• Lorena Lima

Saúde mental está fragilizada na pandemia

Medos, perdas e isolamento desencadeiam consequências negativas no quadro clínico mental das pessoas


Foto: Lorena Lima

Há mais de um ano, a população brasileira vivencia a proliferação do Coronavírus, contabilizando desde a primeira morte até o dia 17 de abril 371 mil vítimas, segundo consórcio de veículos de imprensa (Folha de S. Paulo, Uol, O Globo). Com agravamento da Covid-19, o luto e o abalo emocional pioram entre brasileiros. Para a psicóloga Isadora Canto, a qual atuou no atendimento às pessoas com Covid, a pandemia em relação à saúde mental pode ser traçada a partir de três linhas de raciocínio: os males sociais, que já existiam como pobreza e violências domésticas se agravaram, o isolamento e as perdas potencializam as dores deste tempo.

Falar de saúde mental é compreender o quanto vai além de um adoecimento psíquico, afirma Isadora. “A forma como as pessoas fazem seus ‘pequenos’ enfrentamentos é grandiosa e intensa para cada indivíduo. Pois cada um é único e cada dor vai ser única”. Acrescenta, “há gente em situação de graves perdas, então se tem a ressignificação dos cuidados, o aumento das preocupações, o medo desde o ‘será que vai sobreviver’ ao ‘será que vai ter leito’”.

Bárbara Ribeiro desabafando sobre contaminação pela COVID-19. Print cedido por Bárbara

Dentro do olhar psicoterapêutico, como afirma Isadora, o papel enquanto profissional é fazer com que os pacientes encontrem formas de fazer os seus pequenos enfrentamentos “Nós, seres humanos, somos empáticos, mesmo que tenhamos dificuldades, vamos olhar para a dor do outro durante a pandemia diante de tanta perda”, ressalta Isadora Canto. Desde o ano passado, as pessoas com medo de serem contaminadas e contaminar outros, mostra essa empatia. Tal cuidado não era apenas dos profissionais de saúde, mas de todas as pessoas.

Bárbara Ribeiro, universitária de 22 anos, relata que ela e seus familiares foram contaminados pelo vírus. “O meu tio e minha tia pioraram muito rápido. Em uma noite eu levei meu tio na UBS do Santa Inês e nessa mesma noite, enquanto estávamos esperando ele ser atendido, a minha tia estava no São Camilo sendo internada. Porque a tomografia atestou 25% do pulmão dela.” conta.

“Eu fiquei internada dois dias no HE e foram necessários pra minha possível recuperação, mas também o suficiente pra enlouquecer minha cabeça. O ambiente é caótico demais, pra pacientes e funcionários. Enquanto eu almoçava, dois caras entraram com um caixão para pegar o corpo de uma senhora falecido pela manhã. Eu não vi o rosto da senhora, não sei o nome, mas não vou esquecer dela passando ao lado da minha maca, dentro do caixão e o grito de tristeza do parente dela que estava do outro lado da tenda”.

Bárbara Ribeiro desabafando sobre contaminação pela Covid-19. Print cedido por Bárbara

A estudante desabafa: “Eu chorava porque queria viver, queria ver meus pais. Por todos os lados que eu olhava via gente entubado, morrendo, com falta de ar. Via enfermeiros dizendo que não tinha mais ponto de oxigênio. Não tinha mais medicamentos, não dava mais pra ninguém dar entrada, pois não teria espaço. É bizarro o quanto a gente absorve os detalhes nesses momentos. Eu conseguia ver o desespero no rosto dos médicos e enfermeiros do HE. De não poder fazer mais”.

Os ritos de passagem são diferentes quando alguém morre por Covid-19. Para o professor e psicólogo Igor de Souza de Carvalho, enterrar parentes sem o ritual do luto é uma das consequências mais negativas da pandemia. Para o profissional, “é preciso que aconteça o contato, o abraço, o reconforto e a despedida; e com a pandemia há um incômodo de não poder estar perto, nem falar. Essas questões não resolvidas se tornarão fantasmas a assombrar as pessoas após a pandemia”.

Igor de Carvalho relata que começou a trabalhar como professor pela primeira vez na vida durante a pandemia ao mesmo como psicólogo. “Eu tentava manter os alunos na faculdade particular, desenvolvia estratégias para atendê-los, adaptar para quem não tinha internet. Observei que os alunos não conseguiam conciliar o estudo com as emoções, de lidar com o medo”.

De acordo com Igor, após um ano, estudantes conformam-se com a nova realidade e o isolamento evidenciou os medos que todos já tinham e não tratavam. A pandemia foi um dispositivo da mente para emergir questões interditadas, sobre as quais não se fala abertamente, como as próprias emoções e sensibilidades humanas.

Arquivo pessoal. Psicólogo e professor Igor de Carvalho

Ele explica que todo mundo tem problemas e dificuldades, porém as pessoas vão adiando. A maioria das pessoas com problemas de saúde mental não tem uma boa saúde emocional e não ‘externalizam’ o que sentem. “O sentimento guardado vira uma mágoa, a mágoa vai corroendo a mente da pessoa, o que trás sintomas físicos: como dor de cabeça, dor no corpo, problemas respiratórios que podem se tornar crises de ansiedade. A falta de contato físico potencializou as dificuldades que as pessoas já tinham com relação à saúde mental”.

Quanto ao acesso diário às informações sobre a pandemia, a infodemia, o grupo mais afetado negativamente pelas informações é o de idosos. A maioria não tem ocupação, ficam ansiosos, assistem o jornal e leem notícias; e o excesso de informação negativa influencia na percepção.

Igor De Souza revela que muitos de seus pacientes idosos falam não sentirem mais esperanças, por perderem tantos amigos e conhecidos. O especialista explica que a desesperança, a não percepção de um futuro ou perspectiva melhor são sintomas da depressão; o que tem acontecido principalmente com os idosos. O excesso de informações concentradas no número de mortes, na falha da política pública reforça um padrão de pensamento relacionado com a desesperança.

O autocuidado é essencial. “Olhar para a própria mente, se compreender e se olhar com mais cuidado e gentileza, buscar o que se pode fazer apesar das dificuldades, como por exemplo, a reinvenção. O amor próprio proporciona uma reação mais leve não só a pandemia, como também à vida”, conclui o psicólogo.

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