• Flávio de Sousa

SER MÃE É ATO DE DETERMINAÇÃO: MORADORAS EM ÁREAS DE RESSACA EXPÕEM O OUTRO LADO DA MATERNIDADE

Atualizado: 26 de mai.

Mães relatam as dificuldades na criação de seus filhos em áreas de pontes e comentam sobre o desprezo governamental


Por Ana Beatriz Peres e Flávio De Sousa Santos


Foto: Flávio Sousa


Mães na ponte, Ocemilde Silva De Sousa e Valdicléia Dos Santos Pereira, de Laranjal Do Jari e Macapá, vivenciam as mesmas experiências e obstáculos nas áreas úmidas e alagadas. Mesmo em cidades diferentes, suas histórias são idênticas quando se trata da criação dos filhos em áreas de ressaca.


As áreas de ressacas são constituídas por casas que estão apoiadas em madeiras implantadas na água, formando as famosas palafitas que flutuam nos rios. Segundo as mães que moram nas pontes, o maior desafio enfrentado é preservar a saúde e a segurança das crianças. Ocemilde, de 62 anos, professora da rede pública, comenta que já presenciou vários meninos e meninas caindo nos rios, principalmente filhos dela.

“Muitas vezes meus filhos caíram na água, eu pulava e me machucava toda para não deixar eles morrerem afogados. É muito difícil para uma mãe que trabalha, morar na área baixa da cidade, porque as pontes ultimamente são cheias de buracos, não são bem cuidadas”, conta ela.


Foto: Gabriela Matos


O projeto “Morar Melhor”, criado pelo Governo do Amapá, em parceria com a Prefeitura, em 2013, apresentava o objetivo de revitalizar as passarelas dos município de Macapá, Santana, Laranjal do Jari e Vitória do Jari. De acordo com moradores, em 2022, apenas construíram uma passarela. As pontes que estavam com uma estrutura precária não foram revitalizadas.

PERÍODO DE ENCHENTE

Uma das preocupações das mães que vivem em pontes são as enchentes, principalmente nos períodos chuvosos do estado, quando moradores ficam em alerta com o nível do rio. Por precaução, há quem faça nas residências os “degraus”, para sustentar eletrodomésticos e outros objetos para continuar funcionando.


Foto: Magda Oliveira


As mães entrevistadas relataram os mesmos problemas com a enchente, contaram que perderam suas casas, imóveis, eletrodomésticos, se preocuparam com a segurança e saúde de seus filhos. “A maior dificuldade é quando ocorre as enchentes, porque quando a criança sai da casa, imediatamente cai na água e já se afoga. Existe muitos casos de crianças que morreram afogadas. Uma vez eu estava lavando roupa, e quando vi, o vizinho tinha puxado uma filha minha da água, quando eu corri já estava puxando a outra.” desabafa Ocemilde.


MELHORES CONDIÇÕES DE VIDA

No Amapá, 20% da população ocupa as zonas de ressaca em todo o estado, segundo a pesquisa “HABITAÇÃO POPULAR NA AMAZÔNIA” (https://www.google.com.br/books/edition/Habita%C3%A7%C3%A3o_Popular_na_Amaz%C3%B4nia_O_Caso/MYrcDwAAQBAJ?hl=pt-BR&gbpv=1&printsec=frontcover), realizada por Bianca Moro, doutora em Arquitetura da Universidade Federal do Amapá (Unifap). Revela, ainda, que a maioria dos habitantes de palafitas que construíram suas casas nas áreas alagadas, veio de outras cidades, em busca de melhores condições de vida.

É o caso da Valdicléia, de 35 anos, mãe de três filhos, que se mudou há 10 anos para Macapá em busca de mais oportunidades de emprego e qualidade de vida. Ao chegar na capital, ela ainda teve muitas dificuldades para se adaptar e conseguir trabalho, por isso começou a trabalhar como diarista em casas de família.

“Eu encontrei dificuldade quando eu cheguei aqui, por mais que eu estivesse nessa situação, eu fui atrás, mesmo não conhecendo nada aqui em Macapá. Quando você é mãe e pai, tem que se virar”, diz Valdicléia. Ela conta como é difícil ser mãe morando em uma área de ressaca. Um dos motivos de sua preocupação é a falta de segurança. A diarista menciona que tem receio de deixar as crianças sozinhas quando sai para trabalhar, por isso sempre deixa orientações para ficarem com as portas e as janelas fechadas, enquanto ela está fora. “Já fui assaltada uma vez quando voltava do trabalho, aqui não tem segurança nenhuma e mesmo se denunciar não adianta nada”, ela relata.



Foto: Flávio Sousa


NEGLIGÊNCIA

Segundo a diarista e a professora, a desigualdade social e a forma como os moradores são invisíveis aos olhos do poder público lhe trazem indignação, principalmente no ano de eleições, em que políticos vão até as áreas de ressaca para conseguirem votos através de promessas não cumpridas.

“Ele veio aqui na ponte, o Prefeito, a minha prima chamou ele e ele falou que não ia entrar aqui na nossa ponte pra ver porque não estava no planejamento deles, então ele não entrou e nem deu atenção, a gente está aqui com a ponte caindo, se a gente quer, temos que nos virar pra comprar madeira”, comenta Valdicléia.

“Eu nunca tive o apoio do governo, prefeitura, eu sempre tive que trabalhar para sustentar meus filhos. A minha maior riqueza foi a minha mãe que ficava com os meus filhos”, afirma Ocemilde.

Ser mãe é uma ação além da amamentação, os relatos das duas mães que enfrentam obstáculos para cuidar de seus filhos são, em muitos casos, silenciados. As histórias precisam ser contadas e ouvidas, são registros de superação e força, mães que não desistem independente de situações evidenciadas. São mães, são mulheres e acima de tudo são batalhadoras.




Foto: Flávio Sousa

0 comentário