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Arquipélago do Bailique sofre com salinização do Rio Amazonas

Localizado a 180 quilômetros da capital Macapá, no estado do Amapá, moradores relatam danos ambientais e abandono do poder público.


Por Rayane Penha


Foto: Rayane Penha

A população do Bailique é de, aproximadamente, 13 mil habitantes, de acordo com o levantamento da Prefeitura de Macapá e dos próprios moradores. O dobro que foi registrado no último Censo em 2010 – 7.618 mil habitantes. No arquipélago amapaense, mora pescadores e extrativistas que ocupam há mais de um século a região. O lugar é formado por oito ilhas e mais de 50 comunidades.


Ilhadas e sem água


Na comunidade de Macedônia, uma das maiores do arquipélago, conhecemos Elsa Gomes, 55 anos, “nascida e criada no Bailique”, ela conta sobre a vida dedicada à pesca e a nossa conversa é interrompida pela chuva forte. Elsa corre para abrir a tampa de uma pequena caixa d’água, localizada estrategicamente, embaixo do cano de escoamento da calha. Quando a caixa enche, é a vez de aparar o que ainda for possível em baldes e bacias. Essa é a forma que ela e a família encontraram para ter água doce depois que água do Rio Amazonas ficou salgada. “Todos esses dias eu estava pedindo pra Deus que chovesse, que desse uma chuvada”, diz enquanto corre para aparar a água da chuva que usam para beber e fazer a comida.


Foto: Rayane Penha

Nos dias em que não chove, a forma dos moradores terem água potável é indo de “catraia” – pequena embarcação motorizada, ou remando em busca de igarapés, braços do Rio Amazonas, onde a água ainda está doce. Nós acompanhamos algumas famílias que saem todos os dias na enchente da maré em busca de água doce. De catraia levamos cerca de 30 a 45 minutos para chegar em um local, onde o rio ainda está doce. Mas algumas famílias vão a remo e demoram muito mais tempo para chegar, como é o caso de Ane do Carmo, que encontramos buscando água. Ela e um grupo de mulheres se ajudam na busca de água doce para beber.


Foto: Rayane Penha

Ane do Carmo, 25 anos, é mãe de 3 filhos e moradora da Vila Progresso, a principal vila do arquipélago do Bailique. Encontramos Ane, duas mulheres e crianças a bordo de uma canoa. Juntas remavam em busca de um braço do Amazonas, onde a água não estivesse salgada. Na pequena embarcação levavam alguns baldes de água e várias garrafas PET. “Uma enche a água da outra, só numa maré. Tudo no balde, que não tem energia também, né? Tem que ser tudo no balde”, conta Ane.


Foto: Rayane Penha

Para ela, a relação com as vizinhas é de irmandade, pois todos os dias elas se unem em busca de água doce. Durante a maré cheia, com os igarapés mais fundos, elas fazem várias viagens por dia para conseguir abastecer a casa de todas com água. “Tem que ter a união no meio de nós, para ajudar uma à outra, como mulher. O motivo de fazer isso é o companheirismo delas com nós”, relata Ane.


Mais acima do igarapé avistamos Chicão, um pescador de 48 anos, morador da Vila Macedônia. Ele estava dentro do rio, com uma canoa cheia de galões vazios para serem enchidos e retornados para casa com água doce, prática que, segundo ele, já virou rotina: “já são dois anos assim. Pra gente que tem família, tenho que deixar outros trabalhos pra vir atrás de uma água melhor, principalmente pra gente tomar, porque a gente não tem condições de estar comprando, a água se tornou cara também”.


Ele nos conta que leva o máximo de água doce possível, não só para beber, como também para as mulheres da casa tomarem banho. Nesse caso, elas são a prioridade porque a água salgada deixa a pele cheia de feridas. Chicão é hipertenso e diz se sentir mal ao entrar na água salgada: “eu quando tomo banho na água salgada, a modo que o corpo esquenta, fervia”.


Foto: Rayane Penha

A Prefeitura de Macapá e o Governo do Estado fizeram algumas ações para levar água potável para o Bailique, mas nenhuma delas foram efetivas. O agente distrital do arquipélago, que representa a prefeitura do distrito, Marlon Teixeira, 41 anos, falou que a Prefeitura contratou um pesquisador para realizar um estudo sobre a água e que a solução encontrada é a construção de cisternas: "guardar água por cisternas e conscientizar a comunidade para economizar”, explica Teixeira.


Mas como ficam as comunidades enquanto o projeto de cisternas não sai do papel? Por ora, a Prefeitura tem feito envios esporádicos de água potável. Segundo o representante, que chama o fornecimento de água de “doação”, a atual ge stão forneceu mais de três mil fardos de água para o Bailique. Mas tal forma de fornecimento é claramente insuficiente. Chicão foi um dos que receberam os fardos, mas eles não duraram muito tempo.


Foto: Rayane Penha

“Nós ganhamos uma água, deram quinze pacotes de água, mas quinze pacotes de água para uma pessoa que tem a família grande não resolve o problema. Aí agora a gente tem que vir pegar, tem dias que a gente vem pegar uma água... Dá uma água boa, mas tem dias que dá uma água meia salubre, aí os intestinos das crianças esbandalham e a gente corre pro posto de saúde. E aí é aquele problemão”, lamenta ele.


A salinização da água do Rio Amazonas não só dificulta o acesso à água doce, como vem prejudicando a maioria das famílias do arquipélago, que vivem da pesca e da produção do açaí. "O peixe da água doce vai embora e nem da água salgada está tendo quase, parte da alimentação, né? Tudo isso prejudica nós aqui”, explica o pescador.


Apesar de novas espécies de peixes de água salgada aparecerem no arquipélago, a quantidade para suprir a população é insuficiente. Conviver com a água salgada tomando conta do Rio Amazonas torna a vivência no arquipélago ainda mais difícil. Para além da necessidade biológica do consumo de água doce, e da mesma para os afazeres cotidianos, as pessoas estão vivendo uma mudança drástica e brusca na forma de viver e de se relacionar com o rio. Não é mais possível utilizar a água para banho, para consumo e não tem peixe suficiente para comer, quem dirá para vender.


Seu Chicão se diz muito abalado ao ver o rio em que ele nasceu e foi criado com água salgada, o rio que, para ele e sua família, sempre foi fonte de vida. Hoje volta para casa muitas vezes sem nada e tem que encarar a família com fome: "às vezes o dinheiro a gente não tem, eu sou pescador, em casa a minha renda só é disso. A gente não tem outro tipo de ganho se não sair pra pescar, mas nessa situação, que tá difícil o pescado, fica complicado”.


Antes era possível pegar cerca de 100 quilos de peixe por dia e o dinheiro da venda era destinado para comprar os mantimentos básicos para a família. Hoje, que pesca não é suficiente nem mais para alimentar diretamente a ele, a esposa e os onze filhos. Uma das alternativas que muitos pescadores e pescadoras encontraram foi rumar a alto mar, mas para muitos os gastos não compensam e é preciso passar ao menos um mês no oceano para fazer uma boa pescaria.


Amazonas de águas salgadas


Há dois anos a salinização das águas do Rio Amazonas na região do arquipélago do Bailique vem se tornando cada vez mais forte. Inicialmente, era apenas em comunidades próximas ao oceano Atlântico, no litoral do Amapá, que esse processo acontecia. Atualmente, as águas salgadas do Rio Amazonas já atingem as mais de 13 mil pessoas que moram no arquipélago, em todas as ilhas.


A maioria dos moradores relata que esse fenômeno acontecia de vez em quando e mais na época do verão amazônico, onde diminuem as chuvas e aumenta o volume de água do oceano no rio. Outros moradores relatam que esse era um fenômeno da época dos “antigos”, algo que foi presenciado por outras gerações.


Elsa nos conta que quando tinha 13 anos a água ficou salgada, mas nada comparado ao que acontece nos dias atuais. “A água salgada é a maior tristeza! É assim que a gente tá, sentindo muito”, diz ela com os olhos marejados ao olhar para o rio onde nasceu, cresceu e de onde tirou o sustento da família, “eu me sinto triste por ver o nosso rio nessa situação, nossa água nessa situação”.


Gabriel Araújo, professor e pesquisador da Universidade do Estado do Amapá (Ueap), desenvolve pesquisas sobre qualidade de água e de alimentos das comunidades. Uma das pesquisas desenvolvidas na universidade é justamente sobre a salinização das águas do Rio Amazonas na região.


O professor diz que, atualmente, há duas suspeitas para o acontecimento: “a hipótese mais aceitável é o aumento do nível do mar do Oceano Atlântico. Porém, não há dados confiáveis para essa região [em específico], então não temos como comprovar essa hipótese. A segunda é a mudança na foz do Rio Araguari, mudando a dinâmica do rio fazendo com que o mar entre mais facilmente”, pontua ele.


Atualmente, o projeto de pesquisa recebeu financiamento e deve ser finalizado em 2023. Como resultado, o projeto busca a criação de filtros de baixo custo que possibilitem a dessalinização da água visto que, segundo o pesquisador, a atual situação da água naquela região é irreversível. A pesquisa e o protótipo do filtro serão apresentados à Prefeitura de Macapá e ao Governo do Amapá, como alternativa para comunidades do arquipélago acessarem água potável.


Os estudos realizados pelo professor na UEAP coincidem com os relatos dos moradores que contam do processo natural em determinado momento do ano. “A salinização é um processo natural, só que ocorria poucos dias, não durava tanto tempo. Com o passar dos anos vem aumentando, em especial nos últimos anos, e essa trajetória relatada pelos comunitários coincidem com a construção das hidrelétricas do Rio Araguari e a diminuição do fluxo do mesmo. Com a consequente alteração da sua foz, o rio Araguari, hoje, deságua no rio Amazonas e pode ter mudado a hidrodinâmica fazendo com que a água do Rio Amazonas se torne salinizada por mais tempo”, detalha ele.


As primas Isabele, 11 anos, e Gabriely, de 9 anos, moradoras da Vila Macedônia, relatam a importância do arquipélago na infância delas e contam o que esperam do futuro. Isabele quer ser médica a trabalhar no arquipélago, assim como Gabriele, que sonha em ser professora da localidade. As duas já são grandes pescadoras e aprenderam a pescar com a avó Elsa. Assim como Elsa, que nos contou emocionada que para ela o rio é tudo, as meninas compartilham do mesmo sentimento: “Pra mim significa tudo. Porque o rio é bacana dá pra gente pescar, dá pra fazer qualquer coisa”, afirma Gabriele.


Hoje os maiores medos das pequenas pescadoras da Ilha de Macedônia é a possibilidade do arquipélago inteiro ir para o fundo, devido às erosões e a água continuar salgada: “Eu cresci aqui, é demais legal aqui, eu não queria ir embora também. Só que se continuar caindo, aí a gente vai embora. Eu pensei que ia cair até aqui só e ia parar”.



Isabele aponta para o quintal da casa onde as caídas de terra já estão próximas. As duas contam que é difícil a adaptação de pescar na água salgada e quem tem medo das novas espécies de animais que podem aparecer no rio: “Eu fico com medo desses peixes que aparece novo aqui na água salgada. De repente aparece alguma coisa grave na água”, comenta Gabriele. “Porque já encalhou uma baleia pra lí, numa praia”, Isabele complementa a prima.


As crianças se referem ao episódio que ocorreu em 2018 no arquipélago do Bailique, quando moradores encontraram uma baleia Jubarte morta ao encalhar na Ilha Vitória.

O professor e pesquisador Alan Cavalcanti, do curso de Engenharia Civil da Universidade Federal do Amapá (Unifap), trabalha há alguns anos com pesquisas relacionadas à qualidade da água na região do Bailique e afirma que, o episódio da morte da Baleia Jubarte, possa ter relação com a mudança na hidrodinâmica do rio e pontua alguns danos que essa mudança causa.


“Alteração da qualidade da água, mudança das populações de peixes e outros componentes da biota local, salinização das águas, problemas de abastecimento de água potável, erosão, acreção e mudanças no padrão das correntes e das marés. O problema se intensificou. As prováveis causas são a bubalinocultura, que é a criação de Búfalos, em fazendas da região, barragens em sequência no Rio Araguari, além do uso e ocupação da terra e elevação do nível do mar”, finaliza o pesquisador.


Atualmente, a região do Rio Araguari, localizado na parte sudeste do estado do Amapá, possui três hidrelétricas: Coaracy Nunes, existente desde 1976, é a mais antiga usina hidrelétrica da Amazônia. Nos últimos anos, foram construídas mais duas usinas: a Ferreira Gomes Energia, em 2014, e a Cachoeira Caldeirão, em 2017. Somente a Usina de Coaracy Nunes fornece energia para o Estado do Amapá, as demais geram energia para o restante do país.




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