• Martha Sophia

Violências Domésticas com o isolamento social alcançam pessoas LGBTQIA+

Atualizado: 18 de mai. de 2021

Restrições ou acusações sobre a identidade de gênero também são violências perturbadoras dentro de casa.

Foto: Martha Sophia

Desde o início da pandemia mundial, o isolamento foi um ato urgente e necessário para conter a proliferação do vírus e ter menos pessoas contaminadas, circulando em espaços públicos. Ficar em casa, em certas situações, pode ser um verdadeiro pesadelo para algumas pessoas. Há diversos fatores e ocasiões que geram atrito no ambiente familiar, prejudicando o bem estar individual - emocional e mentalmente.

A violência doméstica, na pandemia, afeta diversos grupos de pessoas. Apesar dos destaques às violências contra as mulheres, também o grupo LGBTQIA+ passam por situações de violações, que geralmente são casos descartados ou isolados do ponto de vista da sociedade.

Falar sobre “violência doméstica”, na grande maioria das vezes, é se referir à mulher. Os casos de violência contra as mulheres são gritantes e podem ser muito trágicos, no Brasil, ganhando visibilidade e campanhas de prevenção haja vista alcançou a condição de feminicídio pelos números e estruturas sociais permissivas. Segundo dados divulgados pelo Ministério da Mulher, foram registradas 105.671 denúncias, somente no ano de 2020. O acervo de casos famosos é imenso, quase todo dia uma pauta na mídia sobre atentados contra esse grupo.

Entretanto, também são vítimas da violência doméstica idosos, crianças e LGBTQIA+ são, também, grandes vítimas desse crime que acontece entre as paredes domésticas, sem ser visto, ou vido, sendo difícil identificar e até mesmo relatar, especialmente quando se passa nas psiquês das vítimas.

VIOLÊNCIA CONTRA LGBTQIA+ DURANTE A PANDEMIA

Mesmo com todas as fontes de informações que a internet dispõe sobre certos tabus, o Brasil ainda é um país bastante conservador. As políticas públicas e direitos legais para os grupos LGBTs surgiram há poucos anos, tudo muito recente. A discriminação é, atualmente, a principal motivação da violência contra essas pessoas. Ser fora do padrão cis hetero nessa sociedade é, de certo modo, perigoso.

André Lopes, ativista de direitos humanos da população LGBTQ+. Foto: André Lopes (Arquivo Pessoal)

Com o início da pandemia e o isolamento social, esta comunidade sofreu em quatro paredes. Segundo André Lopes, ativista de direitos humanos da população LGBTQ+ do estado do Amapá, as violências durante este período ficaram apagadas. Se fizer uma pesquisa rápida na internet, há poucas informações sobre LGBTs vítimas de violência doméstica, sem precisão de dados ou muitos levantamentos de casos durante 2020. É mais difícil coletar informações e evidenciar crimes quando eles ocorrem dentro da residência das vítimas, principalmente quando o agressor ou a agressora for um parente próximo ou cônjuge.


A violência pode ser física, psicológica, verbal e está presente em quase todos os lugares, até mesmo no digital. Roan Nascimento é um homem trans, diretor de identidade LGBT Amapá, afirma que nessa pandemia as principais violências que acarretam a comunidade em casa são geradas pela família, sobretudo. Isso gera sentimentos de abandono e às vezes abandonos de lares, assim como desistência escolar, depressão e, até mesmo, suicídio.

DENTRO DA FAMÍLIA

Uma situação bastante comum dentro das famílias tradicionais é a intolerância, desrespeito e negação com um membro LGBT. Pais que impedem seus filhos e filhas de terem uma orientação sexual diferente, suas identidades de gêneros que não coincidem com os sexos biológicos e divergem em suas escolhas de agir e se vestir. Karine Silva, psicóloga, comenta que a família, para essa pessoa, pode se tornar destrutível. Um lugar que deveria ser de acolhimento , porto seguro, acaba se tornando um ambiente nocivo para saúde mental.

Violência psicológica é tudo o que causa danos emocionais. Trazem consigo consequências graves tanto quanto agressões físicas se pensar a desestrutura do ser. Abusos psicológicos passam despercebidos por vítimas. É muito difícil para elas saberem como identificar e quando isso acontece. Quando se sofre esse tipo de situação em casa, para aquelas pessoas que são menores de idade, elas acabam se sujeitando por não terem escolhas ou por estarem em fases de descobertas que podem ficar encobertas.

Roan Nascimento, diretor de identidade LGBT Amapá. Foto: Roan Nascimento (Arquivo Pessoal)

“Quando eu morava com minha genitora, ela frequentemente fazia manipulações psicológicas para me colocar pra baixo e tentar fazer eu voltar com minhas decisões. Quando isso não acontecia, ela partia para agressões físicas. Infelizmente isso é uma realidade para muitas pessoas trans e LGBTs aqui do estado. Por você morar embaixo do teto, ser menor de idade, você se submete a ordens e a imposições nada justas. Quando você tenta revidar, você sai gravemente ferido de forma psicológica como de forma física”, relata Roan sobre uma de suas experiências pessoais.

Karine Silva pontua que famílias religiosas tendem a serem mais rígidas, colocando a religião acima da saúde mental de um membro familiar. “Imagina sua identidade sexual sendo discutida pelo pai, mãe, tio avô, sem poder reagir. Isso adoece, é marcante e trás traumas”, revela a psicóloga.

DENTRO DO RELACIONAMENTO AMOROSO

Existe muito preconceito e estereótipos envolvendo as relações LGBTs. São conexões afetivas comuns, que podem tornar-se danosas. Os maiores índices de violência doméstica são produzidos por homens héteros, que abusam e violentam suas parceiras dentro de casa. Esse fato acaba se destacando e anulando, de certo modo, situações envolvendo a população LGBTQIA+.

Nas relações homoafetivas, muitas das vezes, esses casos não ganham tal relevância nem são categorizados devidamente. Um exemplo é a violência doméstica sofrida por lésbicas. A figura do “agressor” sempre é masculina e quando existe uma circunstância envolvendo um casal de duas mulheres, há tentativas de minimizar essas agressões. Assim como a mulher em um relacionamento hétero, a mulher em um relacionamento homoafetivo pode sofrer, sim, algum tipo de violência por sua companheira.

Para mulheres trans e travestis, agressões e abusos psicológicos feitos pelos parceiros ou parceiras não possuem uma lei específica feita por escrito, mas devem ser reconhecidas dentro da Lei Maria da Penha. É de entendimento consolidado na área jurídica que, na prática, certas vezes, essas normas não são seguidas. Isso se dá por questões conservadoras.

Jaqueline Barbosa, advogada, menciona que há muitas dificuldades, até para mulheres cis, serem atendidas pela Lei Maria da Penha. “A polícia, principalmente a militar, ainda não entende bem como enquadrar as questões de gênero e com isso acabam por enquadrar as práticas criminosas de forma equivocada”, explica a advogada.

Jaqueline Barbosa, advogada. Foto: Jaqueline Barbosa (Arquivo Pessoal)

A falta desses dados também pode se explicar pela indiferença ou desconhecimento sobre a identidade de gênero. “O estado brasileiro, em si, é transfóbico. Ele nega os corpos das mulheres, imagine de uma travesti, transexual”, comenta André Lopes. São esses acontecimentos que dificultam as porcentagens reais de vítimas acometidas por essa violência tão impetuosa.

Lidar com a violência doméstica não é fácil, suas ações geram dor, problemas emocionais, inclusive a morte. A população LGBT, além de ser vulnerável na rua, agora, na pandemia, tende a ficar insegura dentro dos lares. Isso está acontecendo em todo o Brasil, de forma velada, e muitos não enxergam. Uma violência sigilosa, que causa muito mal estar a pessoas que apenas querem existir como sentem ser.

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