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Pode ser a chance de um recomeço...

A comemoração estava prestes a acontecer... estava tudo certo... data marcada, anel de formatura comprado, bolo encomendado e, o melhor, mamãe e irmãs só precisavam fazer o check-in para embarcar em Belém e vir pra Macapá. Eu estava radiante, afinal, minha primogênita se tornaria, oficialmente, engenheira elétrica.


Mas tudo mudou de uma hora pra outra. Dois dias antes da colação de grau, a Universidade Federal do Amapá anunciou a suspensão das atividades a partir de 16 de março em função da pandemia do Novo Corona Vírus. Fiquei arrasada, não tão surpresa, afinal, eu estava acompanhando os desdobramentos dessa doença altamente contagiosa, que vem assolando o planeta.


Além da decepção da colação suspensa, começava o período do #fiqueemcasa. Sair só para fazer as compras necessárias. No início, tudo bem, me mantive ativa, fazendo exercícios em casa e caminhadas no condomínio... até fui caminhar na orla, no primeiro sábado de quarentena (num horário tranquilo, com praticamente ninguém caminhando, viu?). Passei a assistir a todos os telejornais possíveis, na tv aberta, na Internet, ler todas as notícias possíveis, artigos científicos sobre a Covid 19. Já estava uma expert no assunto. Nas redes sociais, nossa, quanta ignorância, sinceramente, nem vou entrar nesse detalhe.


As notícias ruins (e, infelizmente, reais) começaram a me deprimir, a preocupação com meus pais, que são do grupo de risco, com meus filhos, irmãs, enfim, pessoas que eu amo, ficou mais forte. O medo de sair de casa e ser contaminada se tornou real e cruel pra mim. Pra piorar, tive uma crise de otite. Com medo de ir ao hospital, comecei a procurar amigos médicos pelo whatsapp. Estou medicada, mas o ouvido ainda dói. Mas, pior que a dor, é o medo de estar contaminada pela Covid 19, apesar de não ter os sintomas comuns e atípicos. Perguntei pra quatro médicos e todos me disseram pra ter calma, pois tudo indicava que era uma otite.


Mesmo assim, passei dias difíceis, madrugadas acordadas, lágrimas derramadas, coração apertado, um sentimento de solidão, uma angústia danada. Além de sofrer com o micro, ou seja, com as minhas dificuldades e frustrações pessoais, eu também estava sofrendo com o macro.


Eu sou católica de família, fui batizada, fiz primeira comunhão, casei na igreja, gosto de ir à missa, sou devota de Nossa Senhora de Nazaré (a Padroeira dos Paraenses) e de Nossa Senhora de Fátima (a dos três pastorinhos), mas sempre tive atração pela Doutrina Espírita. Ainda adolescente, por influência da minha mãe, passei a ler romances espíritas. Já adulta, passei a frequentar centros espíritas em Belém e, aqui em Macapá, me envolvi mais e passei a estudar o espiritismo. Portanto, tenho rezado diariamente pelo nosso planeta, pelos profissionais de saúde, pelos cientistas e por todos os que sofrem.


Hoje, duas semanas depois do início da quarentena, decidi me desligar um pouco. Claro que ainda acompanho as notícias, assisto aos principais telejornais, dou uma olhada nas redes sociais, mas não me demoro. Não sei como será daqui pra frente, ouvi dizer que passamos por várias fases na quarentena. Imagino que seja verdade. Porém, o que estou sentindo hoje me agrada. Continuo com medo, permaneço cuidadosa, acredito que o isolamento social é fundamental, penso que o momento é de coerência e união, me mantenho em oração e meu coração está mais calmo.


Acho que o que estou sentindo hoje é fruto do fim de semana de reflexão que passei. A gente faz planos, idealiza nossos projetos, marca tudo na agenda e, de repente, tudo sai do nosso controle. Como taurina, que gosta de ter tudo sob controle, de sentir segurança e os pés no chão, não tem sido um período fácil. Mas tem me ajudado a pensar sobre o micro e o macro. O momento atual é ideal para refletir. Parar pra pensar sobre como estamos vivendo há tanto tempo, momento de se perdoar e de perdoar os outros, momento de refazer planos, sim, não é pra parar de fazer planos, afinal, eles nos ajudam a seguir. Mas devemos entender que nem tudo está sob nosso controle e tudo bem se assim for.


Pela minha crença, temos livre arbítrio para escolher. Se escolhemos mal, a responsabilidade é nossa. Não coloque a culpa em Deus. Deus é energia boa, pena que a gente não sabe aproveitar, muitas vezes. Hoje, eu peço a Deus que proteja os que eu amo (olha o pensamento micro), mas, também, que o mundo saia dessa crise (uma verdadeira transição planetária), que nós, seres humanos, nos transformemos em criaturas melhores, capazes de enxergar além do nosso umbigo. Que a gente se transforme e ajude a transformar o mundo.


Ah. Não se esqueça, se puder, de #ficaremcasa.


Elisângela Andrade.

Professora de Jornalismo da Unifap.

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