quer levar dois, três filhos para o teatro, como ele se desloca daqui pra lá e paga bilheteria?”, questiona Emerson.


A partir da perspectiva de ativismo cultural, Alice pontua as questões que devem ser debatidas perante o atual cenário de espaços teatrais em Macapá. “Se a gente tivesse políticas públicas consolidadas, agora o que era pra tá sendo feito? Quer dizer que o Teatro das Bacabeiras está fechado? Então a gente vai aqui potencializar os espaços cênicos que estão funcionando”, diz.


Um casal aproveitou o terreno de casa para criar o Teatro Marco Zero. | Foto: Reprodução Facebook / Teatro Marco Zero.

Dentre os espaços em que Alice menciona, o Teatro Marco Zero tem se mostrado o palco para diversos espetáculos desde sua fundação, há mais de 20 anos. Localizado no Perpétuo Socorro, o prédio conta com arquibancada e camarim. Os donos, Daniel de Rocha e Tina Araújo, são casados e apaixonados não só por teatro, mas também pela capital Macapá e pelo Rio Amazonas, que fica a poucos metros do espaço.


Daniel conta sobre a criação do lugar, que está diretamente ligada com um episódio ocorrido no Teatro das Bacabeiras. Seu grupo teatral foi impedido de ensaiar em uma das salas do prédio destinada a esse propósito, por conta dos responsáveis por um espetáculo em exibição. No mesmo momento, Daniel e seus colegas esperaram o público sair para levantarem a voz contra a atitude. Depois de uma vaia para o diretor do evento, os artistas debateram sobre a importância de ter um lugar fixo. “Mas quando chegou em casa, um dos artistas disse pra gente: Daniel o que é que a gente tá fazendo, cara, que a gente não tem um espaço próprio, um teatro?”, lembra o ator e dramaturgo.


Foi assim que o terreno de Tina e Daniel fugiu de todos os planos e se tornou o Teatro Marco Zero. “A gente pensava em construir uma piscina aí atrás, a gente pensava em construir apartamentos de aluguel, que dava pra construir umas 10 kitnets aí que deixavam a gente bem pro resto da vida, mas foi mais forte a arte. A gente preferiu o teatro”, relata.

O teatro funciona como sede de três grupos. | Foto: Reprodução Facebook

Mesmo com os desafios de construir e manter o local, o teatro atualmente funciona como sede dos grupos Marco Zero, Pé na Lua e Sal da Terra, além de também ser o espaço da Federação de Teatro Amapaense. O lugar já reuniu diferentes grupos que fazem uso de espaços teatrais e exibem suas peças nos palcos de Tina e Daniel. Um deles é o Beco Teatral, grupo que estreou em 2018 a partir da iniciativa de Elielson Júnior, escritor e estudante de cinema, e Iury Souza, estudante de Teatro da Unifap.


Elielson reconhece a importância de um teatro ativo e as influências de um palco disponível na apresentação de uma obra. “A gente precisa de mais lugares artísticos, tá em reforma, mas e aí pra onde a gente vai? Eu sinto muita falta desses espaços que a gente pode apresentar e ensaiar”, afirma.


Além disso, o escritor também direciona os holofotes para outro tipo de espaço que deveria ser gerenciado com mais atenção. “As redes sociais do governo e prefeitura seria interessante ter um ponto voltado para esses eventos que acontecem. Uma das coisas que reclamam é: não soube que teve tal peça porque não foi divulgada”, pontua Elielson.


Os próximos projetos do grupo serão o clássico “Meninas Malvadas” e a “A Anfitriã”, adaptação de um livro de Elielson. Os dois espetáculos já estão na etapa de ensaios e devem ser apresentados nos próximos meses. Com as portas fechadas do maior teatro amapaense, as peças devem recorrer aos espaços que, por mais que muitas vezes não recebam os recursos e atenções necessárias, estão presentes no cenário teatral de Macapá.


A reforma do Teatro das Bacabeiras começou em 2020 com investimentos que somavam R$ 2,3 milhões, incluindo emendas acessadas pela bancada federal, além da contrapartida do Governo do Estado. As obras previam novas poltronas e carpetes, Iluminação, catracas, equipamentos de informática, móveis e softwares. Em fevereiro deste ano, a secretária de Cultura, Clicia di Miceli disse que o projeto precisou de readequações e, por isso, o teatro ficaria fechado em 2023. A previsão é da reabertura do espaço em 2024.



*Reportagem elaborada na disciplina de Redação e Reportagem II, ministrada pelo professor Alan Milhomem.


Comentários


bottom of page