• Brunna Silva

"votar em mulheres pretas, tem um sentido elementar. É corrigir desigualdades” diz candidata

Por: Brunna Silva


Alzira Nogueira, candidata ao pleito para deputada estadual (Foto: Giovane Brito /AGCOM)


Alzira Nogueira é professora, ativista social, servidora do Ministério Público e neste momento está concorrendo ao pleito para a candidatura de deputada estadual. AGCOM conversou com a Alzira sobre sua candidatura enquanto uma mulher preta, além disso falamos sobre a importância de ter mulheres pretas nos espaços de poder.


AGCOM: Para além da candidatura, quem é você, quem é Alzira Nogueira?


ALZIRA NOGUEIRA: "Eu sou uma mulher preta em movimento né? Eu tenho lembrança de quando eu nasci como uma mulher negra, que foi na universidade, depois que eu entrei na universidade no curso de serviço social na Universidade Estadual do Ceará, eu nasci como mulher negra eu fui descobrir o significado da minha condição, do meu pertencimento racial. E a gente diz que é um nascimento mesmo, é o nascimento racial, uma descoberta porque você percebe que nós somos subjetividade, individualidade.

Mas ela é socialmente construída né? Então quando eu defino, me percebo como uma mulher negra, eu começo a compreender as determinações que o racismo impõe sobre a minha existência, sobre o meu corpo nas oportunidades negadas por conta dessa minha condição, da minha trajetória. E a partir daí eu começo a lutar junto com outras mulheres negras, começo a me inspirar na trajetória de outras mulheres negras. Nós dizemos que nossos passos vêm de longe, você se assume numa caminhada ancestral levando a frente as lutas de outras mulheres que nos antecederam que vieram antes de nós. Então eu me vejo como uma mulher negra, uma mulher preta em movimento, uma mulher imparável. Assim não tem coisas que me abatam, que me abalem que me desvirtuem do processo do propósito de lutar por justiça, de fazer a luta antirracista, de lutar contra esse sistema de opressões que tem na sociedade. Então eu me defino muito assim, como uma mulher inconformada com esse mundo que acredita na transformação, na revolução e que luta cotidianamente por isso".



AGCOM: O que te levou a pensar, por tudo que eu vivi eu quero concorrer ao pleito eleitoral? O que te levou a chegar nesse momento aqui?



ALZIRA NOGUEIRA: "eu acredito que a minha maior motivação para essa questão de colocar meu nome para candidatura, é esse movimento que a gente vive hoje no Brasil, esse levante feminista, anti-racista promovido pelas mulheres negras brasileiras no sentido de corrigir injustiça no sistema de poder.

Tem um levante das mulheres negras, feministas, das feministas negras, dessas feministas interseccionais no Brasil, hoje para dizer assim: nós não vamos aceitar que a os espaços de poder não tenham mais a presença de mulheres negras, isso é muito inspirado na luta e na trajetória de Marielle. Ela abriu esse caminho na sociedade brasileira. E aí, como a gente diz "somos sementes de Marielle".

A partir daí nós organizamos no Brasil vários projetos a partir do Instituto Marielle Franco e de outros grupos políticos feministas no brasil fazendo esse debate de que nós precisamos corrigir injustiça nos espaços de poder. Porque de cada 100 pessoas que são eleitas no Brasil menos de três são mulheres negras. Agora o paradoxo fundamental é que nós somos o maior contingente demográfico da sociedade brasileira, são mulheres negras, e somos os menos representados nos espaços de poder. Então a construção dessa minha candidatura primeiro responde a um debate coletivo, eu não sou candidata de mim mesma, eu não acordei um dia e pensei "quero ser candidata é meu sonho". Eu sou uma mulher que luta, que quer promover transformação. Se hoje a arena do campo político eleitoral é um espaço para a gente avançar na nossa luta, se é um espaço para a gente avançar na construção da nossa agenda, eu estou a serviço, entendeu, esse é o sentido. Não é um sentido em si de "aí eu quero ser candidata" e também não acho que a revolução se encerre num processo eleitoral, nos marcos do processo eleitoral que é espaço absolutamente burguês.

Eu acredito que é um espaço para dali a gente fazer ecoar voz, colocar em volta debate sobre esse sistema de opressão, que operam no conjunto da vida social promovendo exclusões limitando oportunidades para o povo preto e pobre da periferia, em particular para as mulheres pretas, então eu entendo que isso é uma etapa, uma estratégia para a gente avançar na nossa luta, mas é uma estratégia fundamental no contexto que a gente vive hoje no Brasil.


AGCOM: Um recorte histórico e tudo mais sobre as mulheres da política que a gente sabe que as mulheres não tinham vez e voz para o voto, para votar e ser votada e somente em 1932 que as mulheres começaram a votar pelo Código Eleitoral. Quando as mulheres têm oportunidade de chegar, são mulheres brancas, o congresso ele tem uma estética para essas mulheres e muito depois as mulheres pretas chegam. Você está agora em uma campanha eleitoral, está fazendo esse trabalho de formiguinhas, para que a gente consiga chegar no nosso objetivo. Quais são as dificuldades dessa caminhada?


ALZIRA NOGUEIRA: "A minha primeira constatação é que de fato esses espaços não foram pensados como espaços a serem ocupados por mulheres pretas, e a partir disso, dessa hegemonia branca, hetero patriarcal e racista. A partir dessa lógica hegemônica de estrutura que a gente precisa entender, nós não podemos tomar um sistema eleitoral, o processo eleitoral parte das estruturas de dominação que ordenam a vida social. E aí eu costumo dizer assim, a gente precisa pensar a sociedade como uma sociedade, que a sociedade brasileira é estruturalmente racista, o racismo está no fundamento da formação social brasileira, assim como essa lógica hetero patriarcal. E esse local não é para gente. A primeira questão é essa violência de gênero e raça. Então eu vejo que são vários obstáculos né, essa questão é primeira de questionar nossas competências, nossa qualificação. Você veja, eu sou assistente social formada numa das Universidades mais importantes de serviço social deste país na Universidade Estadual do Ceará, eu tenho mestrado em sociologia pela Universidade Federal do Ceará, uma das Universidades mais importantes da América Latina. Eu sou servidora pública de uma das instituições que é uma instituição considerada uma instituição de excelência que é o Ministério Público, eu tenho longos anos de trabalho no serviço público. Trabalhando no debate, na fiscalização, na formulação de políticas públicas na área social, na área dos Direitos Humanos, eu tenho uma longa trajetória, mas ainda assim, a minha a proposição, minha candidatura ainda gera desconfiança. Será que ela está preparada? Será que estar competente? Então eu acho que isso é uma primeira uma primeira questão que paira sobre a gente, sempre é a dúvida se você é para esse lugar, se você tem competência. Você não é para isso, esse lugar não é para você. E mesmo para mim uma mulher com a minha qualificação técnica e com a minha trajetória de militância, com a minha trajetória de ativismo, com o meu currículo. Então isso eu acho que é uma questão. Uma outra questão é sempre o primado, é a priorização das candidaturas brancas como candidaturas prioritárias, onde se define candidaturas prioritárias. É ali que a gente garante recursos e garante estrutura para você fazer uma campanha. Não é barato fazer uma campanha, uma campanha existe investimento. Nós temos uma legislação que define investimento público para as candidaturas. E aí é preciso não só a gente garantir que as mulheres possam ter essas inscritas nas chapas para concorrer, é preciso que a gente crie condições para elegibilidade das mulheres negras. Faltando 18 dias para campanha teve gente que veio falar comigo "Ah mas você tá fazendo essa campanha, se preparando para ser candidata a vereadora né?" Eu digo: é óbvio que não, eu vou me eleger agora, é necessário que eu me eleja hoje. Não tô fazendo aqui um corre para as pessoas me conhecerem, eu já sou conhecida. Em 2020 eu fui escolhida como uma das cinco mulheres no Brasil que fez a diferença no enfrentamento da pandemia e eu não vi outra personalidade política ou social do Amapá tentar o reconhecimento. Estou me candidatando porque eu sou uma pessoa absolutamente competente do ponto de vista técnico, eu sou uma pessoa absolutamente comprometida do ponto de vista ético e eu posso fazer a diferença na Assembleia. Eu carrego uma pauta, que é a pauta dos setores mais excluídos da nossa sociedade e esses grupos precisam ter voz, precisam ter vez, precisam colocar a sua agenda, precisam disputar a política pública no contexto do Estado do Amapá e eu acredito que eu sou a pessoa ideal para isso. É uma tarefa política, é uma tarefa militante, não é uma vaidade pessoal".


Entrevista sobre mulheres pretas nas eleições (Foto: Giovane Brito/AGCOM)


AGCOM: Por que votar na Alzira Nogueira?


ALZIRA NOGUEIRA: "Olha eu tenho falado muito isso para as pessoas, com todo respeito às pessoas que são candidatas eu respeito muito. Não é uma coisa de arrogância, não é uma coisa de prepotência, não tem esse sentido. Mas é uma coisa de demarcação mesmo, eu sou uma pessoa extremamente preparada para esse lugar do ponto de vista técnico poucas pessoas transitam no conjunto das políticas sociais como eu trânsito profissionalmente. Eu já trabalhei na educação, nas políticas públicas para as mulheres, atualmente trabalho com infância e juventude na área da infância e juventude. Eu sou uma profissional da Assistência Social. Eu não sei se vocês têm conhecimento, mas hoje saiu um dado sobre insegurança alimentar no Brasil. 32% da população do estado do Amapá em situação de segurança alimentar, no canal da assistência. Sou assistente é uma trabalhadora do sistema, então eu tenho credenciais técnicas e políticas para compreender essa realidade, para atuar para ajudar o estado a pensar políticas públicas para o enfrentamento dessa realidade, do ponto de vista do combate à pobreza e às desigualdades, à miséria mas também pensar do ponto de vista do desenvolvimento pensar, por exemplo, lugar que a juventude tem em promover desenvolvimento desse estado, a partir de uma perspectiva de uma economia criativa que o Estado se nega a perceber. Olha a juventude como problema e não como potencialidade, não como criatividade, como reserva intelectual e criativa que precisa ter investimento para crescer, para desenvolver. Então eu acho que eu reúno os requisitos que são essenciais para quem quer votar em alguém e que tem compromisso com melhorar as coisas a partir desse lugar no parlamento".


AGCOM: Em quais valores são pautados na sua campanha eleitoral?


ALZIRA NOGUEIRA: "A minha campanha eleitoral é pautada no que a gente chama de todo uma cosmologia de África né? Eu acho que um elemento fundamental para a gente promover ruptura, com esse sistema de dominação que tá aí, a gente precisa afrocentrar. O que significa? Quando eu reivindico África, eu reivindico no sentido comunitário. Então eu sou porque nós somos. Eu estou aqui tendo essa conversa com você, você está sentada neste lugar de poder de uma jornalista, de uma menina linda, porque tem mulheres que vieram antes de você, que pavimentaram o caminho para você. Então esse sentido de ancestralidade me move, me move cotidianamente. Eu acredito que a gente precisa além de UBUNTU, a gente precisa numa ética de generosidade. Não é possível pensar a construção de uma sociabilidade a partir da perspectiva das mulheres negras se a gente não considerar que nós precisamos defender na sociedade uma ética da generosidade, do cuidado. Isso é um valor fundamental para mim, para minha vida, para o exercício da minha existência. E que eu acho que a gente tem que pensar também para a política. A política é um instrumento de cuidado, a política precisa ser vista assim. Nós precisamos hackear o sistema, fissurar essa lógica dominante hegemônica de que a política é um meio para que pessoas possam se alçar ao poder, aumentar a sua riqueza, o seu patrimônio pessoal. A política não tem esse sentido, o sentido da política tem que ser cuidado uma ética de generosidade para que a gente possa pautar a defesa da vida e da vida plena, da vida com dignidade para o nosso povo. Então esses são valores que eu tento exercitar no meu cotidiano, de existência nas minhas relações e que eu preciso dizer que são essenciais para prática política. Para essa prática de política transformadora que eu quero exercitar no meu cotidiano".


AGCOM: Por que votar em mulheres pretas?


ALZIRA NOGUEIRA: "É fundamental votar em mulheres pretas, tem um sentido elementar. É corrigir desigualdades, eu tenho dito, inclusive ontem mandei até uma mensagem, não falei, mas mandei uma mensagem para um companheiro meu que é companheiro, e disse a ele uma das coisas que mais me agride e que mais me fez sofrer nessa caminhada eleitoral, foi perceber como essa narrativa, como a narrativa da Defesa das mulheres negras, é apropriada de forma hipócrita por setores da direita, à esquerda. E aí eu cito que eu sinto que Sueli Carneiro nunca teve tanta razão e nunca fez tanto sentido para mim, quando Sueli Carneiro disse que: entre a esquerda e direita, eu continuo sendo uma mulher preta. Porque é sobre isso, essa galera que faz narrativa de anti-racista, mas não ceder vez para mulher negra, não desce do seu privilégio na hora que a mulher negra lança candidatura. Vai apoiar os outros, ou vai fazer uma campanha ali por debaixo do pano, mas não tem a coragem de assumir as nossas candidaturas, de carregar a gente no colo. Então isso para mim é fundamental, quem é anti-racista, quem faz essa narrativa, quem carrega esse debate precisa assumir o apoio, o cuidado e o voto com as mulheres negras. Isso é fundamental porque isso implica em corrigir desigualdades históricas, contribuir para que as mulheres negras ocupem esses espaços, que possam trazer toda uma agenda que é invisibilizada para o centro do debate político para mim isso é fundamental, qualquer ativista qualquer militante, qualquer Professor intelectual que se diz ativista, que faz ativismo e não se ocupa de trazer isso para o centro do debate. Eu não considero que seja sério, que seja legítimo".


“O feminismo político, o feminicídio político de Marielle colocou em debate e revelou para a sociedade brasileira todo um sistema de violência que impede o ingresso e a permanência das mulheres negras nos espaços de poder.”



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