Para além da fantasia: como hobbies podem contribuir para a saúde mental

Psicóloga e cosplayer Camila Leão destaca a importância dos hobbies, da comunidade e da expressão pessoal para o bem-estar emocional.
Por Wirna Duarte e Andeson Rocha*

Cosplay é a junção das palavras em inglês costume (fantasia) e roleplay (interpretação). A prática, que envolve a caracterização e a interpretação de personagens de filmes, séries, animes, mangás e videogames, vai além da fantasia e pode representar um espaço de socialização, expressão emocional e construção de vínculos para pessoas do meio geek.
Para compreender como esse universo pode influenciar o bem-estar e a saúde mental, conversamos com Camila Leão, conhecida como Milakehl na comunidade cosplay de Macapá. Psicóloga e cosplayer há cerca de dez anos, Camila já atuou com adolescentes, jovens e adultos em questões relacionadas à ansiedade, depressão, autoestima, relacionamentos e autoconhecimento. Além da atuação profissional, produz conteúdos sobre o universo geek nas redes sociais, compartilhando dicas de figurino, maquiagem e interpretação de personagens. Em seu perfil no Instagram, utiliza a frase “simplificando emoções com animes”, proposta que aproxima saúde mental, expressão emocional e cultura pop japonesa.
Você vê o cosplay funcionando como um espaço mais inclusivo para pessoas que normalmente se sentem deslocadas em ambientes sociais?
Sim, porque a comunidade é aberta para todo mundo. Todas as pessoas podem fazer cosplay, independentemente de gênero, idade, tamanho, cor ou biotipo. É uma comunidade muito aberta para diferentes perfis. Temos pessoas negras que fazem personagens brancos e isso às vezes gera discussões na internet, mas não existe um padrão obrigatório para fazer cosplay. Todas as pessoas podem participar.
Como essa caracterização do cosplay pode ajudar emocionalmente as pessoas?
Eu acho que o cosplay vem muito como uma forma de a pessoa se expressar. Faz com que ela saia da zona de conforto e, talvez, de um momento ruim que esteja passando. Existem personagens variados e a gente consegue se identificar facilmente com eles nas obras. Isso faz com que a pessoa escolha um personagem pensando em um sentimento que esteja querendo lidar ou expor.
Isso funciona para você?
Normalmente, sim. Eu gosto de me caracterizar e de fazer cosplays com os quais me identifico, que me representam tanto emocionalmente quanto visualmente. Não gosto de fazer personagem “só por fazer”, gosto de fazer personagens de obras pelas quais tenho algum apego. A gente tem os chamados cosdreams, que são os cosplays dos sonhos, aqueles personagens que sempre queremos fazer.
Você acredita que essa relação que você tem com o cosplay possa ser benéfica para lidar com o estresse do dia a dia?
Com certeza. O cosplay muitas vezes funciona como um escape e faz com que a pessoa, assim como acontece com qualquer hobby, consiga se distrair e abstrair o estresse e a ansiedade do dia a dia. Faz com que tudo fique mais leve e traz mais tranquilidade.
Como isso pode afetar emocionalmente as pessoas que participam dessa área?
Eu acho que principalmente pela comunicação. A gente acaba conhecendo muitas pessoas, fazendo amizades e trocando experiências. Conforme vamos conhecendo outras pessoas do meio, nos identificamos com elas, com os gostos delas e com as experiências que compartilham. Então, a amizade e esse contato acabam criando um ciclo social e uma rede de apoio dentro da comunidade.

Esse hobby pode ajudar pessoas a lidarem com problemas psicológicos, por exemplo, a fobia social?
Eu acho que ajuda bastante. Como a pessoa busca uma forma de se expressar, ela acaba colocando para fora aspectos da personalidade que normalmente ficam mais escondidos. O cosplay funciona como uma ferramenta de expressão e pode ajudar quem enfrenta ansiedade social, dificuldade para falar em público e de interação com outras pessoas.
As apresentações cosplay ajudam as pessoas a desenvolverem melhor a forma de se expressar?
Sim. Quando a gente sobe em um palco ou vai se apresentar, quer fazer o melhor possível naquele momento. Uma coisa que eu falava muito antigamente era: “esse é o melhor que eu consigo fazer agora. Se essa apresentação representa o meu melhor no momento, então está ótimo. Se daqui a alguns anos eu melhorar, será melhor ainda”. As apresentações e toda a socialização acabam funcionando como uma forma de unir coisas que, muitas vezes, a pessoa não consegue desenvolver tão facilmente no cotidiano.
O que acontece quando uma pessoa se identifica emocionalmente com o personagem?
Acho que surge um vínculo com aquilo que o personagem representa. Na maioria das vezes essa identificação é positiva, mas também existem situações em que ela pode não ser tão saudável. De modo geral, quando alguém escolhe fazer o cosplay de um personagem, está mostrando algo de si mesma. É uma forma de dizer: “Eu estou vestindo um cosplay, porque eu gosto desse personagem, ele me representa e ele conversa comigo dessa forma”.
Como sua experiência dentro do cosplay influencia o seu olhar profissional sobre a saúde mental?
Dá para relacionar muito bem cosplay, psicologia e saúde mental. O cosplay é um hobby, uma fonte de bem-estar, algo que a gente faz porque gosta e porque quer viver aquele momento. Mas, quando isso começa a atrapalhar o dia a dia, surgem problemas que variam de pessoa para pessoa. Hoje existe muita gente que faz cosplay principalmente para as redes sociais, e sabemos que isso pode gerar cobrança, ansiedade e outras dificuldades. Muitas pessoas entram nesse meio com essa intenção e acabam desistindo porque não conseguem lidar com a demanda que isso cria.
Você acredita que as redes sociais mudaram a forma como as pessoas vivem o cosplay atualmente em comparação com dez anos atrás?
Mudaram totalmente. Antigamente a gente fazia cosplay porque gostava. Hoje a gente faz também pensando em engajamento e naquilo que chama mais atenção. O cosplay ficou muito ligado à internet. Se você faz um cosplay, parece que precisa fazer fotos, vídeos, postar e esperar algum retorno em visualizações e curtidas.
Essa mudança trouxe mais acolhimento ou mais cobrança?
Eu acredito que trouxe mais cobrança. A partir do momento em que aquilo começa a gerar ansiedade, desconforto e autocrítica, e você percebe que está trazendo mais prejuízo do que deveria, acaba se tornando um problema tanto físico quanto psicológico.
O lazer pode se transformar em cobrança?
O lazer tem justamente a intenção de funcionar como um escape. Mas, dependendo da forma como a pessoa se relaciona com ele, pode acabar se tornando uma fonte de ansiedade. Isso não significa que todo hobby vá gerar esse problema, mas pode acontecer dependendo da maneira como ele é vivido. Dentro da comunidade existem muitos cosplayers que trabalham com isso, existe uma cobrança muito grande porque existe uma demanda muito grande.
Você gostaria de acrescentar mais alguma coisa?
A gente está dentro da comunidade porque gostamos dos personagens e das obras, mas, se começarmos a seguir apenas o que as pessoas pedem na internet, acabamos fazendo coisas que não queremos apenas por engajamento, curtidas e visualizações. Houve uma época em que eu virava noites produzindo fotos e vídeos para que tudo estivesse pronto logo pela manhã.
E isso se tornou algo desgastante na sua rotina como hobby?
Sim, foi se tornando desgastante e a rotina foi mudando. Eu acabei deixando de correr atrás dessa lógica das redes sociais. Hoje prefiro fazer os personagens que realmente tenho vontade do que tentar agradar outras pessoas. Apesar de querermos dar o nosso melhor, isso não pode acontecer a ponto de gerar desgaste físico e mental.
*Entrevista produzida na disciplina de Comunicação e Sociabilidade, ministrada pela professora Dra. Roberta Scheibe.



Comentários