• Léo Nilo

AP-MA-05: Conheça o sítio arqueológico localizado embaixo da UNIFAP

Atualizado: 4 de ago. de 2021

O conjunto de urnas funerárias foi descoberto em 1997. Até 2 mil relíquias podem estar enterradas.


Imagem: João Saldanha/NuPArq

O Campus Marco Zero da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP) já recebeu incontáveis amapaenses desde sua inauguração, em 1990, e marca uma peça central no desenvolvimento acadêmico de Macapá. Apesar disso, ainda é desconhecido a muitos de seus frequentadores que o campus se localiza sobre um importante sítio arqueológico do estado, com relíquias datando a épocas pré-coloniais.

O sítio arqueológico AP-MA-05 se trata de um conjunto de urnas funerárias indígenas enterradas ao longo da extensão da UNIFAP, aproximadamente, um hectare. Foi descoberto em 1997, durante obras de saneamento no campus, passando a ser estudado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em parceria com o museu paraense Emílio Goeldi. Segundo o Dr. Edinaldo Nunes Filho, pesquisador do Centro de Estudos e Pesquisas Arqueológicas do Amapá (CEPAP), “no decorrer do tempo, se percebeu um descaso considerável, até por parte da instituição, quanto a essa área que foi delimitada. Tanto é que foram construídos prédios [sobre o sítio]. O nosso próprio prédio do curso de História, e outros, foram construídos em cima do sítio”.

Após a criação do Núcleo de Pesquisa Arqueológica (NuPArq) do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá (IEPA), novos estudos e escavações foram feitas em 2008 e 2011. De acordo com o Dr. Lúcio Leite, diretor do NuPArq, as relíquias encontradas neste sítio chamam atenção dos arqueólogos devido à sua diversidade material, pois podem indicar interações culturais entre povos anteriormente considerados afastados. De acordo com estimativas do NuPArq, até 2 mil urnas poderiam estar enterradas no sítio.

Superfície da área que o sítio pode alcançar. Foto: Lylian Rodrigues/AGCOM

Além de muito importante para a história da região amazônica, o sítio arqueológico também representa uma oportunidade única para a universidade. Para a Dra. Iris Moraes, professora de Arqueologia no curso de História da UNIFAP, também deve ser considerada a perspectiva de usar o sítio como possibilidade prática com os estudantes. “Fazer dessa pesquisa arqueológica um processo de conhecimento para toda a comunidade acadêmica e também a sociedade amapaense. Do que é arqueologia, do que é esse sítio, qual é a relevância e a importância de conhecer e estudar essa história da presença humana a partir da arqueologia. A própria UNIFAP pode ser protagonista nesse processo”, afirma Iris.

Em 2021, através de um projeto de extensão, a UNIFAP está elaborando pela primeira vez um Plano Diretor Participativo, que regerá os parâmetros de gestão do Campus Marco Zero em seus próximos 15 anos. Neste plano, a proteção do patrimônio histórico e arqueológico compõe um dos eixos temáticos. Edinaldo Nunes Filho é um dos colaboradores do projeto e ressalta os dilemas que o sítio traz para o desenvolvimento urbano da instituição: “O sítio está impactando o desenvolvimento arquitetônico e o crescimento da UNIFAP, mas a gente não pode [...] pensar que ele se torna só um entrave para o desenvolvimento. Ele pode ser aproveitado como um ganho em termos de turismo, em termos de atrativos para a UNIFAP. Ele é bem significativo nesse sentido”.

Entrevista com Edinaldo Nunes Filho. Foto: Léo Nilo/AGCOM

Para Iris Moraes, uma série de medidas poderiam ser tomadas pela universidade para assegurar a proteção do sítio, como a devida sinalização do espaço arqueológico e a criação de eventos para divulgar sua existência entre a sociedade amapaense. Principalmente, no entanto, um estudo subterrâneo que compreendesse todo o campus, a fim de detectar a extensão do sítio ou até mesmo outras ocorrências pela região. “Só a partir desse levantamento prospectivo que a gente pode indicar as áreas potenciais arqueológicas, desviar possíveis construções e intervenções, ou fazer o resgate arqueológico”, afirma Iris.

Atualmente, parte das urnas já escavadas estão sob os cuidados do IEPA e passam por um processo de requalificação, para em breve retornarem à exposição para o público. A grande maioria, porém, permanece na terra, sustentando centenas de estudantes e professores que, frequentemente, sequer sabem de sua existência.


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