• Ingra Tadaiesky

Preconceitos sutis: A saúde sexual de mulheres que se relacionam com mulheres

Projeto visa estudar as experiências em consultas ginecológicas de mulheres bissexuais e lésbicas.

Ilustração de banco de imagens

A simples existência feminina é alvo de uma série de problemáticas que perpassam pelo desrespeito e a violência, e esse fato se agrava quando você é uma mulher que se relaciona com mulheres. A LGBTfobia excluí mulheres dos espaços de convívio, inclusive aqueles essenciais: os de saúde.

Em 2017, a Unesp (Universidade Estadual Paulista) fez uma pesquisa com 150 mulheres bissexuais e lésbicas e mostrou que 47,3% delas possuíam algum tipo de IST. Isso ocorre porque o acesso a saúde ginecológica dessas mulheres é limitado o que traz diversas complicações.

Oriana Comesanha é psicóloga e vive há 9 anos com sua cônjuge, ela mora em Macapá há 11 anos e nunca teve um ginecologista no estado, mantendo a mesma desde que morava em Belém, ela faz viagens todos os anos para se consultar. Com a pandemia, foi impossibilitada de viajar e através de indicações de amigas foi em uma profissional em Macapá.

“No início da consulta ela foi ótima, super atenciosa, fez diversas perguntas. Mas no fim ela perguntou minha religião e se eu acreditava em Deus. Logo em seguida disse pra mim ‘algo me iluminou para eu te dar esse livro’ e era um livro do Silas Malafaia”, relata Oriana.

A atitude da médica a deixou desconfortável, porque se fosse uma mulher heterossexual ela não teria oferecido o livro de um pastor neopentecostal que prega contra a homossexualidade. Após esse acontecimento, Oriana nunca mais voltou ao consultório da médica, seus exames deram alterações, mas ela já não sentia segurança naquele ambiente.

“Essa história, ao meu ver, ilustra o quanto que essas barreiras invisíveis para nossa saúde, da população LGBTQIA+, podem ser muito sutis. É importante eu ter o mesmo acesso que uma mulher heterossexual tem, uma mulher heterossexual que mora em Macapá pode escolher qualquer profissional que ela tem muito mais segurança de que vai ser respeitada em um consultório ginecológico do que eu enquanto uma mulher lésbica. Eu não tenho esse mesmo acesso a um direito fundamental que é a saúde. As minhas escolhas para ter acesso a saúde são reduzidas.”, fala ela.

Pensando em mulheres como Oriana, a estudante de medicina da Universidade Federal do Pará (UFPA) Adriana Pires desenvolveu junto ao seu grupo de pesquisa, o projeto “A influência da relação médico-paciente no acesso e cuidado à saúde sexual de mulheres que fazem sexo com mulheres”. O nome longo faz jus à sua importância social, a pesquisa consiste em um questionário (acesse aqui) com perguntas voltadas a mulheres lésbicas e bissexuais sobre suas experiências em consultas ginecológicas.

Desde seu primeiro semestre, Adriana tinha o desejo de desenvolver algo voltado para a população LGBTQIA+, principalmente para lésbicas por ser o grupo do qual está inserida. Após a apresentação da Política Nacional de Atenção Integral LGBT em uma aula, a acadêmica sentiu falta de algo, achou o documento vago e foi atrás de outros voltados para a saúde lésbica e não achou. A partir desse momento, a ideia para o projeto surgiu.

“Uso muito o Twitter e eu leio coisas que são revoltantes, como o testemunho de mulheres lésbicas de médicos falarem que se elas não se relacionam com homens então são virgens, que exames para IST não eram necessários, ou ‘ah, volte aqui quando você se relacionar com homens’”, conta ela.

A negligência médica com essas mulheres pode resultar em problemas ginecológicos graves. No livro “Vem cá: Vamos Conversar Sobre a Saúde Sexual de Lésbicas e Bissexuais” há a história de uma mulher lésbica com menos de 30 anos que descobriu na emergência de um hospital que estava em estado avançado de câncer de colo de útero. Seu ginecologista nunca passou exames preventivos, ele alegava que não era necessário já que nunca havia se relacionado sexualmente com homens.

Existe a evidente necessidade de capacitação de profissionais da saúde em assuntos como gênero e sexualidade, o preconceito expõe mulheres a doenças e as deixa mais suscetíveis a situações de fragilidade de saúde. O espaço de saúde ginecológica precisa ser de acolhimento.

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